O espírito da época ou do tempo não é o
resultado de nenhuma decisão particular, nem de um plano de uma organização
qualquer, menos ainda de uma intervenção externa; antes, é o resultado de
fluxos e dinâmicas que se configuram de forma singular em um determinado
momento, em um território povoado por humanos.
As mudanças do espírito do tempo
refletem-se nas modificações das linguagens, dos costumes e das leis, nas alterações
dos padrões técnicos e econômicos, assim como no conteúdo e nas formas de
consumo. São transformações que ocorrem em dimensões distintas, mas todas
regidas por uma lógica comum. Elas fazem parte de um sistema único,
autoinfluenciam-se e retroalimentam-se. Apontam em uma direção em meio a
resistências, pois todo sistema humano é formado por tendências e
contratendências. Todo futuro nasce da articulação particular de continuidades
e descontinuidades. O rumo dominante não está predefinido; sua regência reside
na incerteza, pois todo sistema complexo, como as sociedades humanas, é
portador de emergências[2],
do surgimento do novo, de disrupções ou “cisnes negros”, como diz Taleb [3].
Há um sentimento de que vivemos um espírito do tempo distinto daquele que imperou durante a segunda metade do século XX. Naquele momento, imaginava-se que o desenvolvimento econômico não tinha limites; que a ciência era a expressão suprema de nosso cérebro; que os direitos humanos eram uma aquisição civilizacional inquestionável; que o Estado de direito era a manifestação mais acabada da sabedoria política e de que o futuro estava ali, à espera de ser moldado por nossas mãos.
Hoje, o futuro é difuso e confuso, o
Estado de direito é relegado, os direitos humanos são abandonados e a ciência é
questionada. Imaginavam os sociólogos, na segunda metade do século XX, que a
laicização era um traço incontestável da modernidade. Hoje, a religiosidade
cresce e amplia-se. Havia um único medo: a guerra nuclear. Muito presente entre
os europeus e muito pouco em outros continentes. Contudo, mecanismos diversos
eram criados e citados para conter seu risco. Hoje, os tempos são outros: o que
caracteriza o espírito do tempo atual?
Há inúmeras formas de falar desse tema,
de encapuzá-lo. Escolhi uma forma — certamente devem existir outras melhores —
definindo-o a partir de três elementos, a seguir descritos brevemente, pois o
espaço é curto: pluralidade das ameaças, exacerbação da incerteza e declínio da
esperança.
Toda sociedade humana tem o seu grande
medo. Nos primórdios do Homo sapiens, eram
os deuses — das chuvas, dos trovões, do fogo etc. Temiam os gregos a ira dos
deuses, e os gauleses, que o céu lhes caísse na cabeça. Povos primevos
sacrificavam vidas humanas para ganhar suas benesses. Para alguns povos
primitivos, o medo maior era a fome; com o nascimento das cidades, a peste.
Finalmente, as guerras. A presença e a intensidade desses medos entre os povos
eram variáveis. Mas não eram muitos.
Hoje não temos um medo, mas muitos,
provindos da pluralidade das ameaças. Arrolo oito para não cansar o leitor:
1.
A guerra nuclear, mais
presente que nunca com o aumento das guerras: Ucrânia, Gaza, Líbia, Irã,
envolvendo potências nucleares como Israel, Rússia e Estados Unidos. O risco é
maior com a perda de poder da maior potência militar do mundo.
2.
As mudanças climáticas,
com seus eventos climáticos extremos, provocando perdas em vidas humanas,
saúde, economia, infraestrutura e no desaparecimento de seres vivos. A
expectativa é que eles sejam mais frequentes e mais intensos.
3.
A contestação dos regimes
democráticos, que cresceram desde a II Guerra Mundial até a débâcle, entre 1989 e 1991, da União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas (URSS). No século XXI, porém, registram-se claros sinais
de recuo desse movimento, com crescimento de vertentes políticas autoritárias.
Hoje, a maioria dos humanos vive sob regimes semiautoritários ou claramente
autoritários.
4.
A recessão econômica,
que se manifesta pela queda constante das taxas do PIB mundial, que não foi
maior graças ao crescimento de países emergentes da Ásia e África. A marca da
presente economia mundial é a instabilidade, agudizada, recentemente, pelas
guerras supracitadas.
5.
Todos os cientistas e estadistas sabem
— e, de forma difusa, muitos cidadãos e cidadãs — que uma nova pandemia pode emergir a qualquer momento, sem
que se conheça sua magnitude, disseminação e gravidade.
6.
As inovações tecnológicas são
uma caixa de Pandora. Ao lado dos benefícios conhecidos, há temores diversos e
intensos, particularmente em relação à inteligência artificial, à robotização e
automação, que ameaçam os empregos para os jovens e a segurança do sistema
financeiro com a expansão de computadores quânticos. O que será da
criptografia?
7.
Crescimento dos processos de desinformação e negacionismo da ciência. Hoje não
se sabe se os eventos são verdadeiros, se a fala de um personagem é verídica ou
se uma notícia tem respaldo empírico. O falso e o verdadeiro se imbricam de
forma indecifrável.
8.
Finalmente, para ficarmos em alguns
exemplos: o crescimento da desigualdade. Duas
centenas de famílias detêm mais riqueza do que uma centena de países. O 0,1%
mais rico vive em um mundo à parte, preparando-se para enfrentar e sobreviver à
catástrofe que eles mesmos estão criando.
Essa pluralidade de ameaças provoca
medo e ansiedade. Como as sociedades humanas são complexas e diferenciadas,
esses fenômenos se manifestam diferentemente: mais em alguns territórios e
menos em outros; mais no Ocidente, menos no Oriente; mais entre os jovens,
menos entre os adultos. Registram-se muitas reações, entre as quais o
acirramento do consumo, junto com a descrença na ciência, enquanto o niilismo
ganha forma. Para muitos, o futuro se torna um vazio.
O segundo componente que caracteriza o
espírito do tempo é a exacerbação da incerteza, esta propriedade intrínseca aos
sistemas abertos e dinâmicos, provocada pela rapidez das dinâmicas sociais, com
a criação de outras configurações sociais, novos atores e atrizes e suas
nupérrimas relações.
Essencialmente, podem-se identificar
duas formas de incerteza: a do ser e a do saber. A incerteza do saber
(epistemológica) é resolvida pelo aumento da produção de informações, de
pesquisas e experimentos; a incerteza do ser (ontológica) é intransponível,
pois depende da variabilidade, profusão e indefinição dos componentes do
sistema. Afinal, não sabemos o que não sabemos.
No século XIX, e por algum tempo do
século XX, acreditava-se que o avanço das ciências sociais provocaria um
movimento de transparência crescente das relações sociais, permitindo o
conhecimento antecipado da sua evolução. Este era o sonho da “física social” de
Auguste Comte no século XIX, que o surgimento do funcionalismo e, sobretudo, do
estruturalismo no século XX reafirmaram. No entanto, o resultado foi o inverso:
menor capacidade de antecipação da trajetória das sociedades humanas.
Morin afirma que esta incerteza
hodierna surge não por falta de fatos e teorias, mas porque o próprio sistema
está mudando enquanto o observamos. Vivemos o paradoxo de termos mais
informações e menos conhecimento sobre a sociedade humana. Outra vez, provocado
pela velocidade das mudanças e pela profusão de novos entes e relações que o
sistema social cria. E esta incerteza, abordada de forma linear, em vez de ser
um terreno propício à criatividade, conduz-nos à paralisia. Ela pede outro tipo
de abordagem para ser plenamente compreendida, que reside nas teorias da
complexidade.
O terceiro e último elemento do
espírito do tempo é o declínio da esperança. Esta é compreendida como a
expectativa ou o desejo de um futuro positivo, mesmo que incerto.
Esperança e medo são dois lados da mesma
moeda: ambos se deparam com a impossibilidade de prever o futuro, morada
privilegiada da incerteza. No entanto, adotam procedimentos antagônicos. O medo
se nutre da paralisia; a esperança, da ação, do desejo de mudança.
Isso porque a esperança, segundo Santo
Agostinho, tem duas lindas filhas: a indignação com o estado das coisas e a
coragem para mudá-las. O declínio significa o arrefecimento da coragem,
alimentado pelo desaparecimento da indignação. Esta, todavia, persiste em
movimentos erráticos contra governos e instituições democráticas, derrubando
dirigentes para colocar outros que serão, em seguida, derrubados, em um ciclo
de desgaste da democracia. Uma indignação difusa, sem metas, que gera o
sentimento niilista, sustentado pelo domínio da técnica que transforma o humano
em recurso a ser usado pelo capital.
Paradoxalmente, este elemento do
espírito do tempo traduz a quebra da teleologia do progresso: o progresso
técnico não garante o progresso humano. O futuro deixou de ser uma promessa;
tornou-se apenas uma ameaça. Estamos arriscados a cair no “presentismo”: a
ausência de futuro.
Esses traços do espírito do tempo
nascem da conjugação de quatro eventos do final do século passado: (i) o fim da
guerra entre as duas ideologias do século XX: liberdade própria da economia de
mercado e da democracia liberal versus a
igualdade prometida pelo socialismo e economia planejada; (ii) a terceira
revolução industrial/tecnológica, com a criação do mundo digital, da
robotização e automação crescente das atividades humanas, com aumento
exponencial da comunicação e produção de informações, e com a retomada da
inteligência artificial; (iii) a segunda onda de internacionalização da
economia (denominada de globalização), articulando as diversas economias de
mercado que dominam o mundo do Ocidente ao Oriente; e, sem que haja hierarquia
entre esses eventos, (iv) a vitória do neoliberalismo, reduzindo a intervenção
do Estado e ampliando o valor e a lógica de mercado.
Com isso, o mundo ficou menor e mais
integrado, porém com mais e novos tipos de riscos e maior velocidade em suas
mudanças. Ao que se deve acrescentar a maior complexidade das sociedades
humanas.
Contudo, esses elementos que formam o
espírito do tempo convivem com seus contrários. A teoria da complexidade e as
iniciativas de transdisciplinaridade tentam se opor a esses elementos no plano
epistemológico, chamando a atenção para o fato de que o incômodo ante a
pluralidade das ameaças, a exacerbação da incerteza e o declínio da esperança
é, em grande parte, nutrido por um pensamento linear que não percebe a
incerteza como algo inerente, que não pode ser expulsa do pensar e deve ser
enfrentada como campo de experimentação. A ciência tradicional expulsa a
incerteza; a moderna a incorpora. A desesperança nasce do pensamento linear que
não admite o contraditório, a essencialidade do dialógico. E só consegue pensar
o futuro de forma extrapolativa, e não por cenários, guardando sempre espaço
para o incerto e o improvável.
Por todas essas razões, ao invés de nos
alimentar de um otimismo tolo ou um pessimismo fatalista, deveríamos nos nutrir
de uma esperança do improvável. Como disse Edgar Morin, em sua mais recente
entrevista ao Le Monde (11 de abril de
2026): “A esperança pode surgir quando tudo parece perdido”. Relembrando 1942,
quando os resistentes ao nazismo, como ele, acreditavam que Hitler iria dominar
toda a Europa.
[1] Do Zeit – tempo
e Geist – espírito.
[2] A emergência em si é normalmente imprevisível
e representa um novo nível de evolução dos sistemas. Surge quando uma
quantidade de agentes simples opera em um ambiente singular, formando
comportamentos complexos e novos.
[3] Nassim Nicholas Taleb. A lógica do cisne negro. O impacto do altamente improvável.
Rio de Janeiro: Bestseller, 2008.
*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da
Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento
Sustentável/UnB (2007/2011).

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