Valor Econômico
Família atua como parte de um movimento
global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita
A movimentação política dos irmãos Bolsonaro em busca do apoio do governo Trump para enfraquecer o governo brasileiro, por meio da destruição da economia do país, é mais do que um plano para ganhar as eleições presidenciais. Esse objetivo se submete a outro maior: garantir a hegemonia da extrema direita no continente. E as duas dimensões anteriores se vinculam a um projeto mais forte que comanda ambas: a política trumpista de intervenção na política latino-americana. Flávio Bolsonaro é um soldado nesta história, não o comandante.
É preciso compreender essas três dimensões da
relação entre o bolsonarismo e o trumpismo. Boa parte da cobertura jornalística
deu a impressão de que Flávio e Eduardo Bolsonaro mudaram a cabeça de
Washington. Sem dúvida que eles pressionaram e tentaram gerar um timing
adequado para a designação do Comando Vermelho e do PCC como organizações
terroristas. Mas eles não comandam o pacote completo da política trumpista para
a América Latina. Em vez disso, adaptam-se erraticamente ao projeto de Trump
para a região, já que Flávio Bolsonaro foi escolhido como candidato oficial do
governo americano à Presidência do Brasil.
A maior prova disso é que, embora soubessem
que Trump ainda preparava mais maldades ao Brasil, Eduardo e Flávio não tinham
total consciência do projeto de retaliação comercial, que envolveu diretamente
o ataque ao extremamente popular Pix e a setores econômicos nacionais que
apoiaram o bolsonarismo recentemente, mas que agora poderão perder riqueza
graças à aliança entre a família Bolsonaro e o governo americano.
Por isso, após comemorar a definição de
terrorismo para o crime organizado brasileiro, Flávio Bolsonaro ficou atônito e
teme um efeito político similar ao do tarifaço do ano passado. Ele e seu irmão
são cúmplices nessa tramoia, porém, em grande medida ocupam esse papel porque
aceitaram ser liderados de forma subserviente pelo governo americano, que quer
definir os rumos do Brasil. Neste sentido, são traidores da pátria que esperam
ter benefícios políticos diretos tornando-se marionetes do trumpismo.
Ainda é cedo para dizer quais serão todos os
efeitos dessa aliança de subordinação. Só que se houver de fato consequências
econômicas do novo tarifaço, ainda mais com pressão para acabar com o Pix,
Flávio perderá uma parte dos eleitores de direita, mas não numa parcela tão
grande que permita a ascensão de Caiado e Zema, pois estes se contentam em
ficar como linhas de apoio envergonhado ao bolsonarismo. O problema maior é
outra conta: nunca mais recuperarão a maior parcela dos votos dos
independentes, favorecendo claramente a candidatura de Lula.
Flávio chegaria, assim, ao segundo turno com
poucas chances de vitória, a não ser que haja intervenção maior do governo
americano na política brasileira. Essa última hipótese parece absurda, mas ela
passa pela cabeça dos irmãos, sobretudo Eduardo, que é o grande ideólogo da
família e que pretende recuperar em algum momento a cidadania brasileira, mesmo
que a vida americana tenha tido um financiamento invejável para um fugitivo
político.
Uma pergunta se impõe aqui: por que Flávio
Bolsonaro trocou um plano que estava dando certo por outro tão incerto e que
lhe imprime uma visão sórdida de traidor da pátria? Afinal, o projeto do
Bolsonaro moderado, que tomava vacina e não falava palavrões, tinha fortalecido
sua candidatura. Desde que fora lançado e adotou esse figurino, o Zero Um
crescera nas pesquisas, tanto no primeiro como no segundo turno. Eleitores da
direita não bolsonarista migraram nas pesquisas em peso para ele, que também
estava abocanhando grande parte dos independentes, inclusive muitos que tinham
votado em Lula em 2022. Parecia que ele conseguiria realizar a revanche do pai.
O estouro do escândalo de suas relações
promíscuas com Daniel Vorcaro parece ser o fato principal. E muitas revelações
ainda podem surgir dessa história envolvendo o enrolado caso de financiamento
do filme “Dark Horse”, inclusive um “videozinho”, como o próprio Flávio já
profetizou. O flanco da corrupção não para por aí, porque cada vez mais será
conhecido o funcionamento da cleptocracia montada pelos bolsonaristas no
governo do Rio, e esse lamaçal tem grandes chances de alcançar a família Bolsonaro.
Falcatruas e relações não republicanas com o
mundo da política e do crime já eram conhecidas por muitos que acompanham as
peripécias da família Bolsonaro desde a década de 1990. Mas o mais visado entre
eles era justamente Flávio, conhecido pela rachadinha e pela contratação ou
condecoração de milicianos, fatos de sua época como deputado estadual da Alerj.
Mesmo assim, a aposta no bolsonarismo moderado estava ganhando tração
eleitoral. Decerto que o tamanho do escândalo envolvendo sua irmandade com
Vorcaro pegou muita gente de surpresa, especialmente os eleitores independentes
que começavam a acreditar no novo Flávio.
Sem querer tirar o peso dos escândalos na
mudança de estratégia da família Bolsonaro, talvez fosse impossível manter até
o final da eleição o perfil pretensamente moderado porque isso não corresponde
ao âmago do bolsonarismo. Em algum momento isso viria à tona, mesmo que de
forma menos desastrosa, desde que as conversas íntimas com Vorcaro apareceram
na mídia. É preciso voltar às três dimensões enunciadas no primeiro parágrafo:
a nacional, a internacional e a da geopolítica trumpista para a América Latina.
No plano nacional, o bolsonarismo é marcado
por ser a face da extrema direita local, defensora da ditadura militar e de
seus torturadores, da tentativa de golpe de Estado, do uso de um discurso
agressivo para destruir inimigos e ex-amigos pelas redes sociais, e dos motes
que lhe davam maior popularidade: Deus, pátria, família e liberdade. O
patriotismo das manifestações de rua, todos com camisas da seleção, era o
espetáculo principal de sua ideologia. Fechando o enredo estava Jair Bolsonaro,
um líder popular que odiava as instituições democráticas.
Parte desse roteiro se perdeu no meio do
caminho, principalmente com o fracasso do 8 de janeiro e pelo julgamento e
posterior prisão de Jair. Sobraram os filhos para sucedê-lo, mas Eduardo foi
para os EUA para tentar dar um golpe de fora para dentro, ao passo que Flávio
teria o papel de segurar o leme na política interna, tornando-se, ao final, o
herdeiro da dinastia com a candidatura presidencial. Há a figura ascendente de
Michele, mas ela não chefiará o clã enquanto o marido estiver vivo.
Toda essa história política e familiar dos
Bolsonaros não se esgota nas suas relações com o Brasil. E aqui entra a segunda
dimensão que sempre esteve presente: o bolsonarismo faz parte de um movimento
global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita, que atua
em várias partes do mundo, principalmente nas Américas e na Europa. Um grupo
político de combate à democracia e de defesa de um reacionarismo enorme frente
a temas como imigração, família, religião e contra discursos progressistas de
minorias, como as mulheres e os negros.
A Internacional da Extrema Direita teve como
grande baluarte Steve Bannon, um dos principais inspiradores da visão política
de Trump. Continua forte na Europa, com desempenhos impressionantes como
recentemente nas eleições locais no Reino Unido, mas tem tido dificuldades por
conta das mudanças geopolíticas, como a guerra na Ucrânia e os conflitos cada
vez maiores com os EUA. Daí que hoje o principal impulso a esse movimento vem
da política trumpista, particularmente no âmbito da América Latina. Essa é a
terceira dimensão que afeta o bolsonarismo profundo e constitui o farol da
família Bolsonaro.
O segundo governo Trump é mais do que uma
forma política de extrema direita. É expansionista, beligerante e
intervencionista. Para a América Latina, o modelo geopolítico é a tentativa de
reavivar a Doutrina Monroe - a América para os (norte-)americanos. O Brasil e o
México são os maiores obstáculos a esse projeto, seja pela força política e
econômica de ambos, seja em razão de suas lideranças presidenciais, que não
abaixaram a cabeça e nem querem entregar o país como deseja a família
Bolsonaro.
Os Bolsonaros sustentam suas ideias e projeto
de poder não só no território nacional. Eles têm seus alicerces principais fora
do Brasil, seja na Internacional da Extrema Direita, seja cada vez mais na sua
ligação subserviente com o governo Trump. A família Bolsonaro é soldada do
trumpismo, e fará tudo para agradá-lo, a fim de ter o apoio do governo
americano, das mais diferentes formas, para a eleição presidencial brasileira.
Flávio Bolsonaro foi chamado inicialmente de
preposto do pai. Mas hoje se percebe, depois do tour em Washington pago com
dinheiro público brasileiro e das decisões do governo Trump contra o Brasil,
que no momento é Eduardo Bolsonaro o verdadeiro chefe da estratégia política do
clã bolsonarista. Acabou-se o bolsonarismo moderado e restou a extrema direita
pura comandada pelo trumpismo.
*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.