Revista Será?
Ideias estapafúrdias sempre existiram. Em
geral, de vida restrita e curta. Assombram, porém, quando ganham relevância,
adesões e capacidade de influência. É o caso da corrente político-ideológica
denominada por seus próprios autores de neorreacionária.
Descrever e analisar essa corrente é o objeto
do livro Lumières Sombres: Comprendre la pensée néoréactionnaire, de
Arnaud Miranda, jovem cientista político francês, publicado este ano pela
Gallimard. O livro é interessante pela sistematização das informações e valor
das reflexões, além do enquadramento dessa corrente político-ideológica na
história do pensamento político ocidental.
As ideias dos neorreacionários, segundo o autor, podem ser assim resumidas:
1. Os direitos humanos e os valores da Revolução
Francesa de fraternidade e igualdade devem ser repudiados: os humanos não são
iguais, os homens brancos são superiores às mulheres, aos negros, aos amarelos
e aos mestiços. Os pobres não devem ser objeto de qualquer política pública,
aliás, conceito que deve ser abolido.
2. A democracia liberal é a responsável pelo
declínio do Ocidente porque não permite o pleno desenvolvimento do capital.
Deve ser substituída por uma monarquia feudo-tecnológica, abolindo-se assim o
voto.
3. O Estado democrático deve ser substituído por
um Estado-empresa, dirigido por um CEO: os humanos serão seus sócios ou
clientes.
4. As divergências não deverão ser resolvidas
pelo voto; os insatisfeitos têm o direito de sair e criar outro Estado.
5. A inovação tecnológica em geral, e a
internet, a IA e as redes sociais, em particular, não devem ter qualquer
regulamentação: todas as expressões são aceitas.
A estratégia também é estranha, mas coerente.
Os três pilares (denominados de A Catedral) da democracia devem ser
transfigurados e dominados: as universidades, a grande imprensa e a burocracia
do Estado. Para isso, é preciso mudar radicalmente as universidades: cortar
seus financiamentos e conspurcar sua imagem. Atacar a grande imprensa ou
simplesmente comprá-la. Reduzir ao máximo a burocracia, incluindo os altos
escalões.
Para alcançar o objetivo de destruir a
democracia, é preciso desenvolver uma guerra intelectual em busca da hegemonia
cultural, conceito importado de Antonio Gramsci. Embate a ser travado fora do
espaço público, arena desfavorável, mas nas redes sociais.
Aliás, foi nelas que emergiu a corrente
neorreacionária, por meio de pequenos artigos (memes e figuras da cultura pop)
escritos por ideólogos sob pseudônimo, o principal dos quais Curtis Yarvin (Mencius
Moldbug), engenheiro, desenvolvedor de software, empresário e blogueiro. Em seu
blog Unqualified Reservations, que escreveu entre 2007 e 2014, defendia o
retorno da escravidão, a supremacia branca, o fim dos direitos humanos e da
democracia, considerada um regime fracassado e totalitário como Matrix. O
movimento neorreacionário é para ele o red pill, ou seja, a pílula
vermelha que mostra a realidade por debaixo da democracia. Influenciou pessoas
como Elon Musk, J. D. Vance, Steve Bannon e Peter Thiel. É dele a ideia de
criar um organismo especial (DOGE) para desmontar a burocracia que Trump adotou
e nomeou Musk seu dirigente, que terminou por fracassar e levar à sua renúncia.
Como é de Yarvin a ideia de tornar Gaza um balneário de ricos no Mediterrâneo,
assim como, a retirada dos Estados Unidos da guerra da Ucrânia e da Europa,
defendida pelo vice-presidente americano.
O livro mais importante do movimento, porém,
foi escrito por um britânico, ex-professor universitário (Universidade de
Warwick), ex-esquerdista, que vive hoje em Xangai. The Dark Enlightenment,
escrito por Nick Land, além das ideias supracitadas, defende o aceleracionismo
como forma de tornar a humanidade eterna, fundindo-a com a IA, e inaugurando a
nova era: a do transhumanismo E também defende o racismo biológico. Utiliza
aparato filosófico, citando Michel Foucault, Félix Guattari, Gilles Deleuze e
Carl Schmitt, entre outros.
A relevância dos neorreacionários está
relacionada à sua linguagem performática, ao uso de redes sociais e de figuras
da cultura pop. Mas, também, à adesão e ao financiamento de empresários,
particularmente do Vale do Silício, que partilham de sua defesa do
aceleracionismo e do Estado-empresa, e à adesão de parte de suas proposições
pelo governo Trump.
Arnaud alerta, desde o início do livro, que o
neorreacionarismo é uma cultura de internet que se exprime sobretudo por meio
de plataformas digitais, em linguagem marcadamente pop. Trata-se de uma
constelação de atores, na medida em que seus autores não têm uma convergência
sobre a totalidade das ideias e proposições. Sete são os personagens
selecionados para desenhar esta constelação neorreacionária, que escrevem em
blogs normalmente com pseudônimo: Curtis Yarvin, Nick Land, Spandrell, Bronze
Age Pervert (Costin Vlad Alamariu), Zero HP Lovecraft, Peter Thiel e Marc
Andreessen.
Não se descortina como os neorreacionários alcançarão o poder para implantar suas ideias. O inverso é mais provável e coerente com sua estratégia: contaminar os grandes líderes de direita. Por isso, abdicam de criar um partido e se ocupam de criar plataformas digitais para alcançar sobretudo empresários e jovens, os decisores do futuro.
*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

Nenhum comentário:
Postar um comentário