Folha de S. Paulo
É improvável que senadores aceitassem mudar
uma regra para dar vitória ao governo que acabaram de derrotar
O presidente se expõe a um enfrentamento que
não tem capital político nem amparo jurídico para bancar
Chama-se balão de ensaio a ideia plantada no
noticiário político de que o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) cogita
reapresentar ao Senado o
nome de Jorge Messias para
ocupar a vaga aberta no Supremo Tribunal
Federal.
No caso, um balão com muitos furos. O maior deles esbarra na impossibilidade de os senadores examinarem duas vezes uma indicação na mesma legislatura. Ato normativo da Mesa da Casa, em tese poderia ser revogado mediante negociação entre as presidências da República e do Congresso.
E aí temos o segundo furo no balão. Davi
Alcolumbre (União-AP) e Lula não
estão exatamente em posição de boa vontade mútua, condição essencial à
construção exitosa de entendimentos.
As tentativas de recomposição feitas por
intermediários ainda não deram resultado, como observamos no distanciamento
entre os dois na posse de Kássio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral.
Alcolumbre manda, mas o peso do seu comando é
lastreado no maior ou menor apoio que tenha de seus pares. Ainda que se
dispusesse a atender a conveniências do Palácio do Planalto, dependeria de
sustentação no colegiado para levar a ação adiante.
Eis, então, o terceiro furo a ser remendado:
convencer os senadores que acabaram de derrotar o governo a mudar uma regra
para anular o próprio gesto de contrariedade. Não é impossível, mas altamente
improvável.
Considerando que o governo saiba de todos
esses obstáculos, a propagação da ideia de que haveria insistência na indicação
atenderia a dois possíveis propósitos: testar se houve mudança de clima depois
da trombada das conversas de Flávio
Bolsonaro (PL)
com Daniel
Vorcaro ou apenas marcar posição de autoridade de Lula na prerrogativa
de indicar juízes ao STF.
Ambas as hipóteses de frágil —para não dizer
inexistente— efeito prático. Se há outras intenções, por ora permanecem
ocultas. Fato é que Lula se expõe inutilmente a um enfrentamento que não tem
capital político nem amparo jurídico/institucional para bancar.

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