O Estado de S. Paulo
Meu velho professor de Ciências Ocultas e
Letras Apagadas, o dr. Roberval Flores, admitiu sua surdez quando, numa aula
sobre malandragem e desfaçatez no Brasil, ouviu “titica”, mas a aluna dizia
“política”. Depois de um teste no qual os sons se ocultavam para o mestre do
oculto, o professor comprou uma caríssima prótese de ouvido. Agora, os sons
antes ocultos brotam com a mesma nudez da corrupção sem polarização na elite
política nacional.
Antigamente, o roubo era uma prótese de meliantes, devidamente ocultada. Hoje, foi-se o segredo dos conchavos entre compadres (hoje irmãos) seguros de que as dádivas trocadas entre eles jamais seriam gravadas e televisionadas. Hoje, porém, é possível ser generoso misturando a casa com a rua para receber as devoluções implícitas na velha lei da troca, desvendada por Marcel Mauss. Pois a regra do dar, receber e retribuir tem óbvios limites, sem os quais não há igualdade democrática. O problema é a força do favor que anula as exigências de imparcialidade. Aí está o centro da crise.
Essa foi a prótese realizada pelo dono do
Banco Master, um mestre na arte de seduzir pelo favor uma elite relacional
aflita para enriquecer. A comunicação digital, por sua vez, tem sido a prótese
que condenou a confidencialidade patrimonialista do “só vou contar para você”,
por meio da inconveniente universalidade do “todo mundo sabe” das redes
sociais.
Essa prótese de sempre introduzir o pessoal
no impessoal é o resultado, como diz o professor Roberval, dos elos de
reciprocidade que destroem a confiança na Justiça, no trabalho e no Estado.
Elos motivados pelo desejo de “ficar rico por meio de uma boca rica” e, de
preferência, salvando o Brasil.
Quem sabe, pensou o mestre, isso não seria um
desregramento de uma sociedade obcecada em tudo legislar? Nela, há leis para
tudo como nas Ordenações Filipinas e Manuelinas, mas o que fazer quando as
relações escapam do formalismo jurídico? A crença no formalismo é distorcida
pelo peso dos elos pessoais, pois quem vai bloquear o interesse de sua mulher,
filhos, irmãos e amigos, quando misturam casa com rua?
Noto, com o historiador dos tribunais
luso-brasileiros Stuart Schwartz, que, no Brasil, o leal sinônimo de bom, belo
e certo chega à fantasia de achar que costumes fundados em favores podem ser
resolvidos por leis.
Mas, pergunta o mestre das Ciências Ocultas,
a revolução burguesa que suprimiu o parentesco como fonte exclusiva de poder
político, substituindo-o por um mercado eleitoral, não foi uma prótese?
A mais infeliz de todas as próteses, porém,
finalizou o mestre, é se achar dono do Brasil para salvá-lo de outros donos,
sem pensar em salvá-lo de si mesmo. Tarefa que depende exclusivamente de nós.
*É Antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais,
malandros e heróis’

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