sábado, 23 de maio de 2026

O grande Rio de Janeiro, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Com suas trapalhadas e suas amizades escandalosas, Flávio Bolsonaro sugere que o Brasil se transforme no grande Rio de Janeiro, onde o poder público foi envolvido pela corrupção

Chico Buarque disse, com sua boa música e melhor poesia, que o Brasil poderia se transformar em imenso Portugal. A brincadeira poético-musical era elogiosa, porque a pátria mãe, que durante muitos anos foi vista como um país no norte da África, foi aceita pela União Europeia e se transformou. Passou a contar com bons hotéis, melhores restaurantes e grandes centros de compras. O país deixou de ser o local apenas para comer bacalhau e passou a oferecer múltiplas oportunidades. Os brasileiros fazem a festa por lá.

Essa imagem me veio à cabeça porque o candidato Flávio Bolsonaro, com suas trapalhadas e suas amizades escandalosas, sugere que o Brasil se transforme no grande Rio de Janeiro. Machuca muito escrever isso. Nasci perto do Rio de Janeiro e cresci na cidade. Desfrutei das praias, do bom futebol e dos restaurantes. Temporada feliz. Mas aquele Rio de Janeiro não existe mais. Depois do surgimento veloz e feroz da chamada Zona Oeste, a criminalidade tomou conta de boa parte da cidade. O tráfico de drogas assumiu grandes áreas, as grandes favelas se transformaram em territórios autônomos para proteger quadrilhas de assaltantes de vários tipos e categorias. Meu filho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi obrigado a se proteger, algumas vezes, dentro da sala de aula, do tiroteio que corria solto lá fora. Foi assaltado, confrontado com arma na mão, dentro do campus.

Histórias de policiais envolvidos com a criminalidade são muitas. Às vezes são até folclóricas, como a do sujeito que teve a sua moto roubada e procurou a polícia. Na delegacia, recebeu o endereço dos três maiores ladrões de motos do Rio. Com a sugestão de que ele procurasse o ladrão e pagasse pela liberação da própria motocicleta. O delegado naturalmente receberia algum pela corretagem. Os apontadores do jogo do bicho fazem parte da paisagem carioca. Eles mandam nas ruas da cidade. Ninguém pode estacionar em local em que estão trabalhando. Eles chamam a polícia. É isso mesmo. Os bicheiros mandam os reboques do Detran, que levam seu carro. Depois, o proprietário deve pagar uma série de benefícios para liberar o veículo.

O poder público foi envolvido pela corrupção. E a cidade dominada pelas milícias, pelos comandos criminosos que se estruturaram nas favelas e passaram a lidar com quantias financeiras consideráveis. Começaram a importar armas pesadas capazes de fazer enfrentamentos, de igual para igual, com Polícia e Exército. Nada disso aconteceu por acaso. Os últimos cinco governadores do estado do Rio de Janeiro foram presos por corrupção e leniência com o crime organizado. 

O último ainda não foi preso, apenas cassado, pretendia ser candidato a senador, mas a Justiça interrompeu sua carreira. A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro é um antro dominado pela criminalidade. Flávio Bolsonaro reinou ali, onde implantou o sistema da rachadinha. Vários deputados foram presos. Alguns, cassados. Por causa de sucessivos impedimentos, o atual governador do Rio de Janeiro é o desembargador Ricardo Couto. Ele, que não é ligado a nenhum grupo criminoso, promove uma limpa no governo do estado, o que ocorre pela primeira vez nas últimas décadas.

Esse é o mundo Bolsonaro. O universo de atuação da família, cuja residência em condomínio horizontal na Barra da Tijuca irradiou sua influência pela região. Por via da política, tentou controlar todo o país. Militares desinformados chegaram a apoiar a loucura do golpe de Estado no país, para evitar novas eleições. E entronizar as milícias no poder no Brasil. Jair, ex-presidente, já demonstrara seu profundo desprezo pelas massas quando abandonou o povo no momento da pandemia. Ele não se dignou a visitar um hospital, nem lamentou as 700 mil mortes. Exerceu o poder para colocar a mão no dinheiro. A avidez com que Flávio, o candidato, se lançou sobre as posses, furtadas, de Daniel Vorcaro é autoexplicativa. Eles gostam muito de dinheiro em qualquer circunstância.

O perfil de Flávio Bolsonaro é nítido. Ele é produto da família que se comporta como uma famiglia mafiosa italiana de filme norte-americano. O pai manda, os filhos obedecem e se espalham pelo país, para tentar eleições em diversos estados. Eles fazem o discurso contra as elites para destruir as elites. O Brasil já viu candidatos como esses, destinados a limpar, passar a vassoura e construir nova sociedade. Todos, desde Jânio Quadros, terminam demonstrando sua tendência autoritária. Flávio Bolsonaro é apenas um arrivista, rápido na ação de amealhar dinheiro com a mão grande, que pretende se passar por reformista, coisa que ele nem sabe o significado. É o desastre anunciado na tentativa de criar o grande Rio de Janeiro.

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