segunda-feira, 29 de junho de 2026

Lula precisa mesmo de palanque em Minas? Por Bruno Carazza*

Valor Econômico

Disputa presidencial tem outras dinâmicas com emendas parlamentares e polarização

Na edição de 19 de junho, a revista The Economist trouxe uma matéria chamando Minas Gerais de espelho do Brasil e termômetro das eleições presidenciais deste ano.

As comparações se prestam a esclarecer ao público estrangeiro dois fatos repetidos na imprensa brasileira a cada quatro anos: a diversidade da composição populacional no segundo colégio eleitoral do país (que possui regiões conectadas com o Nordeste, o Centro-Oeste, Rio de Janeiro e São Paulo) e a coincidência estatística de que até hoje nenhum candidato foi eleito para o Palácio do Planalto sem também se sagrar vencedor em Minas Gerais.

Mirando as eleições deste ano, a publicação britânica destacou tanto as dificuldades de Flávio Bolsonaro em pacificar a direita mineira - fragmentada diante da decisão do ex-governador Romeu Zema (Novo) em lançar-se em voo solo à Presidência e a postura não submissa do deputado Nikolas Ferreira (PL) à liderança bolsonarista - quanto as sucessivas visitas de Lula ao Estado nos últimos meses.

Também nas últimas semanas o noticiário político deu bastante espaço para as articulações do Partido dos Trabalhadores em definir um candidato a governador em Minas. Depois da desistência do senador Rodrigo Pacheco (PSB), Lula titubeou entre apoiar o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), o ex-presidente da Câmara da capital mineira Gabriel Azevedo (MDB) e o empresário Josué Gomes (PSB) - filho de José Alencar (1931-2011), seu vice nos dois primeiros mandatos.

Na semana passada, Lula e as lideranças nacionais do PT teriam batido o martelo e decidido lançar uma candidatura própria ao Palácio da Liberdade. No entanto, o nome mais forte do partido no Estado, a ex-prefeita de Contagem Marília Campos, não está disposta a arriscar uma eleição quase certa ao Senado em nome de uma aventura com poucas chances de vitória como governadora.

O impasse reflete as dificuldades de Lula em constituir um palanque para fortalecer a sua campanha em Minas, mas tem como pano de fundo as particularidades da política mineira. Na década passada, escândalos de corrupção quase dizimaram os dois principais grupos políticos que rivalizavam entre si na capital mineira e no Estado: os tucanos ligados a Aécio Neves e os petistas comandados por Fernando Pimentel.

Por outro lado, a ascensão de Zema na onda bolsonarista de 2018 não foi capaz de ocupar de forma definitiva o vácuo de poder - tanto que seu sucessor, o vice Mateus Simões, patina nas pesquisas de opinião. Nos últimos levantamentos, quem lidera com ampla margem é o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), um político de direita com discurso popularesco alinhado a Jair Bolsonaro, mas que ultimamente tenta se colocar como independente.

Peculiaridades locais à parte, essa questão da importância de Lula ter um palanque em Minas merece ser relativizada - e, quem sabe, também servir como termômetro e espelho para outras regiões do Brasil. Como pode ser visto no gráfico, não há uma correlação forte entre os históricos de votação de candidatos do PT a presidente e os postulantes ao governo estadual vindos do próprio partido ou aliados.

Em tempos de polarização acirrada no plano nacional, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro dividem o eleitorado sem depender tanto do apoio de candidatos a governador pedindo votos em seu nome no interior dos Estados.

Por outro lado, mesmo que a capilarização da campanha continue importante para fidelizar simpatizantes e conquistar a pequena parcela de eleitores independentes, a dinâmica do coronelismo brasileiro sofreu uma mudança relevante com o surgimento das bilionárias emendas parlamentares. Se antes as políticas públicas levadas a cabo pelo governo estadual eram fundamentais para cooptar prefeitos e lideranças locais, hoje deputados e senadores conquistam essa lealdade de forma direta, irrigando suas bases eleitorais com dezenas de milhões de reais transferidos diretamente para os municípios.

Seguindo essa nova lógica da distribuição do poder, o maior problema de Lula em Minas pode não estar na carência de um palanque forte para governador. O PT conta com apenas nove representantes entre os 53 deputados e três senadores mineiros no Congresso. Além de poucos distribuidores de emendas, o partido tem poucos receptores locais: nas eleições de 2024, o partido elegeu apenas 35 prefeitos nas 853 cidades do Estado.

No espelho do Brasil, Lula só tem a própria imagem refletida na campanha.

*Bruno Carazza é professor associado da Fundação Dom Cabral e autor de “O País dos Privilégios (volume 1) e “Dinheiro, Eleições e Poder”, ambos pela Companhia das Letras.

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