sexta-feira, 19 de junho de 2026

Escândalo do Master chegou à esquerda, por Pablo Ortellado

O Globo

A máquina de Vorcaro parece ter operado onde havia poder a capturar, sem qualquer preconceito de natureza ideológica. Essa é a razão pela qual o caso ameaça tantos atores diferentes ao mesmo tempo

A última fase da Operação Compliance Zero mostrou que o escândalo do Master também atinge a esquerda. Por um tempo, parte desse campo político se iludiu com a crença de que o escândalo era da direita e que o impacto na esquerda seria, quando muito, acidental. Mas as revelações da PF mostram que a máquina de corrupção de Vorcaro não tinha coloração política.

Antes de a PF encontrar meio milhão de reais em dólares e euros na casa de Jaques Wagner, já havia bons motivos para pensar que o escândalo do Master não afetava apenas a direita.

Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma, recebeu R$ 14 milhões do Master para prestar serviços de consultoria econômica e financeira. Ele é acusado de ter articulado para que Lula recebesse Daniel Vorcaro em dezembro de 2024 e de ter ajudado na intermediação da venda do Banco Master ao BRB.

O escritório de Ricardo Lewandowski, ex-ministro da Justiça de Lula, recebeu ao menos R$ 6,1 milhões para prestar serviços de consultoria jurídica para o Master. O contrato seguiu vigente por dois anos enquanto Lewandowski era ministro — embora, nesse período, tenha formalmente se afastado do escritório contratado.

Rui Costa, ex-ministro-chefe da Casa Civil e ex-governador da Bahia, é acusado de ter favorecido o Master por meio de um decreto que assinou em janeiro de 2022, restringindo as hipóteses de portabilidade do crédito consignado dos servidores estaduais. Na prática, a medida aprisionou no Master os servidores já endividados, impedindo-os de migrar para instituições com juros menores.

Somado Jaques Wagner, são quatro ministros ou ex-ministros de Lula que precisam se explicar sobre suas relações com o Master. Ou cinco, se incluímos Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, acusado de ter recebido R$ 20 milhões do Master como doação de campanha.

As evidências que a PF apresentou sobre Jaques Wagner no relatório são robustas. Segundo a Polícia Federal, ele recebeu diversas vantagens econômicas, com destaque para a compra de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões e para o repasse de R$ 3,5 milhões à BN Representações, empresa vinculada a seu núcleo familiar.

É suspeito de, como contrapartida, ter atuado em três frentes de interesse do grupo. A primeira foi a ampliação do crédito consignado, por meio de uma emenda à Medida Provisória 1.106/2022 que elevava a margem passível de consignação para trabalhadores, aposentados e pensionistas, alargando o mercado de crédito do Master.

Além disso, de acordo com as investigações, Wagner se envolveu na tentativa de aprovar a emenda à PEC 65/2023 que ampliava o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos — ao elevar a garantia sobre os papéis emitidos pelo banco, multiplicaria a capacidade do Master de vender seus títulos de qualidade duvidosa. Por fim, apoiou a operação de venda do Master ao BRB, arranjo que transferiria ao setor público os prejuízos acumulados pelo banco.

As novas denúncias — que se somam ao que já se sabia sobre outros ex-ministros de Lula — mostram que o escândalo do Master será um fator de grande desestabilização política neste ano eleitoral. Segundo pesquisa Quaest, quase metade dos brasileiros acha que o escândalo afeta a todos, governo Lula, governo Bolsonaro, STF, Banco Central e Congresso. Outras pesquisas, da AtlasIntel e PoderData, sugerem que a percepção pública associa o escândalo do Master mais a Lula que a Bolsonaro.

A máquina de Vorcaro parece ter operado onde havia poder a capturar, sem qualquer preconceito de natureza ideológica. Essa é a razão por que o caso ameaça tantos atores diferentes ao mesmo tempo. O Master pode não ser um escândalo nem de direita, nem de esquerda, mas isso não significa que seus efeitos serão politicamente neutros. A depender do que se revelar e de quando se revelar, o caso pode se tornar uma variável decisiva nas eleições de outubro.

 

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