Uso de criptoativos por criminosos requer atenção
Por O Globo
Operações contra finanças do PCC descobriram
esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro e golpes digitais
As operações recentes contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do Brasil, expuseram como o avanço da digitalização financeira abre espaço a novos crimes, permite integração à economia formal e cria inúmeras oportunidades para lavar o dinheiro resultante das atividades criminosas, como demonstrou reportagem do GLOBO. A transformação progressiva no perfil dos crimes — de assaltos e violência nas ruas para golpes digitais — tem pressionado o sistema de segurança pública e órgãos reguladores e de fiscalização, como o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários. Entre os recursos empregados pelos criminosos, tem se destacado o uso crescente de criptoativos.
Deflagrada em agosto passado, a Operação
Carbono Oculto, da Receita
Federal, Ministério Público de São Paulo e Polícia Federal (PF),
representou um marco no enfrentamento às finanças do crime organizado. As
investigações descobriram a conexão entre um esquema de produção, adulteração e
venda de combustíveis com uma fintech da Faria Lima. Na semana passada, como
desdobramento, a Operação Fluxo Oculto mapeou empresas-fantasmas do PCC que
usavam fundos de investimento para lavar dinheiro. Foram identificadas seis
fintechs e pelo menos R$ 365 milhões em operações suspeitas com criptoativos —
isso é só o que foi descoberto. “Antes, o setor formal era o meio para ocultar
recursos. Agora, passou a ser parte do próprio negócio criminoso”, diz Marcia
Meng, superintendente da Receita em São Paulo e coordenadora de apurações da
Carbono Oculto e da Fluxo Oculto. “Fintechs são criadas apenas para prestar
serviço ao crime organizado.”
O PCC mantinha, segundo a PF, R$ 30 bilhões
em fundos de investimento e movimentou R$ 46 bilhões em transações suspeitas
via fintechs em cinco anos. Golpes envolvendo Pix, fraudes de cartão de
crédito, vendas e boletos falsos ou fraudes digitais de toda natureza no mundo
financeiro somaram R$ 112 bilhões em 2025. São números que fazem empalidecer o
faturamento com drogas e outros crimes comumente associados às facções
criminosas.
Como a tecnologia que faz funcionar as
criptomoedas — o blockchain — garante anonimato, segurança e não tem controle
central, as organizações criminosas passaram a usá-la para guardar o produto de
seus crimes. Embora operações individuais com criptoativos sejam registradas,
na prática há grande margem de manobra para as facções se aproveitarem delas
para movimentar recursos ou elevar sua receita. Não surpreende que a Polícia
Civil do Rio tenha localizado uma “fazenda” de 30 computadores, no Complexo do Lins,
em área dominada pelo Comando Vermelho, consumindo energia furtada para
“minerar” criptomoedas.
As autoridades não estão alheias à realidade.
Faz algum tempo que o BC baixa resoluções para regular o mercado financeiro
digital. Fintechs têm sido obrigadas a fornecer mais informações,
aproximando-se de bancos tradicionais. Foi crítica a proibição das contas em
que vários correntistas compartilhavam um único registro —ou “contas-bolsão” —,
usadas por criminosos em sofisticados esquemas de lavagem. Mas o crime também
não fica parado. É crucial que o Estado se mantenha atualizado, não apenas para
combater a lavagem digital de dinheiro, mas também para proteger o cidadão
vítima de toda sorte de golpes virtuais.
Preocupação com crime contra mulher deve
guiar esforços das autoridades
Por O Globo
Para seis em dez brasileiros, ele é o que há
de mais grave na criminalidade, revelou pesquisa
Seis em dez brasileiros consideram as
agressões contra mulheres o crime mais grave do país. Despertam bem mais
preocupação que tráfico de drogas (16%) ou assalto à mão armada (10%), de
acordo com pesquisa Datafolha em
parceria com o Movimento Mulher 360. A percepção da população deveria guiar os
esforços das autoridades para enfrentar a questão com novo ímpeto e estratégia
renovada. Embora tanto mulheres como homens tenham identificado o problema como
o maior, a média geral encobre diferenças. Enquanto 73% delas disseram que
a violência contra
mulheres é a questão mais grave, 49% dos homens escolheram essa alternativa.
Para mais de 80% — tanto de mulheres quanto de homens —, o problema aumentou no
último ano.
Ambos os gêneros mostram conhecer as leis de
proteção à mulher. A Lei Maria da Penha é conhecida por 97% de homens e mulheres,
a Lei do Feminicídio por 87% das mulheres e 85% dos homens, e a Lei da
Importunação Sexual por 80% dos dois gêneros. Não parece haver, portanto,
deficiência nas campanhas de divulgação. A legislação, porém, não tem sido
suficiente para aumentar de forma significativa a percepção de segurança.
Apenas 34% das mulheres consideram que a Maria da Penha tenha contribuído
significativamente para punir casos de violência.
O levantamento não elucida se o problema está
na legislação ou na sua aplicação, mas uma resposta dá pistas. Apenas 19% das
mulheres dizem confiar muito na polícia para a sua proteção, ante 31% dos
homens. Isso não quer dizer que as forças policiais não sejam acionadas. Das
mulheres que sofreram agressão grave nos últimos 12 meses, 51% fizeram denúncia
numa Delegacia da Mulher ou delegacia comum, ligaram para o 190 ou 180, ou
procuraram ajuda policial on-line. O problema não parece ser a falta de canais,
mas de confiança.
Há virtual unanimidade entre mulheres e
homens sobre a necessidade de a igualdade de gêneros ser tema obrigatório nas
escolas. Quase 90% concordam que crianças e jovens devem aprender como
identificar e prevenir violência doméstica, participar de dinâmicas sobre o
respeito mútuo a meninos e meninas e aprender que homens e mulheres têm a mesma
importância e direitos na sociedade.
Apesar dos avanços registrados nas últimas duas décadas, a pesquisa mostra que há muito mais por fazer. “A população relativiza comportamentos que sustentam a violência de gênero. Raramente o crime começa com uma agressão física”, diz Margareth Goldenberg, diretora executiva do Movimento Mulher 360. Para 63% dos homens e 50% das mulheres, não é violência contra a mulher um marido pedir as senhas das redes sociais dela e exigir que mostre suas conversas. Também não é considerado violência, para 72% dos homens e 53% das mulheres, o namorado exigir que a namorada vista outra roupa antes de sair para jantar sob a justificativa de que as pessoas não a respeitarão na rua. A mudança de mentalidade, constata a pesquisa, não acompanhou o avanço das leis.
A subjetividade do tribunal racial
Por O Estado de S. Paulo
Caso da servidora do Itamaraty exonerada por
ser ‘branca’, malgrado se declarar parda, prova que não há critérios objetivos
para que bancas de heteroidentificação decidam acesso às cotas
A ex-oficial de chancelaria Flávia Goes de
Medeiros foi exonerada do Itamaraty há poucas semanas por não ter sido
considerada apta a se beneficiar do sistema de cotas, por meio do qual
ingressou na instituição por concurso em 2024. O futuro da sra. Medeiros no
serviço público está em discussão na Justiça, mas seu caso lança nova luz sobre
o velho problema das tais “bancas de heteroidentificação”, verdadeiros
tribunais raciais que, pautados por critérios absolutamente subjetivos,
determinam com base no olhar quem é preto ou pardo o suficiente para ser digno
de reparação histórica.
Aqui não está em questão a necessidade das
chamadas políticas de ação afirmativa num país como o Brasil. Este jornal, que
nasceu em fins do século 19 para defender o regime republicano e o fim da
escravidão, tampouco ignora a chaga da discriminação racial que marcou a
história brasileira – e cujos efeitos permanecem visíveis até hoje. Nosso
interesse nesta página é apontar para as idiossincrasias de um mecanismo criado
para definir quem pode ou não ser beneficiário daquelas políticas a partir de
critérios que só existem na cabeça dos avaliadores. É evidentemente
antirrepublicano.
A Lei 15.142/2025 determina que podem
concorrer a 30% das vagas reservadas no serviço público aqueles que se
autodeclararem pretos ou pardos, conforme os critérios utilizados pelo IBGE.
Porém, o mesmo diploma legal estabelece que essa autodeclaração deve ser
submetida a um procedimento de confirmação. Em outras palavras: o Estado que
afirma confiar na palavra do cidadão para fins censitários é o mesmo que, no
que concerne aos concursos públicos, demonstra não ter tanta confiança assim.
É no meio dessa confusão que as tais bancas
de heteroidentificação, encarregadas de avaliar os traços fenotípicos dos
candidatos, têm espaço de sobra para praticar uma espécie de “achismo” racial,
chamemos assim. Não há parâmetros objetivos capazes de definir a partir de que
tom de pele ou traço facial alguém deixou de ser negro. O resultado é este a
que assistimos na administração e nas universidades públicas: a prevalência das
percepções individuais dos membros dos tribunais raciais sobre critérios
verificáveis de admissão, como, por exemplo, a condição socioeconômica dos
postulantes.
O caso de Flávia Medeiros é a personificação
desse limbo. Considerada “branca” pela banca de heteroidentificação do
Itamaraty, ela obteve decisão judicial favorável, participou do curso de
formação, tomou posse e exerceu normalmente suas funções. Posteriormente, a
decisão foi revertida e ela acabou exonerada. A cor da sua pele não mudou nesse
interregno. Mudaram os olhares sobre ela. Como isso pode ser considerado um
sistema de seleção justo?
Chama a atenção que, ao pedir a reintegração
da sra. Medeiros, a Educafro, entidade insuspeita na defesa da dignidade da
população negra brasileira, afirmou que a ex-servidora foi prejudicada por uma
“avaliação fenotípica subjetiva” que contrariou sua autodeclaração e sua
trajetória. Ora, se até a Educafro reconhece a subjetividade desses tribunais
raciais, é impossível prever que um dia haverá algum meio de avaliar
objetivamente quem deve ou não ser reconhecido como preto ou pardo para fins de
cotas.
Como bem observou ao Estadão o professor Wilson
Gomes, da Universidade Federal da Bahia, causa espanto a normalização, no
Brasil, de uma polícia racial encarregada de examinar o tamanho do nariz ou dos
lábios de uma pessoa, o tipo de cabelo, a tonalidade da pele e outros traços
distintivos para decidir quem tem direito a se beneficiar de uma política
pública. A descrição do professor Gomes pode soar desconfortável para muitos,
mas é exatamente isso o que tem ocorrido.
É óbvio que fraudes existem e têm de ser
combatidas. Mas isso não justifica a institucionalização de um sistema que
confere enormes poderes a terceiros para arbitrar identidades raciais que,
repita-se, a lei autoriza que sejam autodeclaradas.
O País precisa debater sem paixões a
existência dessas bancas de heteroidentificação. Na República, a vigência de
políticas públicas não pode depender da avaliação pessoal de servidores
incapazes de oferecer o que a própria Constituição exige deles: objetividade.
O alerta do Ebola
Por O Estado de S. Paulo
A ciência avançou desde a covid. A vigilância
e a cooperação global, nem tanto. O surto no Congo expõe o risco de a próxima
pandemia atingir um mundo menos preparado do que em 2020
O surto de Ebola no Congo dificilmente
provocará a próxima pandemia. A cepa Bundibugyo não se transmite pelo ar,
espalha-se menos rapidamente que a covid e mata com eficiência brutal demais
para viajar com a mesma facilidade de um coronavírus respiratório. Ainda assim,
o surto deveria inquietar governos muito além da África Central.
Por semanas, o vírus circulou quase invisível
em regiões frágeis do leste congolês. Não havia vacina para a cepa. Faltavam
testes rápidos. Hospitais foram atacados por moradores desconfiados de médicos
e autoridades. Uganda já confirmou casos e a Organização Mundial da Saúde (OMS)
elevou o alerta internacional. Tudo isso só um punhado de anos após a maior
catástrofe sanitária do século.
Não que o mundo tenha aprendido pouco com a
covid. Em vários aspectos, aprendeu muito. A velocidade científica na pandemia
foi extraordinária. O sequenciamento do vírus ocorreu em dias. Vacinas foram
desenvolvidas em tempo recorde. Plataformas genéticas, vigilância genômica e
redes internacionais de pesquisa avançaram numa escala inimaginável no início
de 2020.
Mas esses “milagres” não surgiram
espontaneamente. Foram fruto de décadas de pesquisa, financiamento contínuo,
protocolos previamente testados, capacidade industrial acumulada e redes de
vigilância construídas muito antes de o coronavírus aparecer.
O mundo saiu da covid cientificamente mais
capaz, mas politicamente mais fragmentado. A ajuda internacional para a saúde
caiu drasticamente no ano passado, segundo a OCDE. Programas de vigilância
foram reduzidos. O tratado pandêmico pactuado na OMS segue travado em disputas
sobre patentes, compartilhamento de dados e acesso a vacinas. Os EUA, que por
décadas lideraram boa parte da arquitetura internacional de saúde pública,
recuaram para uma lógica mais transacional e desconfiada do multilateralismo.
Em vários países, a própria ideia de saúde pública virou campo de guerra
ideológica.
O paradoxo é que a humanidade talvez nunca
tenha compreendido tão bem os mecanismos biológicos das pandemias, mas parece
menos disposta a sustentar politicamente os instrumentos necessários para
evitá-las. Vigilância epidemiológica, treinamento, estoques estratégicos,
laboratórios, redes de testes clínicos e capacidade produtiva raramente rendem
dividendos eleitorais enquanto funcionam. Custam caro, operam silenciosamente e
parecem exagerados em tempos normais. A preparação que salva vidas quase sempre
é invisível – até o momento em que falha.
O surto de Ebola expõe precisamente essas
fragilidades. O vírus avançou em regiões marcadas por conflito armado, baixa
presença estatal e profunda desconfiança social. Um terço dos moradores de
áreas afetadas nem sequer acredita que a doença exista, segundo uma pesquisa da
ONG ActionAid. Profissionais de saúde relatam resistência a protocolos
funerários e ataques a centros de tratamento. Nenhuma plataforma genômica
substitui equipes no terreno, hospitais minimamente funcionais ou confiança
pública. Ainda que seja baixo para países como o Brasil, o risco pode aumentar
na falta de vigilância aeroportuária, de protocolos de detecção e de preparação
laboratorial.
As ameaças pandêmicas não desapareceram com o
fim das restrições da covid. Ao contrário: a pressão humana sobre florestas, a
expansão urbana, a circulação global intensa e o avanço sobre habitats de
animais ampliam continuamente as oportunidades para novos “saltos” zoonóticos.
Há milhões de vírus ainda desconhecidos em mamíferos e aves. A maioria jamais
afetará humanos, mas alguns provavelmente já circulam silenciosamente em algum
lugar do planeta.
Surtos são inevitáveis. Pandemias, não. Entre
uma coisa e outra existem escolhas políticas, capacidade institucional e tempo
de reação. As primeiras semanas de um surto costumam decidir o destino dos
meses seguintes. Foi assim com a covid. Está sendo assim agora no Congo.
O maior risco talvez não seja a próxima
“doença X”. É a tentação de acreditar que o trauma recente bastou para nos
deixar automaticamente preparados. A história das epidemias sugere o contrário.
O velho ciclo de pânico e negligência produz seus efeitos mais virulentos
quando a memória da última tragédia começa a desaparecer.
Tragédia silenciosa
Por O Estado de S. Paulo
Estudo da Unifesp mostra que 4 em cada 5
idosos com demência não têm o diagnóstico
Um estudo liderado por pesquisadores da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou como a demência acomete
silenciosamente os idosos brasileiros. Segundo a pesquisa, publicada
recentemente na revista científica International
Journal of Geriatric Psychiatry, 4 em cada 5 idosos com quadro de
demência no País simplesmente não sabem que vivem com essa condição.
O Estudo
Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil) acompanhou
5,2 mil idosos e, a partir de testes cognitivos e medidas de comprometimento
funcional, encontrou quase 400 deles com demência. E, desse recorte, 83% não
tinham um diagnóstico prévio, indicando um elevado grau de subdiagnóstico no
Brasil.
O cruzamento dos achados dos pesquisadores da
Unifesp com os dados do Relatório
Nacional sobre a Demência, publicado pelo Ministério da Saúde em
2024, aponta para a existência de um grande desafio: hoje, mais de 2 milhões de
pessoas podem estar vivendo com demência no Brasil sem que saibam. Logo, um dos
principais feitos do estudo da Unifesp foi jogar luz sobre um apagão
informacional.
Além de dar a real dimensão do problema, a
pesquisa também conseguiu traçar o perfil dos idosos com demência. E o que se
descobriu foi que, desde muito cedo até o fim da vida dos brasileiros, as
desigualdades socioeconômicas condenam boa parte deles à privação. Segundo o
estudo, o subdiagnóstico foi mais frequente nas regiões mais pobres (90,2%) do
que nas regiões mais ricas (76,0%), e maior entre os indivíduos analfabetos
(93,9%).
Tudo isso ocorre, segundo os pesquisadores da
Unifesp, por uma série de fatores, a começar por questões culturais e
comportamentais. É bastante comum as famílias – mais por desconhecimento do que
por negligência – ignorarem os primeiros sintomas da demência, em razão de uma
crença equivocada, segundo os autores do estudo, “de que o declínio cognitivo é
uma consequência esperada do envelhecimento”. Somam-se a isso as dificuldades
de acesso ao sistema de saúde e as falhas na formação dos profissionais.
A realidade se impõe: os brasileiros estão
vivendo mais, e o número de idosos no País, que aumentará ainda mais nas
próximas décadas, exige desde já políticas voltadas ao cuidado com a população
idosa e a preparação para os desafios futuros. Saber o tamanho do problema é um
bom começo.
Com base em dados e evidências, o poder
público poderá elaborar, testar e implementar políticas públicas eficientes em
saúde mental. Isso inclui a detecção precoce da demência, a educação dos
pacientes, dos cuidadores e dos profissionais de saúde, o planejamento do
cuidado e o acesso ao tratamento, às terapias e ao apoio psicossocial.
Os parentes também poderão se preparar melhor para uma longa jornada que demandará dedicação, atenção e carinho com os pacientes, bem como o cuidado consigo mesmos. E não menos importante: com o suporte adequado, o controle dos sintomas e o tratamento correto, os pacientes idosos poderão ter mais apoio para organizar a própria vida e preservar sua autonomia pelo maior tempo possível, vivendo com mais qualidade.
Estímulos do governo não produzirão alta
sólida do PIB
Por Folha de S. Paulo
Primeiro trimestre mostra maior expansão em
um ano, e expectativas para 2026 têm ligeira revisão para cima
Benesses eleitoreiras do governo Lula podem
produzir efeitos de curto prazo, mas dificultam a queda da inflação e dos juros
Depois de nove meses de quase estagnação, a
economia brasileira voltou a mostrar vigor aparente no primeiro trimestre deste
ano. Como divulgou o IBGE, o Produto
Interno Bruto cresceu 1,1% na comparação com os três meses
anteriores —uma taxa que seria excelente, se fosse duradoura.
Não é o que se espera, no entanto, embora a
série de estímulos eleitoreiros do governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
possa dar mais algum impulso de curto prazo ao consumo e à atividade.
O avanço do PIB de
janeiro a março refletiu expansão similar, de 1%, do consumo das famílias, até
então travado pelos juros de
15% ao ano impostos pelo Banco Central para
conter a inflação.
A Selic só
começou a cair em março e está, hoje, em ainda sufocantes 14,5%, e o maior
impulso às compras parece ter sido a ampliação da faixa de isenção do Imposto
de Renda das pessoas físicas.
O investimento, gasto destinado a elevar a
capacidade produtiva de empresas e governos, teve alta de 3,5%, mas a cifra é
enganosa após uma queda de
magnitude comparável (3,4%) no trimestre anterior. Considerando um
período mais longo, de 12 meses, o aumento é de apenas 0,4%, ante 1,2%
verificado no consumo.
Veem-se os estertores de um modelo de
crescimento econômico impulsionado pelo gasto público, sobretudo transferências
diretas de dinheiro às famílias por meio de benefícios previdenciários e
assistenciais.
Desse modo se obtiveram taxas de expansão
anual na casa dos 3% entre 2022 e 2024, acima das expectativas iniciais de
mercado. O preço de turbinar a demanda acima das possibilidades da oferta, no
entanto, não tardou a chegar —na forma de pressões inflacionárias que forçaram
o BC a endurecer a política monetária.
A consequência foi desaceleração do PIB, que
não cresceu mais de 2,3% em 2025. Esperava-se taxa ainda menor neste ano, mas
os esforços de Lula em busca de popularidade e votos podem alterar esse quadro.
Desde janeiro, as projeções mais consensuais já subiram de 1,8% para 1,9%, e é
possível que a revisão prossiga por mais algum tempo.
O governo petista, afinal, lançou nas últimas
semanas um novo programa
de renegociação de dívidas das famílias, acabou com a
"taxa das blusinhas" sobre importações de pequeno valor e criou
linhas de crédito para taxistas e motoristas de aplicativos, entre outras
benesses. Ademais, há ajuda conjuntural da boa safra para a agropecuária e da
alta do petróleo para a indústria extrativa.
Os limites, porém, estão dados. As projeções
para a inflação do ano igualmente estão em ascensão, movidas também pelo
impacto da guerra no Oriente Médio, e já superam 5%, ante um teto oficial de
4,5%. Reduz-se, com isso, a margem para a redução dos juros que permitiria um
crescimento mais duradouro do PIB.
Isso para nem falar das exauridas contas
públicas, cuja deterioração eleva os riscos de crise financeira nos próximos
anos.
Protestos ampliam crise na Bolívia
Por Folha de S. Paulo
Impulsionados pela oposição, bloqueios em
estradas causam escassez de comida, combustíveis e remédios
Governo muda lei para facilitar decretação de
estado de exceção; crise econômica e política cria risco para a estabilidade
institucional
Há um mês a Bolívia vive
uma onda de protestos promovidos por sindicatos, camponeses e indígenas que
agrava a pior crise econômica do país desde a década de 1980. As principais
vias de acesso a La Paz foram interditadas por manifestantes e há mais de 40
pontos de bloqueio em estradas.
O resultado é escassez de alimentos,
combustíveis e remédios —na quinta (28), centenas de profissionais da saúde protestaram
contra a falta de insumos.
Os manifestantes exigem medidas contra o
aumento do custo de vida, a reversão de medidas de austeridade fiscal
implementadas pela gestão de Rodrigo Paz,
maior representatividade das classes populares no governo e até a renúncia do
presidente.
Paz assumiu o poder há apenas seis meses,
interrompendo 20 anos de administrações do partido de esquerda Movimento ao
Socialismo (MAS), do ex-presidente Evo Morales (2006-2019).
O mandatário herdou a crise econômica de seu
antecessor, Luis Arce,
que fora alvo de protestos capitaneados por Morales, com quem havia rompido. A
atual situação da Bolívia é oriunda de um longo período de má gestão.
A partir de 2014, com o declínio da produção
e das exportações de gás natural, o país começou a perder sua principal fonte
de dólares. Mesmo assim, manteve o modelo de combustíveis subsidiados, iniciado
em 2005 e preservado pelo MAS, além de alto gasto público e câmbio controlado.
As reservas em moeda forte chegaram perto do
fim entre 2024 e 2025, dificultando a importação de combustíveis e insumos. A
escassez alimentou filas e mercado paralelo; o déficit orçamentário aumentou;
a inflação acumulada
em 12 meses chegou a 14% em abril, depois de um pico de quase 25% em julho do
ano passado.
Em resposta aos protestos, Paz trocou o
ministro do Trabalho, criticado pelo sindicalismo, por um advogado de origem
indígena e anunciou um corte de 50%
nos salários do primeiro escalão, a começar pelo seu.
De mais alarmante, o
governo revogou, na semana passada, uma legislação de 2020 que
dificultava a declaração de estado de exceção e o emprego das Forças
Armadas para conter manifestações. A mudança foi apoiada por
governistas e opositores na Assembleia Nacional.
Trata-se de situação em que deterioração econômica e turbulência política se agravam mutuamente, agora com risco para a estabilidade institucional. No segundo país mais pobre do continente, atrás apenas da Venezuela, a democracia também vai mostrando fragilidades.
Diante de alerta americano, país tem de fazer
mais contra facções
Por Valor Econômico
Não apenas os governos de Bolsonaro e Lula, mas todos os outros têm falhado nessa missão
Para além do ruído eleitoral, as
consequências da errônea classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e
do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas devem ter um olhar mais
pragmático agora, para serem menos bombásticas ou destrutivas do que os
candidatos à Presidência querem fazer crer. Há ameaças no ar porque quem
governa os Estados Unidos é Donald Trump, que persegue inimigos políticos em
seu país e declarou uma guerra comercial contra o mundo por julgar que os EUA
estão sendo explorados e enganados. Que Trump disponha de mais instrumentos
jurídicos para satisfazer seus desejos aleatórios é um risco adicional. PCC e
CV não só vêm se espalhando pelo Brasil como se tornaram organizações
transnacionais, e toda ajuda bem-intencionada para detê-los seria bem-vinda.
É o exemplo recente de Trump no uso dessas
leis contra “terroristas” que levanta todo tipo de suspeitas, ainda que
fantásticas. O presidente americano precisou incluir o ditador venezuelano
Nicolás Maduro como membro da gangue Tren de Aragua para entrar em Caracas e
sequestrá-lo, levando-o prisioneiro aos EUA. Maduro comandava uma ditadura
decadente e era mal visto até por seus colegas de governo, que continuaram no
poder sem ele e cumprindo ordens de Trump. O Brasil é a maior economia da
América Latina e uma das maiores democracias do mundo. Imaginar invasões de
tropas americanas na Baía da Guanabara é um delírio, no qual incorrem, como
desejo frustrado, os bolsonaristas. A hipótese serve, por outro lado, para que
o governo toque a música estridente do nacionalismo e da soberania. As alas
mais radicais do governo Trump cogitavam há muito incluir as organizações
brasileiras como terroristas, e é ouro de tolo o regozijo de Flávio Bolsonaro
com a decisão, horas depois de ele ter trocado rápidos cumprimentos com Donald
Trump. O governo de Jair Bolsonaro nada fez na segurança além de facilitar a
venda de armas no país, beneficiando milícias com as quais seu filho 01, atual
pré-candidato, mantinha proximidade perigosa.
A mudança na designação de organizações
criminosas e de traficantes de drogas para terroristas amplia o escopo das
ações, vigilância e sanções à disposição dos EUA, colocando-as como um risco à
“segurança nacional”. A legislação alcança empresas, instituições e pessoas
que, direta ou indiretamente, estejam envolvidas com as organizações designadas
- no limite, mesmo que elas sequer soubessem das ligações perigosas das quais
estariam fazendo parte.
As punições são severas e podem desde excluir
empresas, bancos e cidadãos brasileiros do sistema de transações com dólar até
impedir seus negócios nos Estados Unidos ou mesmo seu ingresso no país. A
territorialidade da lei americana é expandida para julgar cidadãos de países
estrangeiros pela Justiça americana. Os resultados da nova classificação
obrigarão bancos, empresas e investidores brasileiros a se cercarem de toda a
cautela nas relações com clientes, fornecedores e terceiras partes. Isso
afetará diretamente os custos de compliance e com mais intensidade inicial o
sistema financeiro, pela globalização de seus negócios e por ser um canal óbvio
e necessário de transferência de recursos que são produto de crimes.
Há poucas chances de que sanções atinjam o
Pix como meio de pagamento, mas alguma probabilidade de que instituições que
dele participam sejam alvo, abrindo “clarões” ou lacunas com a saída de
participantes. A maior ameaça ao Pix, porém, parece provir da investigação com
base na seção 301, que considera o mecanismo discriminatório contra as empresas
de cartões de crédito americanas.
As novas designações de PCC e CV não foram
mudadas para “invadir o Brasil”. Teriam menos estardalhaço se Trump não fosse o
presidente que as promoveu. É óbvio que seria melhor que isso não tivesse
acontecido. Mas há campos de entendimento profícuos para serem explorados em
comum. Os EUA têm recursos financeiros, tecnológicos e de pessoal treinados no
combate ao crime organizado, ao cibercrime e à espionagem. Brasil e Estados
Unidos já atuam juntos na segurança pública e na repressão ao tráfico de
drogas, e os órgãos do governo americano foram avisados do que ocorreu com o
banco Master e com a Reag, um dos canais de infiltração do crime organizado
para lavar dinheiro e distribuir recursos.
Só há pouco, com a descoberta da intensa
infiltração em negócios legais, como combustíveis e imóveis, e de seus rastros
no mercado financeiro, é que os governantes abriram os olhos para isso. O
aumento do custo do compliance viria de uma forma ou de outra: não há como
atacar o PCC e o CV sem saber onde eles estão, e eles estão colados ao sistema
da economia legal. Não interessa aos EUA punir aleatoriamente inocentes úteis
no caminho do crime, mas, sim, a desmontagem física e financeira dos grupos.
Não apenas os governos de Bolsonaro e Lula, mas todos os outros têm falhado
nessa missão.
O alerta americano, que vem na forma de leis draconianas, exige do governo brasileiro que faça mais e melhor contra as facções que atuam em todo o território nacional, o que só traria benefícios ao país.
Realidade do Cerrado ofusca queda no
desmatamento
Por Correio Braziliense
A pressão sobre o Cerrado arrefece em ritmo
mais lento, prolongando o cenário de criticidade no chamado berço das águas
A constatação de que o desmatamento no Brasil
entra em fase mais sólida de desaceleração merece destaque. Em tempos de
colapso da biodiversidade e do clima, investidas públicas consistentes de
proteção da fauna e da flora precisam ser celebradas. Mas a realidade do bioma
que abriga justamente a sede dos poderes republicanos e é vital para o
equilíbrio dos outros ecossistemas do país tira brilho da festa. A pressão
sobre o Cerrado arrefece em ritmo mais lento, prolongando o cenário de
criticidade no chamado berço das águas.
Segundo o Relatório Anual do Desmatamento no
Brasil de 2025, divulgado semana passada pelo pelo MapBiomas, foram desmatados
984.794 hectares em todo o país no ano passado, queda de 20,6% em relação a
2024. É a primeira vez desde 2019 — quando se iniciou a série histórica — que o
acumulado do ano fica abaixo de 1 milhão de hectares. Porém, mais da metade
desse total, 55%, se deu no Cerrado. A área perdida na savana brasileira
equivale ao dobro do que foi desmatado na Amazônia no mesmo período. Exatamente
1.482 hectares de vegetação nativa por dia — ou três e meio Parques da Cidade a
cada 24 horas.
Enquanto a queda nacional no desmatamento
soma 20,6% de 2024 para 2025, o índice considerando apenas o Cerrado é de
16,9%. O bioma concentra 43,5% de todo o desmatamento em Unidades de
Conservação (UCs), sendo 97% dessa perda localizada em Áreas de Proteção
Ambiental (Apas), onde o uso sustentável dos recursos naturais deveria ser
condição fundante. Junto com a Amazônia, o Cerrado responde por mais de 60% da
área de vegetação nativa perdida em razão do crescimento urbano. E, nas últimas
quatro décadas, enfrenta os impactos do avanço de 74% da expansão agropecuária.
Está claro que novos progressos no combate ao
desmatamento passam obrigatoriamente por conter a sangria no planalto central,
e ao menos dois episódios também recentes revelam a complexidade dessa
empreitada. A "Semana do Agro" no Congresso é um deles. Parlamentares
aproveitaram a presença de prefeitos em Brasília no mês passado para, sob o
argumento de acelerar pautas ligadas a crédito e segurança rural, apresentar
projetos de leis que enfraquecem a proteção dos biomas. Um deles, o PL
2564/2025, dificulta a aplicação de embargos e medidas cautelares contra
infratores ambientais, incluindo a destruição e a apreensão de maquinários
utilizados nos crimes.
Outro entrave — ainda que esteja no campo das
possibilidades — é a chegada de um El Niño que vem acumulando características
capazes de torná-lo o mais forte dos últimos 150 anos. Tradicionalmente, o
fenômeno climático reduz as chuvas e a umidade no Cerrado, além de elevar a
temperatura. Turbinado, vira uma combinação ainda mais perfeita para a
proliferação de incêndios no bioma, tanto os naturais quanto os provocados pela
ação humana. Por isso, exige preparo prévio. Piora a situação a proximidade das
disputas eleitorais, que, como observado há dois anos, acirra a polarização e a
mão dos incendiários.
Ao apresentar o relatório do MapBiomas, a secretária-executiva do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Anna Flavia Senna, afirmou que o balanço evidencia a "convicção forte" no país de que será cumprido o compromisso de zerar o desmatamento até 2030, ainda que seja um "desafio extremamente complexo". O prazo é curto, os dados animadores, mas não se pode baixar a guarda e fechar os olhos para o que se passa no Cerrado brasileiro. Sem a caixa d'água, promessas e vidas secam.
O fracasso de mais uma campanha de vacinação
Por O Povo (CE)
A verdade é que continuamos pagando, no
Brasil, o alto preço da penetração aqui de um movimento anti-vacina global que,
até então, era barrado em nosso território por uma atitude cultural da
população
Parece trágico que o Brasil tenha fracassado,
pelo sexto ano consecutivo, no alcance da meta que havia estabelecido na sua
campanha de vacinação contra a gripe Influenza. Apesar dos chamamentos
públicos e de haver montado uma ampla estrutura de atendimento ao público-alvo
nas unidades de saúde espalhadas pelo País, chegou-se a apenas 38% quando o
previsto era 90%. Uma lástima.
A influenza, infecção respiratória viral de
elevada transmissibilidade, é responsável por impacto expressivo no índice de mortalidade da
população, especialmente entre aqueles pertencentes aos grupos mais
vulneráveis.
A doença é causada pelos vírus influenza dos
tipos A, B, C e D, sendo os vírus dos tipos A e B os principais responsáveis
por epidemias sazonais em seres humanos. O vírus influenza A, em
particular, apresenta maior relevância em saúde pública por estar associado à
ocorrência de pandemias, como a registrada em 2009, causada pelo vírus
influenza A (H1N1).
A verdade é que continuamos pagando, no
Brasil, o alto preço da penetração aqui de um movimento anti-vacina global
que, até então, era barrado em nosso território por uma atitude cultural
da população. Havia, até que tivemos a crise sanitária de cinco anos atrás, uma
fé quase inabalável do brasileiro na capacidade que têm os imunizantes de
estabelecer a proteção necessária diante de males para os quais a ciência
desenvolvera antídotos eficazes.
Assim vencemos, por exemplo, a paralisia
infantil e, não por coincidência, aponta-se como muito alto hoje o risco
de a doença reaparecer depois que os negativistas passaram a encontrar espaço
no País para o avanço de suas teses danosas.
As autoridades precisam entender, após tantos
resultados abaixo do esperado nas campanhas anuais de vacinação, que há
uma realidade nova e mais desafiadora a exigir que a estratégia mude.
Uma parcela de brasileiros e brasileiras coloca em dúvida a eficácia dos
imunizantes e é preciso reconquistar a confiança perdida, o que justifica o
fato, por exemplo, de última Campanha, encerrada dia 31 de maio último, ter
apresentado um balanço final muito distante daquele que se esperava. O Ceará
até registrou índice sutilmente maior do que a média do País, chegando-se a 40%
dos idosos previstos, muito embor em ambos os casos o resultado tenha ficado muito
longe do que era esperado.
É um quadro complexo, que precisa passar pelas escolas, exige envolvimento das famílias, clama por uma atitude mais afirmativa da comunidade de saúde, enfim, que pede atitude e urgência. Dos governantes em primeiro lugar, mas da sociedade, fundamentalmente, fazendo frente a uma situação na qual a ciência cede espaço a teses fundamentalistas e que têm avançado entre nós ao custo de vidas que poderiam ser poupadas. Urge uma mudança.

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