sábado, 27 de junho de 2026

Luzes Tenebrosas, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

Ideias estapafúrdias sempre existiram. Em geral, de vida restrita e curta. Assombram, porém, quando ganham relevância, adesões e capacidade de influência. É o caso da corrente político-ideológica denominada por seus próprios autores de neorreacionária.

Descrever e analisar essa corrente é o objeto do livro Lumières Sombres: Comprendre la pensée néoréactionnaire, de Arnaud Miranda, jovem cientista político francês, publicado este ano pela Gallimard. O livro é interessante pela sistematização das informações e valor das reflexões, além do enquadramento dessa corrente político-ideológica na história do pensamento político ocidental.

As ideias dos neorreacionários, segundo o autor, podem ser assim resumidas:

1. Os direitos humanos e os valores da Revolução Francesa de fraternidade e igualdade devem ser repudiados: os humanos não são iguais, os homens brancos são superiores às mulheres, aos negros, aos amarelos e aos mestiços. Os pobres não devem ser objeto de qualquer política pública, aliás, conceito que deve ser abolido.

2. A democracia liberal é a responsável pelo declínio do Ocidente porque não permite o pleno desenvolvimento do capital. Deve ser substituída por uma monarquia feudo-tecnológica, abolindo-se assim o voto.

3. O Estado democrático deve ser substituído por um Estado-empresa, dirigido por um CEO: os humanos serão seus sócios ou clientes.

4. As divergências não deverão ser resolvidas pelo voto; os insatisfeitos têm o direito de sair e criar outro Estado.

5. A inovação tecnológica em geral, e a internet, a IA e as redes sociais, em particular, não devem ter qualquer regulamentação: todas as expressões são aceitas.

A estratégia também é estranha, mas coerente. Os três pilares (denominados de A Catedral) da democracia devem ser transfigurados e dominados: as universidades, a grande imprensa e a burocracia do Estado. Para isso, é preciso mudar radicalmente as universidades: cortar seus financiamentos e conspurcar sua imagem. Atacar a grande imprensa ou simplesmente comprá-la. Reduzir ao máximo a burocracia, incluindo os altos escalões.

Para alcançar o objetivo de destruir a democracia, é preciso desenvolver uma guerra intelectual em busca da hegemonia cultural, conceito importado de Antonio Gramsci. Embate a ser travado fora do espaço público, arena desfavorável, mas nas redes sociais.

Aliás, foi nelas que emergiu a corrente neorreacionária, por meio de pequenos artigos (memes e figuras da cultura pop) escritos por ideólogos sob pseudônimo, o principal dos quais Curtis Yarvin (Mencius Moldbug), engenheiro, desenvolvedor de software, empresário e blogueiro. Em seu blog Unqualified Reservations, que escreveu entre 2007 e 2014, defendia o retorno da escravidão, a supremacia branca, o fim dos direitos humanos e da democracia, considerada um regime fracassado e totalitário como Matrix. O movimento neorreacionário é para ele o red pill, ou seja, a pílula vermelha que mostra a realidade por debaixo da democracia. Influenciou pessoas como Elon Musk, J. D. Vance, Steve Bannon e Peter Thiel. É dele a ideia de criar um organismo especial (DOGE) para desmontar a burocracia que Trump adotou e nomeou Musk seu dirigente, que terminou por fracassar e levar à sua renúncia. Como é de Yarvin a ideia de tornar Gaza um balneário de ricos no Mediterrâneo, assim como, a retirada dos Estados Unidos da guerra da Ucrânia e da Europa, defendida pelo vice-presidente americano.

O livro mais importante do movimento, porém, foi escrito por um britânico, ex-professor universitário (Universidade de Warwick), ex-esquerdista, que vive hoje em Xangai. The Dark Enlightenment, escrito por Nick Land, além das ideias supracitadas, defende o aceleracionismo como forma de tornar a humanidade eterna, fundindo-a com a IA, e inaugurando a nova era: a do transhumanismo E também defende o racismo biológico. Utiliza aparato filosófico, citando Michel Foucault, Félix Guattari, Gilles Deleuze e Carl Schmitt, entre outros.

A relevância dos neorreacionários está relacionada à sua linguagem performática, ao uso de redes sociais e de figuras da cultura pop. Mas, também, à adesão e ao financiamento de empresários, particularmente do Vale do Silício, que partilham de sua defesa do aceleracionismo e do Estado-empresa, e à adesão de parte de suas proposições pelo governo Trump.

Arnaud alerta, desde o início do livro, que o neorreacionarismo é uma cultura de internet que se exprime sobretudo por meio de plataformas digitais, em linguagem marcadamente pop. Trata-se de uma constelação de atores, na medida em que seus autores não têm uma convergência sobre a totalidade das ideias e proposições. Sete são os personagens selecionados para desenhar esta constelação neorreacionária, que escrevem em blogs normalmente com pseudônimo: Curtis Yarvin, Nick Land, Spandrell, Bronze Age Pervert (Costin Vlad Alamariu), Zero HP Lovecraft, Peter Thiel e Marc Andreessen.

Não se descortina como os neorreacionários alcançarão o poder para implantar suas ideias. O inverso é mais provável e coerente com sua estratégia: contaminar os grandes líderes de direita. Por isso, abdicam de criar um partido e se ocupam de criar plataformas digitais para alcançar sobretudo empresários e jovens, os decisores do futuro.

*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

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