quinta-feira, 7 de maio de 2026

Zanga bolsonarista é prenúncio de química Lula-Trump, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Tanto o Brasil quanto os EUA têm a ganhar com o encontro hoje na Casa Branca

O mais auspicioso prenúncio do encontro desta quinta entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump foi feito por Paulo Figueiredo. O influenciador, que reinvindica a condição de interlocutor do bolsonarismo com o governo americano, disse, em seu programa no Youtube na terça-feira, que a visita é fruto do empenho do empresário brasileiro Joesley Batista. O grupo J&F, disse, estaria por trás de um suposto investimento de interesse binacional em minerais estratégicos no Brasil a ser anunciado na Casa Branca.

Figueiredo atribui a um grupo que financiou a posse de Trump, mas hoje é investigado por cartel nos EUA, o poder de confirmar um encontro que, há mais de um ano, é perseguido pela diplomacia brasileira e formatar um negócio de “bilhões de dólares” num momento em que o Brasil sequer tem um marco regulatório concluído do setor.

A secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, foi além do cartel e disse que a JBS tem histórico documentado de “corrupção internacional e atividades ilícitas”. O J&F não comenta e bolsonaristas veem uma cortina de fumaça para agradar eleitores de regiões em que estão instalados frigoríficos concorrentes do grupo.

O bolsonarismo vale-se da ausência do Departamento de Estado numa agenda que teria sido formatada diretamente pela Casa Branca como indício da participação de Joesley Batista, como o teria feito no destravamento do diálogo do Brasil-EUA no ano passado, durante o tarifaço.

Paulo Figueiredo não parou por aí. Disse ainda que, em troca, o governo brasileiro obteria o compromisso de que o PCC e o CV não seriam classificados de “organizações terroristas”. A única inferência segura de tudo isso é que o bolsonarismo está fulo, o que é prenúncio de entendimento, tanto em minerais estratégicos quanto em segurança. Na escolha de ambos os temas, pelo menos, Figueiredo parece ter ido no rumo.

A derrota no Irã, resumida pelo secretário do Departamento de Estado, Marco Rubio, pela constatação de que “a missão foi cumprida” naquele país impõe a necessidade de que Trump engatilhe acordos em defesa de interesses de seu país. Como o Brasil tem a segunda maior reserva de minerais estratégicos do mundo, a agenda atenderia ao propósito. Na teoria a prática é outra. Um acordo com o Brasil está muito longe de compensar o desgaste colhido por Trump na opinião pública americana em função desta guerra.

Os propósitos internos de Trump com esta visita não são da alçada nacional. O que compete ao Brasil é assegurar o interesse nacional. Com uma avalanche de emendas protocoladas ao longo desta quarta, 86 até o início da noite, das quais 42 foram acatadas, o parecer do deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) para a exploração do setor preservou a agregação de valor na extração e processamento para evitar que essas reservas, como nas jazidas de ferro da Itabira de Drummond, findem numa fotografia na parede.

Antes do marco regulatório para a exploração de minerais críticos e estratégicos, Jardim também foi o relator da Lei de Reciprocidade, outra salvaguarda do interesse nacional. Apesar de não ser da base governista, Jardim pôs-se de acordo com o Executivo, inclusive ao afastar a ideia de uma estatal e convergir na criação de um conselho com participação do setor público, privado e da academia para aprovar mudanças de controle societário das mineradoras. Se a lei estivesse vigente, a venda da Serra Verde, em Goiás, para uma empresa americana teria que ter sido aprovada por este conselho.

Durante dois seminários realizados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento em Washington, em outubro e dezembro de 2025, Jardim pescou, nos bastidores, a queixa de agentes públicos e privados americanos de que o Brasil daria prioridade à China. O texto a ser levado por Lula a Trump nesta quinta é um atestado de que o país não discrimina a origem do investidor. Internamente, sinaliza alargamento ao centro.

Como contrapartida americana, é aguardado, pelo Brasil, o recuo nas acusações de prática de concorrência desleal do Pix e na suposta vantagem competitiva conferida pelo desmatamento. É aguardado, ainda, o entendimento não apenas para evitar sanções decorrentes de carimbos indevidos de “terrorismo” quanto no intercâmbio das investigações de lavagem de dinheiro, como aquelas que hoje atingem o dono da Refit, Ricardo Magro, radicado nos EUA e investigado na Carbono Oculto.

Dias antes de Lula desembarcar em Washington para ser recebido na Casa Branca, um grande empresário americano da área de tecnologia com investimentos numa emergente empresa brasileira fez um jantar para um banqueiro local. Neste encontro, este empresário apostou na derrota de Trump nas eleições de meio de mandato em novembro e na vitória da chapa democrata do governador da Califórnia, Gavin Newson, e da deputada Alexandra Ocasio-Cortez para a Casa Branca em 2028. Nem os EUA de hoje nem o de amanhã o entusiasmam.

Se este é o humor prevalecente na elite empresarial que se engajou na eleição do presidente republicano, o encontro desta quinta entre Lula e Trump tem chances de se transformar num ganha-ganha. A seguir este roteiro, a foto do presidente na Casa Branca certamente desgostará o bolsonarismo e pode dar algum fôlego para Lula encarar os reveses na política interna em sua volta ao Brasil.

 

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