Correio Braziliense
A tragédia que se abateu sobre o BRB traz
lições relevantes. Ajuda a distinguir aqueles que estão comprometidos com o
futuro do Distrito Federal daqueles que buscam o poder a qualquer custo.
A verdadeira política sobrevive ao proselitismo. Ela deve estar além de alinhamento partidário-ideológico e existir para o seu fim: trazer benefícios reais às pessoas. O acordo firmado, na última quinta-feira, entre o Governo do Distrito Federal (GDF) e a União, que permite ao BRB adquirir um empréstimo de R$ 6,5 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), mostra mais do que costumamos ver na política: uma prova de que o governo federal existe também para socorrer os entes federativos, independentemente da relação entre o presidente da República e as forças que elegeram e sustentaram a chapa Ibaneis Rocha-Celina Leão.
A postura institucional do governo Lula, que
contou com o empenho do Supremo Tribunal Federal para superar limitações
jurídicas, será essencial para recompor a liquidez do banco e conter a fase
mais aguda da crise do BRB, evitando o colapso do banco e sem comprometer ainda
mais os recursos do contribuinte. Essa engenharia político-financeira-jurídica
que tornou o acordo possível deve ser comemorada não só pelo efeito em si, mas
pelo resgate do sentido real da política. Em situações extremas, não há
adversários políticos. Deveria ser assim sempre, mas não é. Ponto para o
presidente Lula, que sai do imbróglio BRB com postura de estadista.
Sabemos que o prejuízo do BRB supera em muito
o valor do empréstimo. Sabemos, também, que o acordo não significa um referendo
de proteção a qualquer custo. E o mais importante: não apaga o esquema
criminoso que drenou o dinheiro do banco, do cliente e do contribuinte para uma
operação fraudulenta que se tornou um dos maiores escândalos financeiros do
país. As apurações estão em curso, e de nada adianta salvar um banco se não
punir de forma exemplar quem praticou o crime. Isso caberá às autoridades
policiais e à Justiça.
Mais do que nunca, precisamos dar nome às
coisas e aos feitos. Batizar e reconhecer ações, propósitos e sentidos.
Resgatar o real significado da política. Pensei muito nisso quando fizemos aqui
no Correio, na semana passada, um evento sobre desinformação. Nada é mais
necessário do que restabelecer a verdade, aquela que está além da
interpretação, da análise e da opinião, ainda que tudo isso seja necessário
para um jornalismo de qualidade e, sobretudo, para o fortalecimento da democracia.
Fazer política é, antes de tudo, um exercício
de cidadania, não um atalho para enriquecer. Esse pensamento é bastante lógico,
mas não sobrevive nos meandros do poder. O escândalo Master-BRB legou ao
eleitor do Distrito Federal um novo baque, com graves indícios de corrupção e
danos que afetam a todos os brasilienses. Afinal, o Banco de Brasília é um
patrimônio da cidade; tem uma missão histórica anterior à chegada daqueles que
praticaram gestão criminosa e rapinagem na instituição.
A tragédia que se abateu sobre o BRB traz
lições relevantes. Ajuda a distinguir aqueles que estão comprometidos com o
futuro do Distrito Federal daqueles que buscam o poder a qualquer custo. Na
política como na vida, os maiores ensinamentos vêm nas mais graves crises. E não
se pode negar que, no caso do BRB, ficou fácil identificar quem procura
resolver o problema e quem prefere ver o circo pegar fogo.
Esperamos que os candidatos ao próximo
governo no DF se esforcem para oferecer propostas que sejam o melhor para o
Distrito Federal. Brasília, sempre visada e muitas vezes injustiçada, é uma
vitrine permanente para o país. Chega de provincianismo e machismo na nossa
política.

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