domingo, 17 de maio de 2026

O Espírito do Tempo, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

Os alemães, entre o final do século do Iluminismo e o início do XIX, usavam a expressão zeitgeist[1] para indicar os valores, ideias, sentimentos e percepções dominantes de uma época. O termo refere-se a um contexto específico, com características próprias. Algo próximo ao conceito de episteme, no qual Foucault define o que é pensável e dizível naquele contexto.

O espírito da época ou do tempo não é o resultado de nenhuma decisão particular, nem de um plano de uma organização qualquer, menos ainda de uma intervenção externa; antes, é o resultado de fluxos e dinâmicas que se configuram de forma singular em um determinado momento, em um território povoado por humanos.

As mudanças do espírito do tempo refletem-se nas modificações das linguagens, dos costumes e das leis, nas alterações dos padrões técnicos e econômicos, assim como no conteúdo e nas formas de consumo. São transformações que ocorrem em dimensões distintas, mas todas regidas por uma lógica comum. Elas fazem parte de um sistema único, autoinfluenciam-se e retroalimentam-se. Apontam em uma direção em meio a resistências, pois todo sistema humano é formado por tendências e contratendências. Todo futuro nasce da articulação particular de continuidades e descontinuidades. O rumo dominante não está predefinido; sua regência reside na incerteza, pois todo sistema complexo, como as sociedades humanas, é portador de emergências[2], do surgimento do novo, de disrupções ou “cisnes negros”, como diz Taleb [3].

Há um sentimento de que vivemos um espírito do tempo distinto daquele que imperou durante a segunda metade do século XX. Naquele momento, imaginava-se que o desenvolvimento econômico não tinha limites; que a ciência era a expressão suprema de nosso cérebro; que os direitos humanos eram uma aquisição civilizacional inquestionável; que o Estado de direito era a manifestação mais acabada da sabedoria política e de que o futuro estava ali, à espera de ser moldado por nossas mãos.

Hoje, o futuro é difuso e confuso, o Estado de direito é relegado, os direitos humanos são abandonados e a ciência é questionada. Imaginavam os sociólogos, na segunda metade do século XX, que a laicização era um traço incontestável da modernidade. Hoje, a religiosidade cresce e amplia-se. Havia um único medo: a guerra nuclear. Muito presente entre os europeus e muito pouco em outros continentes. Contudo, mecanismos diversos eram criados e citados para conter seu risco. Hoje, os tempos são outros: o que caracteriza o espírito do tempo atual?

Há inúmeras formas de falar desse tema, de encapuzá-lo. Escolhi uma forma — certamente devem existir outras melhores — definindo-o a partir de três elementos, a seguir descritos brevemente, pois o espaço é curto: pluralidade das ameaças, exacerbação da incerteza e declínio da esperança.

Toda sociedade humana tem o seu grande medo. Nos primórdios do Homo sapiens, eram os deuses — das chuvas, dos trovões, do fogo etc. Temiam os gregos a ira dos deuses, e os gauleses, que o céu lhes caísse na cabeça. Povos primevos sacrificavam vidas humanas para ganhar suas benesses. Para alguns povos primitivos, o medo maior era a fome; com o nascimento das cidades, a peste. Finalmente, as guerras. A presença e a intensidade desses medos entre os povos eram variáveis. Mas não eram muitos.

Hoje não temos um medo, mas muitos, provindos da pluralidade das ameaças. Arrolo oito para não cansar o leitor:

1.     guerra nuclear, mais presente que nunca com o aumento das guerras: Ucrânia, Gaza, Líbia, Irã, envolvendo potências nucleares como Israel, Rússia e Estados Unidos. O risco é maior com a perda de poder da maior potência militar do mundo.

2.     As mudanças climáticas, com seus eventos climáticos extremos, provocando perdas em vidas humanas, saúde, economia, infraestrutura e no desaparecimento de seres vivos. A expectativa é que eles sejam mais frequentes e mais intensos.

3.     contestação dos regimes democráticos, que cresceram desde a II Guerra Mundial até a débâcle, entre 1989 e 1991, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). No século XXI, porém, registram-se claros sinais de recuo desse movimento, com crescimento de vertentes políticas autoritárias. Hoje, a maioria dos humanos vive sob regimes semiautoritários ou claramente autoritários.

4.     recessão econômica, que se manifesta pela queda constante das taxas do PIB mundial, que não foi maior graças ao crescimento de países emergentes da Ásia e África. A marca da presente economia mundial é a instabilidade, agudizada, recentemente, pelas guerras supracitadas.

5.     Todos os cientistas e estadistas sabem — e, de forma difusa, muitos cidadãos e cidadãs — que uma nova pandemia pode emergir a qualquer momento, sem que se conheça sua magnitude, disseminação e gravidade.

6.     As inovações tecnológicas são uma caixa de Pandora. Ao lado dos benefícios conhecidos, há temores diversos e intensos, particularmente em relação à inteligência artificial, à robotização e automação, que ameaçam os empregos para os jovens e a segurança do sistema financeiro com a expansão de computadores quânticos. O que será da criptografia?

7.     Crescimento dos processos de desinformação e negacionismo da ciência. Hoje não se sabe se os eventos são verdadeiros, se a fala de um personagem é verídica ou se uma notícia tem respaldo empírico. O falso e o verdadeiro se imbricam de forma indecifrável.

8.     Finalmente, para ficarmos em alguns exemplos: o crescimento da desigualdade. Duas centenas de famílias detêm mais riqueza do que uma centena de países. O 0,1% mais rico vive em um mundo à parte, preparando-se para enfrentar e sobreviver à catástrofe que eles mesmos estão criando.

Essa pluralidade de ameaças provoca medo e ansiedade. Como as sociedades humanas são complexas e diferenciadas, esses fenômenos se manifestam diferentemente: mais em alguns territórios e menos em outros; mais no Ocidente, menos no Oriente; mais entre os jovens, menos entre os adultos. Registram-se muitas reações, entre as quais o acirramento do consumo, junto com a descrença na ciência, enquanto o niilismo ganha forma. Para muitos, o futuro se torna um vazio.

O segundo componente que caracteriza o espírito do tempo é a exacerbação da incerteza, esta propriedade intrínseca aos sistemas abertos e dinâmicos, provocada pela rapidez das dinâmicas sociais, com a criação de outras configurações sociais, novos atores e atrizes e suas nupérrimas relações.

Essencialmente, podem-se identificar duas formas de incerteza: a do ser e a do saber. A incerteza do saber (epistemológica) é resolvida pelo aumento da produção de informações, de pesquisas e experimentos; a incerteza do ser (ontológica) é intransponível, pois depende da variabilidade, profusão e indefinição dos componentes do sistema. Afinal, não sabemos o que não sabemos.

No século XIX, e por algum tempo do século XX, acreditava-se que o avanço das ciências sociais provocaria um movimento de transparência crescente das relações sociais, permitindo o conhecimento antecipado da sua evolução. Este era o sonho da “física social” de Auguste Comte no século XIX, que o surgimento do funcionalismo e, sobretudo, do estruturalismo no século XX reafirmaram. No entanto, o resultado foi o inverso: menor capacidade de antecipação da trajetória das sociedades humanas.

Morin afirma que esta incerteza hodierna surge não por falta de fatos e teorias, mas porque o próprio sistema está mudando enquanto o observamos. Vivemos o paradoxo de termos mais informações e menos conhecimento sobre a sociedade humana. Outra vez, provocado pela velocidade das mudanças e pela profusão de novos entes e relações que o sistema social cria. E esta incerteza, abordada de forma linear, em vez de ser um terreno propício à criatividade, conduz-nos à paralisia. Ela pede outro tipo de abordagem para ser plenamente compreendida, que reside nas teorias da complexidade.

O terceiro e último elemento do espírito do tempo é o declínio da esperança. Esta é compreendida como a expectativa ou o desejo de um futuro positivo, mesmo que incerto.

Esperança e medo são dois lados da mesma moeda: ambos se deparam com a impossibilidade de prever o futuro, morada privilegiada da incerteza. No entanto, adotam procedimentos antagônicos. O medo se nutre da paralisia; a esperança, da ação, do desejo de mudança.

Isso porque a esperança, segundo Santo Agostinho, tem duas lindas filhas: a indignação com o estado das coisas e a coragem para mudá-las. O declínio significa o arrefecimento da coragem, alimentado pelo desaparecimento da indignação. Esta, todavia, persiste em movimentos erráticos contra governos e instituições democráticas, derrubando dirigentes para colocar outros que serão, em seguida, derrubados, em um ciclo de desgaste da democracia. Uma indignação difusa, sem metas, que gera o sentimento niilista, sustentado pelo domínio da técnica que transforma o humano em recurso a ser usado pelo capital.

Paradoxalmente, este elemento do espírito do tempo traduz a quebra da teleologia do progresso: o progresso técnico não garante o progresso humano. O futuro deixou de ser uma promessa; tornou-se apenas uma ameaça. Estamos arriscados a cair no “presentismo”: a ausência de futuro.

Esses traços do espírito do tempo nascem da conjugação de quatro eventos do final do século passado: (i) o fim da guerra entre as duas ideologias do século XX: liberdade própria da economia de mercado e da democracia liberal versus a igualdade prometida pelo socialismo e economia planejada; (ii) a terceira revolução industrial/tecnológica, com a criação do mundo digital, da robotização e automação crescente das atividades humanas, com aumento exponencial da comunicação e produção de informações, e com a retomada da inteligência artificial; (iii) a segunda onda de internacionalização da economia (denominada de globalização), articulando as diversas economias de mercado que dominam o mundo do Ocidente ao Oriente; e, sem que haja hierarquia entre esses eventos, (iv) a vitória do neoliberalismo, reduzindo a intervenção do Estado e ampliando o valor e a lógica de mercado.

Com isso, o mundo ficou menor e mais integrado, porém com mais e novos tipos de riscos e maior velocidade em suas mudanças. Ao que se deve acrescentar a maior complexidade das sociedades humanas.

Contudo, esses elementos que formam o espírito do tempo convivem com seus contrários. A teoria da complexidade e as iniciativas de transdisciplinaridade tentam se opor a esses elementos no plano epistemológico, chamando a atenção para o fato de que o incômodo ante a pluralidade das ameaças, a exacerbação da incerteza e o declínio da esperança é, em grande parte, nutrido por um pensamento linear que não percebe a incerteza como algo inerente, que não pode ser expulsa do pensar e deve ser enfrentada como campo de experimentação. A ciência tradicional expulsa a incerteza; a moderna a incorpora. A desesperança nasce do pensamento linear que não admite o contraditório, a essencialidade do dialógico. E só consegue pensar o futuro de forma extrapolativa, e não por cenários, guardando sempre espaço para o incerto e o improvável.

Por todas essas razões, ao invés de nos alimentar de um otimismo tolo ou um pessimismo fatalista, deveríamos nos nutrir de uma esperança do improvável. Como disse Edgar Morin, em sua mais recente entrevista ao Le Monde (11 de abril de 2026): “A esperança pode surgir quando tudo parece perdido”. Relembrando 1942, quando os resistentes ao nazismo, como ele, acreditavam que Hitler iria dominar toda a Europa.

[1] Do Zeit – tempo e Geist – espírito.

[2] A emergência em si é normalmente imprevisível e representa um novo nível de evolução dos sistemas. Surge quando uma quantidade de agentes simples opera em um ambiente singular, formando comportamentos complexos e novos.

[3] Nassim Nicholas Taleb. A lógica do cisne negro. O impacto do altamente improvável. Rio de Janeiro: Bestseller, 2008.

*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

 

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