Valor Econômico
Tanto o Brasil quanto os EUA têm a ganhar com
o encontro hoje na Casa Branca
O mais auspicioso prenúncio do encontro desta
quinta entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump foi feito
por Paulo Figueiredo. O influenciador, que reinvindica a condição de
interlocutor do bolsonarismo com o governo americano, disse, em seu programa no
Youtube na terça-feira, que a visita é fruto do empenho do empresário
brasileiro Joesley Batista. O grupo J&F, disse, estaria por trás de um suposto
investimento de interesse binacional em minerais estratégicos no Brasil a ser
anunciado na Casa Branca.
Figueiredo atribui a um grupo que financiou a posse de Trump, mas hoje é investigado por cartel nos EUA, o poder de confirmar um encontro que, há mais de um ano, é perseguido pela diplomacia brasileira e formatar um negócio de “bilhões de dólares” num momento em que o Brasil sequer tem um marco regulatório concluído do setor.
A secretária de Agricultura dos EUA, Brooke
Rollins, foi além do cartel e disse que a JBS tem histórico documentado de
“corrupção internacional e atividades ilícitas”. O J&F não comenta e
bolsonaristas veem uma cortina de fumaça para agradar eleitores de regiões em
que estão instalados frigoríficos concorrentes do grupo.
O bolsonarismo vale-se da ausência do
Departamento de Estado numa agenda que teria sido formatada diretamente pela
Casa Branca como indício da participação de Joesley Batista, como o teria feito
no destravamento do diálogo do Brasil-EUA no ano passado, durante o tarifaço.
Paulo Figueiredo não parou por aí. Disse
ainda que, em troca, o governo brasileiro obteria o compromisso de que o PCC e
o CV não seriam classificados de “organizações terroristas”. A única inferência
segura de tudo isso é que o bolsonarismo está fulo, o que é prenúncio de
entendimento, tanto em minerais estratégicos quanto em segurança. Na escolha de
ambos os temas, pelo menos, Figueiredo parece ter ido no rumo.
A derrota no Irã, resumida pelo secretário do
Departamento de Estado, Marco Rubio, pela constatação de que “a missão foi
cumprida” naquele país impõe a necessidade de que Trump engatilhe acordos em
defesa de interesses de seu país. Como o Brasil tem a segunda maior reserva de
minerais estratégicos do mundo, a agenda atenderia ao propósito. Na teoria a
prática é outra. Um acordo com o Brasil está muito longe de compensar o
desgaste colhido por Trump na opinião pública americana em função desta guerra.
Os propósitos internos de Trump com esta
visita não são da alçada nacional. O que compete ao Brasil é assegurar o
interesse nacional. Com uma avalanche de emendas protocoladas ao longo desta
quarta, 86 até o início da noite, das quais 42 foram acatadas, o parecer do
deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) para a exploração do setor preservou a
agregação de valor na extração e processamento para evitar que essas reservas,
como nas jazidas de ferro da Itabira de Drummond, findem numa fotografia na
parede.
Antes do marco regulatório para a exploração
de minerais críticos e estratégicos, Jardim também foi o relator da Lei de
Reciprocidade, outra salvaguarda do interesse nacional. Apesar de não ser da
base governista, Jardim pôs-se de acordo com o Executivo, inclusive ao afastar
a ideia de uma estatal e convergir na criação de um conselho com participação
do setor público, privado e da academia para aprovar mudanças de controle
societário das mineradoras. Se a lei estivesse vigente, a venda da Serra Verde,
em Goiás, para uma empresa americana teria que ter sido aprovada por este
conselho.
Durante dois seminários realizados pelo Banco
Interamericano de Desenvolvimento em Washington, em outubro e dezembro de 2025,
Jardim pescou, nos bastidores, a queixa de agentes públicos e privados
americanos de que o Brasil daria prioridade à China. O texto a ser levado por
Lula a Trump nesta quinta é um atestado de que o país não discrimina a origem
do investidor. Internamente, sinaliza alargamento ao centro.
Como contrapartida americana, é aguardado,
pelo Brasil, o recuo nas acusações de prática de concorrência desleal do Pix e
na suposta vantagem competitiva conferida pelo desmatamento. É aguardado,
ainda, o entendimento não apenas para evitar sanções decorrentes de carimbos
indevidos de “terrorismo” quanto no intercâmbio das investigações de lavagem de
dinheiro, como aquelas que hoje atingem o dono da Refit, Ricardo Magro,
radicado nos EUA e investigado na Carbono Oculto.
Dias antes de Lula desembarcar em Washington
para ser recebido na Casa Branca, um grande empresário americano da área de
tecnologia com investimentos numa emergente empresa brasileira fez um jantar
para um banqueiro local. Neste encontro, este empresário apostou na derrota de
Trump nas eleições de meio de mandato em novembro e na vitória da chapa
democrata do governador da Califórnia, Gavin Newson, e da deputada Alexandra
Ocasio-Cortez para a Casa Branca em 2028. Nem os EUA de hoje nem o de amanhã o
entusiasmam.
Se este é o humor prevalecente na elite
empresarial que se engajou na eleição do presidente republicano, o encontro
desta quinta entre Lula e Trump tem chances de se transformar num ganha-ganha.
A seguir este roteiro, a foto do presidente na Casa Branca certamente
desgostará o bolsonarismo e pode dar algum fôlego para Lula encarar os reveses
na política interna em sua volta ao Brasil.

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