quarta-feira, 20 de maio de 2026

Próteses, por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

Meu velho professor de Ciências Ocultas e Letras Apagadas, o dr. Roberval Flores, admitiu sua surdez quando, numa aula sobre malandragem e desfaçatez no Brasil, ouviu “titica”, mas a aluna dizia “política”. Depois de um teste no qual os sons se ocultavam para o mestre do oculto, o professor comprou uma caríssima prótese de ouvido. Agora, os sons antes ocultos brotam com a mesma nudez da corrupção sem polarização na elite política nacional.

Antigamente, o roubo era uma prótese de meliantes, devidamente ocultada. Hoje, foi-se o segredo dos conchavos entre compadres (hoje irmãos) seguros de que as dádivas trocadas entre eles jamais seriam gravadas e televisionadas. Hoje, porém, é possível ser generoso misturando a casa com a rua para receber as devoluções implícitas na velha lei da troca, desvendada por Marcel Mauss. Pois a regra do dar, receber e retribuir tem óbvios limites, sem os quais não há igualdade democrática. O problema é a força do favor que anula as exigências de imparcialidade. Aí está o centro da crise.

Essa foi a prótese realizada pelo dono do Banco Master, um mestre na arte de seduzir pelo favor uma elite relacional aflita para enriquecer. A comunicação digital, por sua vez, tem sido a prótese que condenou a confidencialidade patrimonialista do “só vou contar para você”, por meio da inconveniente universalidade do “todo mundo sabe” das redes sociais.

Essa prótese de sempre introduzir o pessoal no impessoal é o resultado, como diz o professor Roberval, dos elos de reciprocidade que destroem a confiança na Justiça, no trabalho e no Estado. Elos motivados pelo desejo de “ficar rico por meio de uma boca rica” e, de preferência, salvando o Brasil.

Quem sabe, pensou o mestre, isso não seria um desregramento de uma sociedade obcecada em tudo legislar? Nela, há leis para tudo como nas Ordenações Filipinas e Manuelinas, mas o que fazer quando as relações escapam do formalismo jurídico? A crença no formalismo é distorcida pelo peso dos elos pessoais, pois quem vai bloquear o interesse de sua mulher, filhos, irmãos e amigos, quando misturam casa com rua?

Noto, com o historiador dos tribunais luso-brasileiros Stuart Schwartz, que, no Brasil, o leal sinônimo de bom, belo e certo chega à fantasia de achar que costumes fundados em favores podem ser resolvidos por leis.

Mas, pergunta o mestre das Ciências Ocultas, a revolução burguesa que suprimiu o parentesco como fonte exclusiva de poder político, substituindo-o por um mercado eleitoral, não foi uma prótese?

A mais infeliz de todas as próteses, porém, finalizou o mestre, é se achar dono do Brasil para salvá-lo de outros donos, sem pensar em salvá-lo de si mesmo. Tarefa que depende exclusivamente de nós.

*É Antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, malandros e heróis’

 

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