domingo, 31 de maio de 2026

Para que serve a política? Por Ana Dubeux

Correio Braziliense

A tragédia que se abateu sobre o BRB traz lições relevantes. Ajuda a distinguir aqueles que estão comprometidos com o futuro do Distrito Federal daqueles que buscam o poder a qualquer custo.

A verdadeira política sobrevive ao proselitismo. Ela deve estar além de alinhamento partidário-ideológico e existir para o seu fim: trazer benefícios reais às pessoas. O acordo firmado, na última quinta-feira, entre o Governo do Distrito Federal (GDF) e a União, que permite ao BRB adquirir um empréstimo de R$ 6,5 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), mostra mais do que costumamos ver na política: uma prova de que o governo federal existe também para socorrer os entes federativos, independentemente da relação entre o presidente da República e as forças que elegeram e sustentaram a chapa Ibaneis Rocha-Celina Leão.

A postura institucional do governo Lula, que contou com o empenho do Supremo Tribunal Federal para superar limitações jurídicas, será essencial para recompor a liquidez do banco e conter a fase mais aguda da crise do BRB, evitando o colapso do banco e sem comprometer ainda mais os recursos do contribuinte. Essa engenharia político-financeira-jurídica que tornou o acordo possível deve ser comemorada não só pelo efeito em si, mas pelo resgate do sentido real da política. Em situações extremas, não há adversários políticos. Deveria ser assim sempre, mas não é. Ponto para o presidente Lula, que sai do imbróglio BRB com postura de estadista.

Sabemos que o prejuízo do BRB supera em muito o valor do empréstimo. Sabemos, também, que o acordo não significa um referendo de proteção a qualquer custo. E o mais importante: não apaga o esquema criminoso que drenou o dinheiro do banco, do cliente e do contribuinte para uma operação fraudulenta que se tornou um dos maiores escândalos financeiros do país. As apurações estão em curso, e de nada adianta salvar um banco se não punir de forma exemplar quem praticou o crime. Isso caberá às autoridades policiais e à Justiça.

Mais do que nunca, precisamos dar nome às coisas e aos feitos. Batizar e reconhecer ações, propósitos e sentidos. Resgatar o real significado da política. Pensei muito nisso quando fizemos aqui no Correio, na semana passada, um evento sobre desinformação. Nada é mais necessário do que restabelecer a verdade, aquela que está além da interpretação, da análise e da opinião, ainda que tudo isso seja necessário para um jornalismo de qualidade e, sobretudo, para o fortalecimento da democracia.

Fazer política é, antes de tudo, um exercício de cidadania, não um atalho para enriquecer. Esse pensamento é bastante lógico, mas não sobrevive nos meandros do poder. O escândalo Master-BRB legou ao eleitor do Distrito Federal um novo baque, com graves indícios de corrupção e danos que afetam a todos os brasilienses. Afinal, o Banco de Brasília é um patrimônio da cidade; tem uma missão histórica anterior à chegada daqueles que praticaram gestão criminosa e rapinagem na instituição. 

A tragédia que se abateu sobre o BRB traz lições relevantes. Ajuda a distinguir aqueles que estão comprometidos com o futuro do Distrito Federal daqueles que buscam o poder a qualquer custo. Na política como na vida, os maiores ensinamentos vêm nas mais graves crises. E não se pode negar que, no caso do BRB, ficou fácil identificar quem procura resolver o problema e quem prefere ver o circo pegar fogo.  

Esperamos que os candidatos ao próximo governo no DF se esforcem para oferecer propostas que sejam o melhor para o Distrito Federal. Brasília, sempre visada e muitas vezes injustiçada, é uma vitrine permanente para o país. Chega de provincianismo e machismo na nossa política.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.