sexta-feira, 5 de junho de 2026

Bolsonaros são soldados do trumpismo, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

Família atua como parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita

A movimentação política dos irmãos Bolsonaro em busca do apoio do governo Trump para enfraquecer o governo brasileiro, por meio da destruição da economia do país, é mais do que um plano para ganhar as eleições presidenciais. Esse objetivo se submete a outro maior: garantir a hegemonia da extrema direita no continente. E as duas dimensões anteriores se vinculam a um projeto mais forte que comanda ambas: a política trumpista de intervenção na política latino-americana. Flávio Bolsonaro é um soldado nesta história, não o comandante.

É preciso compreender essas três dimensões da relação entre o bolsonarismo e o trumpismo. Boa parte da cobertura jornalística deu a impressão de que Flávio e Eduardo Bolsonaro mudaram a cabeça de Washington. Sem dúvida que eles pressionaram e tentaram gerar um timing adequado para a designação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas. Mas eles não comandam o pacote completo da política trumpista para a América Latina. Em vez disso, adaptam-se erraticamente ao projeto de Trump para a região, já que Flávio Bolsonaro foi escolhido como candidato oficial do governo americano à Presidência do Brasil.

A maior prova disso é que, embora soubessem que Trump ainda preparava mais maldades ao Brasil, Eduardo e Flávio não tinham total consciência do projeto de retaliação comercial, que envolveu diretamente o ataque ao extremamente popular Pix e a setores econômicos nacionais que apoiaram o bolsonarismo recentemente, mas que agora poderão perder riqueza graças à aliança entre a família Bolsonaro e o governo americano.

Por isso, após comemorar a definição de terrorismo para o crime organizado brasileiro, Flávio Bolsonaro ficou atônito e teme um efeito político similar ao do tarifaço do ano passado. Ele e seu irmão são cúmplices nessa tramoia, porém, em grande medida ocupam esse papel porque aceitaram ser liderados de forma subserviente pelo governo americano, que quer definir os rumos do Brasil. Neste sentido, são traidores da pátria que esperam ter benefícios políticos diretos tornando-se marionetes do trumpismo.

Ainda é cedo para dizer quais serão todos os efeitos dessa aliança de subordinação. Só que se houver de fato consequências econômicas do novo tarifaço, ainda mais com pressão para acabar com o Pix, Flávio perderá uma parte dos eleitores de direita, mas não numa parcela tão grande que permita a ascensão de Caiado e Zema, pois estes se contentam em ficar como linhas de apoio envergonhado ao bolsonarismo. O problema maior é outra conta: nunca mais recuperarão a maior parcela dos votos dos independentes, favorecendo claramente a candidatura de Lula.

Flávio chegaria, assim, ao segundo turno com poucas chances de vitória, a não ser que haja intervenção maior do governo americano na política brasileira. Essa última hipótese parece absurda, mas ela passa pela cabeça dos irmãos, sobretudo Eduardo, que é o grande ideólogo da família e que pretende recuperar em algum momento a cidadania brasileira, mesmo que a vida americana tenha tido um financiamento invejável para um fugitivo político.

Uma pergunta se impõe aqui: por que Flávio Bolsonaro trocou um plano que estava dando certo por outro tão incerto e que lhe imprime uma visão sórdida de traidor da pátria? Afinal, o projeto do Bolsonaro moderado, que tomava vacina e não falava palavrões, tinha fortalecido sua candidatura. Desde que fora lançado e adotou esse figurino, o Zero Um crescera nas pesquisas, tanto no primeiro como no segundo turno. Eleitores da direita não bolsonarista migraram nas pesquisas em peso para ele, que também estava abocanhando grande parte dos independentes, inclusive muitos que tinham votado em Lula em 2022. Parecia que ele conseguiria realizar a revanche do pai.

O estouro do escândalo de suas relações promíscuas com Daniel Vorcaro parece ser o fato principal. E muitas revelações ainda podem surgir dessa história envolvendo o enrolado caso de financiamento do filme “Dark Horse”, inclusive um “videozinho”, como o próprio Flávio já profetizou. O flanco da corrupção não para por aí, porque cada vez mais será conhecido o funcionamento da cleptocracia montada pelos bolsonaristas no governo do Rio, e esse lamaçal tem grandes chances de alcançar a família Bolsonaro.

Falcatruas e relações não republicanas com o mundo da política e do crime já eram conhecidas por muitos que acompanham as peripécias da família Bolsonaro desde a década de 1990. Mas o mais visado entre eles era justamente Flávio, conhecido pela rachadinha e pela contratação ou condecoração de milicianos, fatos de sua época como deputado estadual da Alerj. Mesmo assim, a aposta no bolsonarismo moderado estava ganhando tração eleitoral. Decerto que o tamanho do escândalo envolvendo sua irmandade com Vorcaro pegou muita gente de surpresa, especialmente os eleitores independentes que começavam a acreditar no novo Flávio.

Sem querer tirar o peso dos escândalos na mudança de estratégia da família Bolsonaro, talvez fosse impossível manter até o final da eleição o perfil pretensamente moderado porque isso não corresponde ao âmago do bolsonarismo. Em algum momento isso viria à tona, mesmo que de forma menos desastrosa, desde que as conversas íntimas com Vorcaro apareceram na mídia. É preciso voltar às três dimensões enunciadas no primeiro parágrafo: a nacional, a internacional e a da geopolítica trumpista para a América Latina.

No plano nacional, o bolsonarismo é marcado por ser a face da extrema direita local, defensora da ditadura militar e de seus torturadores, da tentativa de golpe de Estado, do uso de um discurso agressivo para destruir inimigos e ex-amigos pelas redes sociais, e dos motes que lhe davam maior popularidade: Deus, pátria, família e liberdade. O patriotismo das manifestações de rua, todos com camisas da seleção, era o espetáculo principal de sua ideologia. Fechando o enredo estava Jair Bolsonaro, um líder popular que odiava as instituições democráticas.

Parte desse roteiro se perdeu no meio do caminho, principalmente com o fracasso do 8 de janeiro e pelo julgamento e posterior prisão de Jair. Sobraram os filhos para sucedê-lo, mas Eduardo foi para os EUA para tentar dar um golpe de fora para dentro, ao passo que Flávio teria o papel de segurar o leme na política interna, tornando-se, ao final, o herdeiro da dinastia com a candidatura presidencial. Há a figura ascendente de Michele, mas ela não chefiará o clã enquanto o marido estiver vivo.

Toda essa história política e familiar dos Bolsonaros não se esgota nas suas relações com o Brasil. E aqui entra a segunda dimensão que sempre esteve presente: o bolsonarismo faz parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita, que atua em várias partes do mundo, principalmente nas Américas e na Europa. Um grupo político de combate à democracia e de defesa de um reacionarismo enorme frente a temas como imigração, família, religião e contra discursos progressistas de minorias, como as mulheres e os negros.

A Internacional da Extrema Direita teve como grande baluarte Steve Bannon, um dos principais inspiradores da visão política de Trump. Continua forte na Europa, com desempenhos impressionantes como recentemente nas eleições locais no Reino Unido, mas tem tido dificuldades por conta das mudanças geopolíticas, como a guerra na Ucrânia e os conflitos cada vez maiores com os EUA. Daí que hoje o principal impulso a esse movimento vem da política trumpista, particularmente no âmbito da América Latina. Essa é a terceira dimensão que afeta o bolsonarismo profundo e constitui o farol da família Bolsonaro.

O segundo governo Trump é mais do que uma forma política de extrema direita. É expansionista, beligerante e intervencionista. Para a América Latina, o modelo geopolítico é a tentativa de reavivar a Doutrina Monroe - a América para os (norte-)americanos. O Brasil e o México são os maiores obstáculos a esse projeto, seja pela força política e econômica de ambos, seja em razão de suas lideranças presidenciais, que não abaixaram a cabeça e nem querem entregar o país como deseja a família Bolsonaro.

Os Bolsonaros sustentam suas ideias e projeto de poder não só no território nacional. Eles têm seus alicerces principais fora do Brasil, seja na Internacional da Extrema Direita, seja cada vez mais na sua ligação subserviente com o governo Trump. A família Bolsonaro é soldada do trumpismo, e fará tudo para agradá-lo, a fim de ter o apoio do governo americano, das mais diferentes formas, para a eleição presidencial brasileira.

Flávio Bolsonaro foi chamado inicialmente de preposto do pai. Mas hoje se percebe, depois do tour em Washington pago com dinheiro público brasileiro e das decisões do governo Trump contra o Brasil, que no momento é Eduardo Bolsonaro o verdadeiro chefe da estratégia política do clã bolsonarista. Acabou-se o bolsonarismo moderado e restou a extrema direita pura comandada pelo trumpismo.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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