domingo, 10 de maio de 2026

Silêncio de peixe fora d'água, por Muniz Sodré

Por Folha de S. Paulo

Por manter a boca fechada, ao contrário do desbocado genitor, Flávio ostenta a marca de 'moderado'

Se desata o nó na garganta, deita cobras e lagartos pela boca, incompatíveis com senso mínimo até de candidato a vereador

"Peixe morre pela boca" é velho ditado com aplicações novas na vida política. Disso é ilustrativo Bolsonaro 2.0, Flávio, filho 01 do ex-presidente encarcerado. Candidato à Presidência da República por mérito digital, logo, críptico, evita falar sobre programa político. Há razões, segundo o irmão 03: "Ele morde a isca com mais facilidade do que lambari em anzol de mosquito". Uma arrelia de quem pesca em águas turvas.

Mutismo tem suas vantagens. No início dos anos 90, Alberto Fujimori disputou com Mario Vargas Llosa a Presidência do Peru. Grande escritor e intelectual conservador, Vargas Llosa seduzia as elites "criollas" (descendentes de espanhóis) com cultos discursos. Fujimori preferia calar. Não que fosse desprovido de argumentos: agrônomo, professor, tinha ideias próprias sobre o agro peruano e planos para combater as guerrilhas do Sendero Luminoso e do Movimento Revolucionário Tupác Amaru, que assombravam o país. Sem o brilho de Vargas Llosa, porém, trocava falatório por encontros nos "pueblos libres", favelas locais, onde escutava calado as queixas de virtuais eleitores, em especial as "cholas", mulheres indígenas. Eleito, derrotou a guerrilha, reelegeu-se e terminou derrotado por corrupção em larga escala, massacres de civis inocentes e abuso de poder. Passou 16 anos na cadeia.

Conhecida, a história é oportuna pela coincidência da candidatura de Keiko Fujimori com a de Flávio Bolsonaro. Filhos de ex-presidentes com experiência prisional, ambos militam na extrema direita e avançam nas pesquisas. A diferença é que Keiko fala pelos cotovelos, surfando na maré dos desacertos presidenciais e da corrupção sistêmica em seu país. Na pequena política, o tempo é senhor da desrazão: ela espera que o eleitorado recorde o terror mortífero das guerrilhas urbanas, esquecendo o terror corrupto da era Fujimori.

Por manter a boca fechada, ao contrário do desbocado genitor, Flávio ostenta a marca de "moderado". Nos EUA, porém, tem dado corda à língua para assegurar que entregará tudo que seu mestre pedir: solo, subsolo, tudo mais. Aqui, ao falar do pai, debulha-se em choro, alheio a que "lágrimas não são argumentos". Não é aforismo textual, só que assim, em "Dom Casmurro" e "Quincas Borba", Machado de Assis desconfia das emoções convenientes: de salto alto, Bolsonaro 2.0 saltita e dança em surdina. Mas se lhe desata o nó na garganta, deita cobras e lagartos pela boca, incompatíveis com senso mínimo até de candidato a vereador do mesmo partido: uma vez eleito, disse, congelaria salários de aposentados. "Falta-lhe musculatura", sentenciou um líder pastoral.

Genes não são digitais, o que há mesmo é falta genética de cognição. O irmão mais novo, 04, foi descrito por um deputado-influencer como de "capacidade cognitiva menor que uma toupeira cega". Já o boquirroto 02 acusa esse deputado, não de falar mal, mas de "dirigir logaritmos" contra o clã. Lobista anti-Brasil, foragido, aspira ao Senado e ao Ministério do Exterior. Compreende-se, assim, que não seja nada inocente o silêncio de Flávio Bolsonaro: é treta de quem se cala, com amargos de boca, devido ao peso embaraçoso da carga.

 

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