terça-feira, 2 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Uso de criptoativos por criminosos requer atenção

Por O Globo

Operações contra finanças do PCC descobriram esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro e golpes digitais

As operações recentes contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do Brasil, expuseram como o avanço da digitalização financeira abre espaço a novos crimes, permite integração à economia formal e cria inúmeras oportunidades para lavar o dinheiro resultante das atividades criminosas, como demonstrou reportagem do GLOBO. A transformação progressiva no perfil dos crimes — de assaltos e violência nas ruas para golpes digitais — tem pressionado o sistema de segurança pública e órgãos reguladores e de fiscalização, como o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários. Entre os recursos empregados pelos criminosos, tem se destacado o uso crescente de criptoativos.

Deflagrada em agosto passado, a Operação Carbono Oculto, da Receita Federal, Ministério Público de São Paulo e Polícia Federal (PF), representou um marco no enfrentamento às finanças do crime organizado. As investigações descobriram a conexão entre um esquema de produção, adulteração e venda de combustíveis com uma fintech da Faria Lima. Na semana passada, como desdobramento, a Operação Fluxo Oculto mapeou empresas-fantasmas do PCC que usavam fundos de investimento para lavar dinheiro. Foram identificadas seis fintechs e pelo menos R$ 365 milhões em operações suspeitas com criptoativos — isso é só o que foi descoberto. “Antes, o setor formal era o meio para ocultar recursos. Agora, passou a ser parte do próprio negócio criminoso”, diz Marcia Meng, superintendente da Receita em São Paulo e coordenadora de apurações da Carbono Oculto e da Fluxo Oculto. “Fintechs são criadas apenas para prestar serviço ao crime organizado.”

O PCC mantinha, segundo a PF, R$ 30 bilhões em fundos de investimento e movimentou R$ 46 bilhões em transações suspeitas via fintechs em cinco anos. Golpes envolvendo Pix, fraudes de cartão de crédito, vendas e boletos falsos ou fraudes digitais de toda natureza no mundo financeiro somaram R$ 112 bilhões em 2025. São números que fazem empalidecer o faturamento com drogas e outros crimes comumente associados às facções criminosas.

Como a tecnologia que faz funcionar as criptomoedas — o blockchain — garante anonimato, segurança e não tem controle central, as organizações criminosas passaram a usá-la para guardar o produto de seus crimes. Embora operações individuais com criptoativos sejam registradas, na prática há grande margem de manobra para as facções se aproveitarem delas para movimentar recursos ou elevar sua receita. Não surpreende que a Polícia Civil do Rio tenha localizado uma “fazenda” de 30 computadores, no Complexo do Lins, em área dominada pelo Comando Vermelho, consumindo energia furtada para “minerar” criptomoedas.

As autoridades não estão alheias à realidade. Faz algum tempo que o BC baixa resoluções para regular o mercado financeiro digital. Fintechs têm sido obrigadas a fornecer mais informações, aproximando-se de bancos tradicionais. Foi crítica a proibição das contas em que vários correntistas compartilhavam um único registro —ou “contas-bolsão” —, usadas por criminosos em sofisticados esquemas de lavagem. Mas o crime também não fica parado. É crucial que o Estado se mantenha atualizado, não apenas para combater a lavagem digital de dinheiro, mas também para proteger o cidadão vítima de toda sorte de golpes virtuais.

Preocupação com crime contra mulher deve guiar esforços das autoridades

Por O Globo

Para seis em dez brasileiros, ele é o que há de mais grave na criminalidade, revelou pesquisa

Seis em dez brasileiros consideram as agressões contra mulheres o crime mais grave do país. Despertam bem mais preocupação que tráfico de drogas (16%) ou assalto à mão armada (10%), de acordo com pesquisa Datafolha em parceria com o Movimento Mulher 360. A percepção da população deveria guiar os esforços das autoridades para enfrentar a questão com novo ímpeto e estratégia renovada. Embora tanto mulheres como homens tenham identificado o problema como o maior, a média geral encobre diferenças. Enquanto 73% delas disseram que a violência contra mulheres é a questão mais grave, 49% dos homens escolheram essa alternativa. Para mais de 80% — tanto de mulheres quanto de homens —, o problema aumentou no último ano.

Ambos os gêneros mostram conhecer as leis de proteção à mulher. A Lei Maria da Penha é conhecida por 97% de homens e mulheres, a Lei do Feminicídio por 87% das mulheres e 85% dos homens, e a Lei da Importunação Sexual por 80% dos dois gêneros. Não parece haver, portanto, deficiência nas campanhas de divulgação. A legislação, porém, não tem sido suficiente para aumentar de forma significativa a percepção de segurança. Apenas 34% das mulheres consideram que a Maria da Penha tenha contribuído significativamente para punir casos de violência.

O levantamento não elucida se o problema está na legislação ou na sua aplicação, mas uma resposta dá pistas. Apenas 19% das mulheres dizem confiar muito na polícia para a sua proteção, ante 31% dos homens. Isso não quer dizer que as forças policiais não sejam acionadas. Das mulheres que sofreram agressão grave nos últimos 12 meses, 51% fizeram denúncia numa Delegacia da Mulher ou delegacia comum, ligaram para o 190 ou 180, ou procuraram ajuda policial on-line. O problema não parece ser a falta de canais, mas de confiança.

Há virtual unanimidade entre mulheres e homens sobre a necessidade de a igualdade de gêneros ser tema obrigatório nas escolas. Quase 90% concordam que crianças e jovens devem aprender como identificar e prevenir violência doméstica, participar de dinâmicas sobre o respeito mútuo a meninos e meninas e aprender que homens e mulheres têm a mesma importância e direitos na sociedade.

Apesar dos avanços registrados nas últimas duas décadas, a pesquisa mostra que há muito mais por fazer. “A população relativiza comportamentos que sustentam a violência de gênero. Raramente o crime começa com uma agressão física”, diz Margareth Goldenberg, diretora executiva do Movimento Mulher 360. Para 63% dos homens e 50% das mulheres, não é violência contra a mulher um marido pedir as senhas das redes sociais dela e exigir que mostre suas conversas. Também não é considerado violência, para 72% dos homens e 53% das mulheres, o namorado exigir que a namorada vista outra roupa antes de sair para jantar sob a justificativa de que as pessoas não a respeitarão na rua. A mudança de mentalidade, constata a pesquisa, não acompanhou o avanço das leis.

A subjetividade do tribunal racial

Por O Estado de S. Paulo

Caso da servidora do Itamaraty exonerada por ser ‘branca’, malgrado se declarar parda, prova que não há critérios objetivos para que bancas de heteroidentificação decidam acesso às cotas

A ex-oficial de chancelaria Flávia Goes de Medeiros foi exonerada do Itamaraty há poucas semanas por não ter sido considerada apta a se beneficiar do sistema de cotas, por meio do qual ingressou na instituição por concurso em 2024. O futuro da sra. Medeiros no serviço público está em discussão na Justiça, mas seu caso lança nova luz sobre o velho problema das tais “bancas de heteroidentificação”, verdadeiros tribunais raciais que, pautados por critérios absolutamente subjetivos, determinam com base no olhar quem é preto ou pardo o suficiente para ser digno de reparação histórica.

Aqui não está em questão a necessidade das chamadas políticas de ação afirmativa num país como o Brasil. Este jornal, que nasceu em fins do século 19 para defender o regime republicano e o fim da escravidão, tampouco ignora a chaga da discriminação racial que marcou a história brasileira – e cujos efeitos permanecem visíveis até hoje. Nosso interesse nesta página é apontar para as idiossincrasias de um mecanismo criado para definir quem pode ou não ser beneficiário daquelas políticas a partir de critérios que só existem na cabeça dos avaliadores. É evidentemente antirrepublicano.

A Lei 15.142/2025 determina que podem concorrer a 30% das vagas reservadas no serviço público aqueles que se autodeclararem pretos ou pardos, conforme os critérios utilizados pelo IBGE. Porém, o mesmo diploma legal estabelece que essa autodeclaração deve ser submetida a um procedimento de confirmação. Em outras palavras: o Estado que afirma confiar na palavra do cidadão para fins censitários é o mesmo que, no que concerne aos concursos públicos, demonstra não ter tanta confiança assim.

É no meio dessa confusão que as tais bancas de heteroidentificação, encarregadas de avaliar os traços fenotípicos dos candidatos, têm espaço de sobra para praticar uma espécie de “achismo” racial, chamemos assim. Não há parâmetros objetivos capazes de definir a partir de que tom de pele ou traço facial alguém deixou de ser negro. O resultado é este a que assistimos na administração e nas universidades públicas: a prevalência das percepções individuais dos membros dos tribunais raciais sobre critérios verificáveis de admissão, como, por exemplo, a condição socioeconômica dos postulantes.

O caso de Flávia Medeiros é a personificação desse limbo. Considerada “branca” pela banca de heteroidentificação do Itamaraty, ela obteve decisão judicial favorável, participou do curso de formação, tomou posse e exerceu normalmente suas funções. Posteriormente, a decisão foi revertida e ela acabou exonerada. A cor da sua pele não mudou nesse interregno. Mudaram os olhares sobre ela. Como isso pode ser considerado um sistema de seleção justo?

Chama a atenção que, ao pedir a reintegração da sra. Medeiros, a Educafro, entidade insuspeita na defesa da dignidade da população negra brasileira, afirmou que a ex-servidora foi prejudicada por uma “avaliação fenotípica subjetiva” que contrariou sua autodeclaração e sua trajetória. Ora, se até a Educafro reconhece a subjetividade desses tribunais raciais, é impossível prever que um dia haverá algum meio de avaliar objetivamente quem deve ou não ser reconhecido como preto ou pardo para fins de cotas.

Como bem observou ao Estadão o professor Wilson Gomes, da Universidade Federal da Bahia, causa espanto a normalização, no Brasil, de uma polícia racial encarregada de examinar o tamanho do nariz ou dos lábios de uma pessoa, o tipo de cabelo, a tonalidade da pele e outros traços distintivos para decidir quem tem direito a se beneficiar de uma política pública. A descrição do professor Gomes pode soar desconfortável para muitos, mas é exatamente isso o que tem ocorrido.

É óbvio que fraudes existem e têm de ser combatidas. Mas isso não justifica a institucionalização de um sistema que confere enormes poderes a terceiros para arbitrar identidades raciais que, repita-se, a lei autoriza que sejam autodeclaradas.

O País precisa debater sem paixões a existência dessas bancas de heteroidentificação. Na República, a vigência de políticas públicas não pode depender da avaliação pessoal de servidores incapazes de oferecer o que a própria Constituição exige deles: objetividade.

O alerta do Ebola

Por O Estado de S. Paulo

A ciência avançou desde a covid. A vigilância e a cooperação global, nem tanto. O surto no Congo expõe o risco de a próxima pandemia atingir um mundo menos preparado do que em 2020

O surto de Ebola no Congo dificilmente provocará a próxima pandemia. A cepa Bundibugyo não se transmite pelo ar, espalha-se menos rapidamente que a covid e mata com eficiência brutal demais para viajar com a mesma facilidade de um coronavírus respiratório. Ainda assim, o surto deveria inquietar governos muito além da África Central.

Por semanas, o vírus circulou quase invisível em regiões frágeis do leste congolês. Não havia vacina para a cepa. Faltavam testes rápidos. Hospitais foram atacados por moradores desconfiados de médicos e autoridades. Uganda já confirmou casos e a Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou o alerta internacional. Tudo isso só um punhado de anos após a maior catástrofe sanitária do século.

Não que o mundo tenha aprendido pouco com a covid. Em vários aspectos, aprendeu muito. A velocidade científica na pandemia foi extraordinária. O sequenciamento do vírus ocorreu em dias. Vacinas foram desenvolvidas em tempo recorde. Plataformas genéticas, vigilância genômica e redes internacionais de pesquisa avançaram numa escala inimaginável no início de 2020.

Mas esses “milagres” não surgiram espontaneamente. Foram fruto de décadas de pesquisa, financiamento contínuo, protocolos previamente testados, capacidade industrial acumulada e redes de vigilância construídas muito antes de o coronavírus aparecer.

O mundo saiu da covid cientificamente mais capaz, mas politicamente mais fragmentado. A ajuda internacional para a saúde caiu drasticamente no ano passado, segundo a OCDE. Programas de vigilância foram reduzidos. O tratado pandêmico pactuado na OMS segue travado em disputas sobre patentes, compartilhamento de dados e acesso a vacinas. Os EUA, que por décadas lideraram boa parte da arquitetura internacional de saúde pública, recuaram para uma lógica mais transacional e desconfiada do multilateralismo. Em vários países, a própria ideia de saúde pública virou campo de guerra ideológica.

O paradoxo é que a humanidade talvez nunca tenha compreendido tão bem os mecanismos biológicos das pandemias, mas parece menos disposta a sustentar politicamente os instrumentos necessários para evitá-las. Vigilância epidemiológica, treinamento, estoques estratégicos, laboratórios, redes de testes clínicos e capacidade produtiva raramente rendem dividendos eleitorais enquanto funcionam. Custam caro, operam silenciosamente e parecem exagerados em tempos normais. A preparação que salva vidas quase sempre é invisível – até o momento em que falha.

O surto de Ebola expõe precisamente essas fragilidades. O vírus avançou em regiões marcadas por conflito armado, baixa presença estatal e profunda desconfiança social. Um terço dos moradores de áreas afetadas nem sequer acredita que a doença exista, segundo uma pesquisa da ONG ActionAid. Profissionais de saúde relatam resistência a protocolos funerários e ataques a centros de tratamento. Nenhuma plataforma genômica substitui equipes no terreno, hospitais minimamente funcionais ou confiança pública. Ainda que seja baixo para países como o Brasil, o risco pode aumentar na falta de vigilância aeroportuária, de protocolos de detecção e de preparação laboratorial.

As ameaças pandêmicas não desapareceram com o fim das restrições da covid. Ao contrário: a pressão humana sobre florestas, a expansão urbana, a circulação global intensa e o avanço sobre habitats de animais ampliam continuamente as oportunidades para novos “saltos” zoonóticos. Há milhões de vírus ainda desconhecidos em mamíferos e aves. A maioria jamais afetará humanos, mas alguns provavelmente já circulam silenciosamente em algum lugar do planeta.

Surtos são inevitáveis. Pandemias, não. Entre uma coisa e outra existem escolhas políticas, capacidade institucional e tempo de reação. As primeiras semanas de um surto costumam decidir o destino dos meses seguintes. Foi assim com a covid. Está sendo assim agora no Congo.

O maior risco talvez não seja a próxima “doença X”. É a tentação de acreditar que o trauma recente bastou para nos deixar automaticamente preparados. A história das epidemias sugere o contrário. O velho ciclo de pânico e negligência produz seus efeitos mais virulentos quando a memória da última tragédia começa a desaparecer.

Tragédia silenciosa

Por O Estado de S. Paulo

Estudo da Unifesp mostra que 4 em cada 5 idosos com demência não têm o diagnóstico

Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou como a demência acomete silenciosamente os idosos brasileiros. Segundo a pesquisa, publicada recentemente na revista científica International Journal of Geriatric Psychiatry, 4 em cada 5 idosos com quadro de demência no País simplesmente não sabem que vivem com essa condição.

O Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil) acompanhou 5,2 mil idosos e, a partir de testes cognitivos e medidas de comprometimento funcional, encontrou quase 400 deles com demência. E, desse recorte, 83% não tinham um diagnóstico prévio, indicando um elevado grau de subdiagnóstico no Brasil.

O cruzamento dos achados dos pesquisadores da Unifesp com os dados do Relatório Nacional sobre a Demência, publicado pelo Ministério da Saúde em 2024, aponta para a existência de um grande desafio: hoje, mais de 2 milhões de pessoas podem estar vivendo com demência no Brasil sem que saibam. Logo, um dos principais feitos do estudo da Unifesp foi jogar luz sobre um apagão informacional.

Além de dar a real dimensão do problema, a pesquisa também conseguiu traçar o perfil dos idosos com demência. E o que se descobriu foi que, desde muito cedo até o fim da vida dos brasileiros, as desigualdades socioeconômicas condenam boa parte deles à privação. Segundo o estudo, o subdiagnóstico foi mais frequente nas regiões mais pobres (90,2%) do que nas regiões mais ricas (76,0%), e maior entre os indivíduos analfabetos (93,9%).

Tudo isso ocorre, segundo os pesquisadores da Unifesp, por uma série de fatores, a começar por questões culturais e comportamentais. É bastante comum as famílias – mais por desconhecimento do que por negligência – ignorarem os primeiros sintomas da demência, em razão de uma crença equivocada, segundo os autores do estudo, “de que o declínio cognitivo é uma consequência esperada do envelhecimento”. Somam-se a isso as dificuldades de acesso ao sistema de saúde e as falhas na formação dos profissionais.

A realidade se impõe: os brasileiros estão vivendo mais, e o número de idosos no País, que aumentará ainda mais nas próximas décadas, exige desde já políticas voltadas ao cuidado com a população idosa e a preparação para os desafios futuros. Saber o tamanho do problema é um bom começo.

Com base em dados e evidências, o poder público poderá elaborar, testar e implementar políticas públicas eficientes em saúde mental. Isso inclui a detecção precoce da demência, a educação dos pacientes, dos cuidadores e dos profissionais de saúde, o planejamento do cuidado e o acesso ao tratamento, às terapias e ao apoio psicossocial.

Os parentes também poderão se preparar melhor para uma longa jornada que demandará dedicação, atenção e carinho com os pacientes, bem como o cuidado consigo mesmos. E não menos importante: com o suporte adequado, o controle dos sintomas e o tratamento correto, os pacientes idosos poderão ter mais apoio para organizar a própria vida e preservar sua autonomia pelo maior tempo possível, vivendo com mais qualidade.

Estímulos do governo não produzirão alta sólida do PIB

Por Folha de S. Paulo

Primeiro trimestre mostra maior expansão em um ano, e expectativas para 2026 têm ligeira revisão para cima

Benesses eleitoreiras do governo Lula podem produzir efeitos de curto prazo, mas dificultam a queda da inflação e dos juros

Depois de nove meses de quase estagnação, a economia brasileira voltou a mostrar vigor aparente no primeiro trimestre deste ano. Como divulgou o IBGEo Produto Interno Bruto cresceu 1,1% na comparação com os três meses anteriores —uma taxa que seria excelente, se fosse duradoura.

Não é o que se espera, no entanto, embora a série de estímulos eleitoreiros do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) possa dar mais algum impulso de curto prazo ao consumo e à atividade.

O avanço do PIB de janeiro a março refletiu expansão similar, de 1%, do consumo das famílias, até então travado pelos juros de 15% ao ano impostos pelo Banco Central para conter a inflação. A Selic só começou a cair em março e está, hoje, em ainda sufocantes 14,5%, e o maior impulso às compras parece ter sido a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda das pessoas físicas.

O investimento, gasto destinado a elevar a capacidade produtiva de empresas e governos, teve alta de 3,5%, mas a cifra é enganosa após uma queda de magnitude comparável (3,4%) no trimestre anterior. Considerando um período mais longo, de 12 meses, o aumento é de apenas 0,4%, ante 1,2% verificado no consumo.

Veem-se os estertores de um modelo de crescimento econômico impulsionado pelo gasto público, sobretudo transferências diretas de dinheiro às famílias por meio de benefícios previdenciários e assistenciais.

Desse modo se obtiveram taxas de expansão anual na casa dos 3% entre 2022 e 2024, acima das expectativas iniciais de mercado. O preço de turbinar a demanda acima das possibilidades da oferta, no entanto, não tardou a chegar —na forma de pressões inflacionárias que forçaram o BC a endurecer a política monetária.

A consequência foi desaceleração do PIB, que não cresceu mais de 2,3% em 2025. Esperava-se taxa ainda menor neste ano, mas os esforços de Lula em busca de popularidade e votos podem alterar esse quadro. Desde janeiro, as projeções mais consensuais já subiram de 1,8% para 1,9%, e é possível que a revisão prossiga por mais algum tempo.

O governo petista, afinal, lançou nas últimas semanas um novo programa de renegociação de dívidas das famílias, acabou com a "taxa das blusinhas" sobre importações de pequeno valor e criou linhas de crédito para taxistas e motoristas de aplicativos, entre outras benesses. Ademais, há ajuda conjuntural da boa safra para a agropecuária e da alta do petróleo para a indústria extrativa.

Os limites, porém, estão dados. As projeções para a inflação do ano igualmente estão em ascensão, movidas também pelo impacto da guerra no Oriente Médio, e já superam 5%, ante um teto oficial de 4,5%. Reduz-se, com isso, a margem para a redução dos juros que permitiria um crescimento mais duradouro do PIB.

Isso para nem falar das exauridas contas públicas, cuja deterioração eleva os riscos de crise financeira nos próximos anos.

Protestos ampliam crise na Bolívia

Por Folha de S. Paulo

Impulsionados pela oposição, bloqueios em estradas causam escassez de comida, combustíveis e remédios

Governo muda lei para facilitar decretação de estado de exceção; crise econômica e política cria risco para a estabilidade institucional

Há um mês a Bolívia vive uma onda de protestos promovidos por sindicatos, camponeses e indígenas que agrava a pior crise econômica do país desde a década de 1980. As principais vias de acesso a La Paz foram interditadas por manifestantes e há mais de 40 pontos de bloqueio em estradas.

O resultado é escassez de alimentos, combustíveis e remédios —na quinta (28), centenas de profissionais da saúde protestaram contra a falta de insumos.

Os manifestantes exigem medidas contra o aumento do custo de vida, a reversão de medidas de austeridade fiscal implementadas pela gestão de Rodrigo Paz, maior representatividade das classes populares no governo e até a renúncia do presidente.

Paz assumiu o poder há apenas seis meses, interrompendo 20 anos de administrações do partido de esquerda Movimento ao Socialismo (MAS), do ex-presidente Evo Morales (2006-2019).

O mandatário herdou a crise econômica de seu antecessor, Luis Arce, que fora alvo de protestos capitaneados por Morales, com quem havia rompido. A atual situação da Bolívia é oriunda de um longo período de má gestão.

A partir de 2014, com o declínio da produção e das exportações de gás natural, o país começou a perder sua principal fonte de dólares. Mesmo assim, manteve o modelo de combustíveis subsidiados, iniciado em 2005 e preservado pelo MAS, além de alto gasto público e câmbio controlado.

As reservas em moeda forte chegaram perto do fim entre 2024 e 2025, dificultando a importação de combustíveis e insumos. A escassez alimentou filas e mercado paralelo; o déficit orçamentário aumentou; a inflação acumulada em 12 meses chegou a 14% em abril, depois de um pico de quase 25% em julho do ano passado.

Em resposta aos protestos, Paz trocou o ministro do Trabalho, criticado pelo sindicalismo, por um advogado de origem indígena e anunciou um corte de 50% nos salários do primeiro escalão, a começar pelo seu.

De mais alarmante, o governo revogou, na semana passada, uma legislação de 2020 que dificultava a declaração de estado de exceção e o emprego das Forças Armadas para conter manifestações. A mudança foi apoiada por governistas e opositores na Assembleia Nacional.

Trata-se de situação em que deterioração econômica e turbulência política se agravam mutuamente, agora com risco para a estabilidade institucional. No segundo país mais pobre do continente, atrás apenas da Venezuela, a democracia também vai mostrando fragilidades.

Diante de alerta americano, país tem de fazer mais contra facções

Por Valor Econômico

Não apenas os governos de Bolsonaro e Lula, mas todos os outros têm falhado nessa missão

Para além do ruído eleitoral, as consequências da errônea classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas devem ter um olhar mais pragmático agora, para serem menos bombásticas ou destrutivas do que os candidatos à Presidência querem fazer crer. Há ameaças no ar porque quem governa os Estados Unidos é Donald Trump, que persegue inimigos políticos em seu país e declarou uma guerra comercial contra o mundo por julgar que os EUA estão sendo explorados e enganados. Que Trump disponha de mais instrumentos jurídicos para satisfazer seus desejos aleatórios é um risco adicional. PCC e CV não só vêm se espalhando pelo Brasil como se tornaram organizações transnacionais, e toda ajuda bem-intencionada para detê-los seria bem-vinda.

É o exemplo recente de Trump no uso dessas leis contra “terroristas” que levanta todo tipo de suspeitas, ainda que fantásticas. O presidente americano precisou incluir o ditador venezuelano Nicolás Maduro como membro da gangue Tren de Aragua para entrar em Caracas e sequestrá-lo, levando-o prisioneiro aos EUA. Maduro comandava uma ditadura decadente e era mal visto até por seus colegas de governo, que continuaram no poder sem ele e cumprindo ordens de Trump. O Brasil é a maior economia da América Latina e uma das maiores democracias do mundo. Imaginar invasões de tropas americanas na Baía da Guanabara é um delírio, no qual incorrem, como desejo frustrado, os bolsonaristas. A hipótese serve, por outro lado, para que o governo toque a música estridente do nacionalismo e da soberania. As alas mais radicais do governo Trump cogitavam há muito incluir as organizações brasileiras como terroristas, e é ouro de tolo o regozijo de Flávio Bolsonaro com a decisão, horas depois de ele ter trocado rápidos cumprimentos com Donald Trump. O governo de Jair Bolsonaro nada fez na segurança além de facilitar a venda de armas no país, beneficiando milícias com as quais seu filho 01, atual pré-candidato, mantinha proximidade perigosa.

A mudança na designação de organizações criminosas e de traficantes de drogas para terroristas amplia o escopo das ações, vigilância e sanções à disposição dos EUA, colocando-as como um risco à “segurança nacional”. A legislação alcança empresas, instituições e pessoas que, direta ou indiretamente, estejam envolvidas com as organizações designadas - no limite, mesmo que elas sequer soubessem das ligações perigosas das quais estariam fazendo parte.

As punições são severas e podem desde excluir empresas, bancos e cidadãos brasileiros do sistema de transações com dólar até impedir seus negócios nos Estados Unidos ou mesmo seu ingresso no país. A territorialidade da lei americana é expandida para julgar cidadãos de países estrangeiros pela Justiça americana. Os resultados da nova classificação obrigarão bancos, empresas e investidores brasileiros a se cercarem de toda a cautela nas relações com clientes, fornecedores e terceiras partes. Isso afetará diretamente os custos de compliance e com mais intensidade inicial o sistema financeiro, pela globalização de seus negócios e por ser um canal óbvio e necessário de transferência de recursos que são produto de crimes.

Há poucas chances de que sanções atinjam o Pix como meio de pagamento, mas alguma probabilidade de que instituições que dele participam sejam alvo, abrindo “clarões” ou lacunas com a saída de participantes. A maior ameaça ao Pix, porém, parece provir da investigação com base na seção 301, que considera o mecanismo discriminatório contra as empresas de cartões de crédito americanas.

As novas designações de PCC e CV não foram mudadas para “invadir o Brasil”. Teriam menos estardalhaço se Trump não fosse o presidente que as promoveu. É óbvio que seria melhor que isso não tivesse acontecido. Mas há campos de entendimento profícuos para serem explorados em comum. Os EUA têm recursos financeiros, tecnológicos e de pessoal treinados no combate ao crime organizado, ao cibercrime e à espionagem. Brasil e Estados Unidos já atuam juntos na segurança pública e na repressão ao tráfico de drogas, e os órgãos do governo americano foram avisados do que ocorreu com o banco Master e com a Reag, um dos canais de infiltração do crime organizado para lavar dinheiro e distribuir recursos.

Só há pouco, com a descoberta da intensa infiltração em negócios legais, como combustíveis e imóveis, e de seus rastros no mercado financeiro, é que os governantes abriram os olhos para isso. O aumento do custo do compliance viria de uma forma ou de outra: não há como atacar o PCC e o CV sem saber onde eles estão, e eles estão colados ao sistema da economia legal. Não interessa aos EUA punir aleatoriamente inocentes úteis no caminho do crime, mas, sim, a desmontagem física e financeira dos grupos. Não apenas os governos de Bolsonaro e Lula, mas todos os outros têm falhado nessa missão.

O alerta americano, que vem na forma de leis draconianas, exige do governo brasileiro que faça mais e melhor contra as facções que atuam em todo o território nacional, o que só traria benefícios ao país.

Realidade do Cerrado ofusca queda no desmatamento

Por Correio Braziliense

A pressão sobre o Cerrado arrefece em ritmo mais lento, prolongando o cenário de criticidade no chamado berço das águas

A constatação de que o desmatamento no Brasil entra em fase mais sólida de desaceleração merece destaque. Em tempos de colapso da biodiversidade e do clima, investidas públicas consistentes de proteção da fauna e da flora precisam ser celebradas. Mas a realidade do bioma que abriga justamente a sede dos poderes republicanos e é vital para o equilíbrio dos outros ecossistemas do país tira brilho da festa. A pressão sobre o Cerrado arrefece em ritmo mais lento, prolongando o cenário de criticidade no chamado berço das águas.

Segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil de 2025, divulgado semana passada pelo pelo MapBiomas, foram desmatados 984.794 hectares em todo o país no ano passado, queda de 20,6% em relação a 2024. É a primeira vez desde 2019 — quando se iniciou a série histórica — que o acumulado do ano fica abaixo de 1 milhão de hectares. Porém, mais da metade desse total, 55%, se deu no Cerrado. A área perdida na savana brasileira equivale ao dobro do que foi desmatado na Amazônia no mesmo período. Exatamente 1.482 hectares de vegetação nativa por dia — ou três e meio Parques da Cidade a cada 24 horas.

Enquanto a queda nacional no desmatamento soma 20,6% de 2024 para 2025, o índice considerando apenas o Cerrado é de 16,9%. O bioma concentra 43,5% de todo o desmatamento em Unidades de Conservação (UCs), sendo 97% dessa perda localizada em Áreas de Proteção Ambiental (Apas), onde o uso sustentável dos recursos naturais deveria ser condição fundante. Junto com a Amazônia, o Cerrado responde por mais de 60% da área de vegetação nativa perdida em razão do crescimento urbano. E, nas últimas quatro décadas, enfrenta os impactos do avanço de 74% da expansão agropecuária.

Está claro que novos progressos no combate ao desmatamento passam obrigatoriamente por conter a sangria no planalto central, e ao menos dois episódios também recentes revelam a complexidade dessa empreitada. A "Semana do Agro" no Congresso é um deles. Parlamentares aproveitaram a presença de prefeitos em Brasília no mês passado para, sob o argumento de acelerar pautas ligadas a crédito e segurança rural, apresentar projetos de leis que enfraquecem a proteção dos biomas. Um deles, o PL 2564/2025, dificulta a aplicação de embargos e medidas cautelares contra infratores ambientais, incluindo a destruição e a apreensão de maquinários utilizados nos crimes.

Outro entrave — ainda que esteja no campo das possibilidades — é a chegada de um El Niño que vem acumulando características capazes de torná-lo o mais forte dos últimos 150 anos. Tradicionalmente, o fenômeno climático reduz as chuvas e a umidade no Cerrado, além de elevar a temperatura. Turbinado, vira uma combinação ainda mais perfeita para a proliferação de incêndios no bioma, tanto os naturais quanto os provocados pela ação humana. Por isso, exige preparo prévio. Piora a situação a proximidade das disputas eleitorais, que, como observado há dois anos, acirra a polarização e a mão dos incendiários. 

Ao apresentar o relatório do MapBiomas, a secretária-executiva do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Anna Flavia Senna, afirmou que o balanço evidencia a "convicção forte" no país de que será cumprido o compromisso de zerar o desmatamento até 2030, ainda que seja um "desafio extremamente complexo". O prazo é curto, os dados animadores, mas não se pode baixar a guarda e fechar os olhos para o que se passa no Cerrado brasileiro. Sem a caixa d'água, promessas e vidas secam.

O fracasso de mais uma campanha de vacinação

Por O Povo (CE)

A verdade é que continuamos pagando, no Brasil, o alto preço da penetração aqui de um movimento anti-vacina global que, até então, era barrado em nosso território por uma atitude cultural da população

Parece trágico que o Brasil tenha fracassado, pelo sexto ano consecutivo, no alcance da meta que havia estabelecido na sua campanha de vacinação contra a gripe Influenza. Apesar dos chamamentos públicos e de haver montado uma ampla estrutura de atendimento ao público-alvo nas unidades de saúde espalhadas pelo País, chegou-se a apenas 38% quando o previsto era 90%. Uma lástima.

A influenza, infecção respiratória viral de elevada transmissibilidade, é responsável por impacto expressivo no índice de mortalidade da população, especialmente entre aqueles pertencentes aos grupos mais vulneráveis.

A doença é causada pelos vírus influenza dos tipos A, B, C e D, sendo os vírus dos tipos A e B os principais responsáveis por epidemias sazonais em seres humanos. O vírus influenza A, em particular, apresenta maior relevância em saúde pública por estar associado à ocorrência de pandemias, como a registrada em 2009, causada pelo vírus influenza A (H1N1).

A verdade é que continuamos pagando, no Brasil, o alto preço da penetração aqui de um movimento anti-vacina global que, até então, era barrado em nosso território por uma atitude cultural da população. Havia, até que tivemos a crise sanitária de cinco anos atrás, uma fé quase inabalável do brasileiro na capacidade que têm os imunizantes de estabelecer a proteção necessária diante de males para os quais a ciência desenvolvera antídotos eficazes.

Assim vencemos, por exemplo, a paralisia infantil e, não por coincidência, aponta-se como muito alto hoje o risco de a doença reaparecer depois que os negativistas passaram a encontrar espaço no País para o avanço de suas teses danosas.

As autoridades precisam entender, após tantos resultados abaixo do esperado nas campanhas anuais de vacinação, que há uma realidade nova e mais desafiadora a exigir que a estratégia mude. Uma parcela de brasileiros e brasileiras coloca em dúvida a eficácia dos imunizantes e é preciso reconquistar a confiança perdida, o que justifica o fato, por exemplo, de última Campanha, encerrada dia 31 de maio último, ter apresentado um balanço final muito distante daquele que se esperava. O Ceará até registrou índice sutilmente maior do que a média do País, chegando-se a 40% dos idosos previstos, muito embor em ambos os casos o resultado tenha ficado muito longe do que era esperado.

É um quadro complexo, que precisa passar pelas escolas, exige envolvimento das famílias, clama por uma atitude mais afirmativa da comunidade de saúde, enfim, que pede atitude e urgência. Dos governantes em primeiro lugar, mas da sociedade, fundamentalmente, fazendo frente a uma situação na qual a ciência cede espaço a teses fundamentalistas e que têm avançado entre nós ao custo de vidas que poderiam ser poupadas. Urge uma mudança. 

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