O Estado de S. Paulo
Não desfazendo da obstinação do bolsonarismo
eduardista por estabelecer relações na Casa Branca, a conta do acesso de Flávio
Bolsonaro ao primeiro escalão da administração Trump – sobretudo a Marco Rubio
e J.D. Vance – não fechará sem a variável
lobby-de-algum-grupo-econômico-pesado.
Isto parece ser condição fundamental para se chegar ao presidente dos EUA: ter o apoio de bilionários de cujos investimentos o governo, donde o projeto de poder trumpista, dependa. Lula tem os seus empresários abridores de portas em Washington. Está explícito. Nem sempre será, talvez porque os de Flávio – o cronista especula – sejam financiadores do Partido Republicano e do movimento MAGA. Atenção a isso.
Atenção também às consequências de terem os
dois principais postulantes à Presidência se lançado a uma competição por
exibir, como ativo eleitoral, o que tiraria a melhor fotografia com Donald
Trump; a quem assim convidaram às eleições brasileiras. A primeira
interferência – por ora de natureza político-eleitoral – está feita.
A foto de Flávio representou ao mesmo tempo o
marco de uma posição – em prol de o governo americano declarar terroristas PCC
e CV – e uma aposta: a de que o faria antes das eleições. A declaração veio no
dia seguinte à sua última reunião na Casa Branca, encontro vendido como tendo o
tema por centro. O ato é contribuição direta à agenda-campanha bolsonarista,
associado Lula a gestões formais contrárias à reclassificação, doravante
pressionado a se posicionar a respeito.
Não será fácil. Porque já está ligado o
moedor discursivo eleitoral, os argumentos técnicos tornados pretexto para
“proteger bandido”. Não será fácil. Porque não é fácil aplicar à questão
corrente a defesa clássica da soberania nacional. O caso das tarifas baixadas
contra o País tinha poucas nuances. O presidente deitou e rolou então, os
Bolsonaro como “entreguistas” etc. Agora é mais complexo. Flávio fala em
“libertar você” – o brasileiro – “do governo paralelo”.
Há uma batalha pela captura da percepção do
indivíduo-eleitor. Uma disputa entre soberania macro – a defesa dos interesses
pátrios contra a interferência estrangeira – e soberania micro, aquela cuja
inexistência é atestada no mundo real, na experiência das ruas, lá onde as
gentes, sob coação permanente de um Estado marginal, não têm o direito de ir e
vir, territórios cada vez maiores sob controle das facções.
Não é fácil se opor – no Brasil, num ano
eleitoral, sendo a segurança assunto decisivo – ao que fez o governo Trump.
Porque posta está a armadilha da contradição. Afinal, o discurso atual de Lula
– contra o magnata morador de Miami cuja operação no mercado financeiro
serviria à lavagem transnacional de recursos do crime organizado – é
consistente com o objeto da nova diretriz americana.
Ante a evidência de que os governos locais,
federal incluído, não conseguem resolver o problema da segurança pública, o
cidadão será tentado pelo desejo de testar solução radical inédita. É isso que
Flávio Bolsonaro quer instrumentalizar.

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