segunda-feira, 18 de maio de 2026

Pleno emprego ou subutilização? Por João Saboia

Valor Econômico

Uma análise mais profunda dos dados da Pnad Contínua mostra que alguns problemas antigos permanecem, embora em menor escala

O mercado de trabalho tem apresentados alguns indicadores bastante favoráveis nos últimos meses. Forte capacidade de geração de empregos, desemprego em queda, renda em alta e redução da informalidade são atributos desejáveis em qualquer mercado de trabalho. E isso tem acontecido no Brasil a ponto de até mesmo se ouvirem comentários de que estaríamos em situação de pleno emprego, ou quase lá.

Mas uma leitura mais cuidadosa dos dados da Pnad Contínua do IBGE mostra que nem tudo são flores. Alguns problemas antigos permanecem, embora em menor escala, mas estão aí para serem reconhecidos e enfrentados.

Vejamos inicialmente o desemprego. No primeiro trimestre deste ano, a taxa não passou de 6,1%, bem abaixo dos 7% de um ano atrás e dos 8,8% do primeiro trimestre de 2023. Sem dúvida, uma ótima evolução, mas que ainda representa 6,6 milhões de pessoas desocupadas no início de 2026. A contrapartida dessa queda foi o forte aumento da ocupação, com 102 milhões de pessoas ocupadas, 1,5 milhão a mais em relação há um ano. Por sinal, neste começo de ano, havia 39,2 milhões de pessoas ocupadas no setor privado com carteira assinada, representando o maior valor de toda a série da Pnad Contínua. Tal dado se reflete de alguma forma na maior taxa de contribuintes para a Previdência Social desde o início do levantamento da Pnad Contínua (66,9 %)

O total de pessoas subutilizadas fornece um quadro bem mais amplo da situação do que olhando apenas para o desemprego. No primeiro trimestre de 2026, havia 16,3 milhões de pessoas subutilizadas, incluindo, além dos 6,6 milhões de desocupados, 4,4 milhões de subutilizados por insuficiência de horas trabalhadas e 5,3 milhões na força de trabalho potencial, dos quais 2,9 milhões desalentados. Tais números, embora impressionantes, são bem melhores que as 21,2 milhões de pessoas subutilizadas do primeiro trimestre de 2023.

Olhando apenas para os ocupados, verifica-se que das 102 milhões de pessoas ocupadas no primeiro trimestre de 2026, 38,1 milhões estavam na informalidade, representando uma taxa de 37,3% do total de ocupados. É verdade que essa taxa vem caindo, mas ainda representa uma enorme parcela da população ocupada. São considerados como informais pelo IBGE: empregados no setor privado sem carteira de trabalho assinada; empregados domésticos sem carteira de trabalho assinada; empregadores sem registro no CNPJ; trabalhadores por conta própria sem registro no CNPJ; e trabalhadores familiares auxiliares.

Com relação ao nível médio de rendimento do trabalho, houve crescimento desde 2022, atingindo, no primeiro trimestre de 2026, o maior valor da série (R$ 3.722). O crescimento do rendimento médio e o aumento do número de ocupados produziram também a maior massa de rendimentos do trabalho no país no início de 2026 (R$ 375 bilhões mensais).

Sem dúvida, os números acima confirmam forte melhora do mercado de trabalho do país ao longo do atual governo. Mas daí a se falar em pleno emprego há uma grande diferença. Como poderia haver pleno emprego, ou algo parecido, num país com 16,3 milhões de pessoas subutilizadas, das quais 6,6 milhões estão desempregadas? Cabe acrescentar que a subutilização atinge, principalmente, mulheres, pessoas jovens, pretas e pardas. Há importantes diferenciais regionais, com taxas mais elevadas na região Nordeste e mais baixas na região Sul.

Enquanto se discute a redução da jornada, 4,4 milhões de pessoas trabalham menos horas do que gostariam

A recente divulgação pelo IBGE dos dados de renda da população em 2025 acrescenta uma nova dimensão para a análise do mercado de trabalho. Além do rendimento do trabalho, ela cobre outras fontes de renda como pensões, aposentadorias, Bolsa Família, BPC, seguro-desemprego, aluguéis, ganhos financeiros etc. O rendimento do trabalho representa 75,1% do total de rendimentos dos domicílios, seguindo-se as pensões e aposentadorias com 16,4% e as diversas transferências dos programas sociais do governo com 3,5%. Em outras palavras, a renda gerada no mercado de trabalho é responsável por três quartos de todo o rendimento dos domicílios.

A renda média mensal domiciliar per capita (R$ 2.264) atingiu, em 2025, seu maior valor em toda a série histórica da Pnad Contínua, mas os desníveis regionais são enormes, variando entre R$ 1.231 no Maranhão e R$ 4.401 no Distrito Federal. O rendimento do trabalho é a principal fonte da renda domiciliar em todas as regiões do país, entre 67,4% no Nordeste e 78,9% no Centro-Oeste. São dados que mais uma vez confirmam as enormes disparidades de rendimentos no país.

Voltando à questão destacada no título do artigo, não queremos negar que possa estar havendo falta de mão de obra em alguns setores e em determinadas ocupações, mas isso parece ser mais pontual do que disseminado pela economia. Uma importante questão que se coloca nesse momento é sobre o que pode ser feito para diminuir a população subutilizada. Ao mesmo tempo em que o país discute a redução da jornada máxima de trabalho, 4,4 milhões de pessoas afirmam trabalhar menos horas do que gostariam. Parece um paradoxo, mas confirma que importante parcela da população poderia ser melhor utilizada no mercado de trabalho.

Como reduzir a força de trabalho potencial de 5,3 milhões de pessoas, que não trabalham, não procuram emprego, mas que gostariam de trabalhar e estão disponíveis? Ou aquelas que não trabalham, procuram emprego, mas não podem assumir a vaga por alguma razão? Como reduzir o desalento das 2,2 milhões de pessoas que também gostariam de trabalhar, estavam disponíveis, mas não procuram trabalho por acreditar que não encontrarão vagas? E ainda tem a inteligência artificial chegando com força, o que deverá trazer novos complicadores para o mercado de trabalho.

Esses são alguns desafios, cujas respostas não são simples, mas devem ser procuradas, encontradas e implementadas. Certamente, tais respostas passam por uma maior qualificação da força de trabalho, procurando ajustar a oferta à demanda do mercado. Passam pela melhoria do ensino público em geral, inclusive pelo maior desenvolvimento da educação profissional. Passam também pela ampliação de vagas na educação infantil (creche e pré-escola), permitindo que as mães possam voltar ao mercado de trabalho depois do nascimento de seus filhos e filhas. Enfim, trata-se de um amplo conjunto de políticas públicas que poderia ser utilizado para ampliar as possibilidades de inclusão e permanência da população no mercado de trabalho.

*João Saboia é professor emérito do Instituto de Economia da UFRJ

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