terça-feira, 2 de junho de 2026

Os limites da reação do México aos EUA e as lições para o Brasil, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Discurso soberanista de Claudia Sheinbaum é movido pela política doméstica, assim como o de Lula

“O México não é saco de pancadas de ninguém”. Ao comemorar os dois anos de sua eleição, neste domingo, Claudia Scheinbaum deixou sua decantada moderação de lado e partiu pra cima dos EUA no seu discurso mais duro desde a posse. “Será que estamos vendo como setores da ultradireita americana usam nosso país para se posicionar em suas eleições de 2026? Ou acaso pretendem influir nas eleições de 2027 em nosso país?”, indagou. “Quando se normaliza a ideia de que outro país pode intervir em assuntos que só dizem respeito aos mexicanos, já não estamos falando de cooperação, mas de ingerência”.

Foi a maior subida de tom de Claudia Sheinbaum, em discurso neste domingo (31) desde a designação dos cartéis de drogas no país como terroristas em fevereiro de 2025. A presidente mexicana que, na ocasião, comemorou os dois anos de sua eleição, descreveu a infiltração de agentes da CIA, em conjunto com dois policiais locais, numa operação, em 19 de abril, num laboratório de refino no Estado de Chihuahua. A operação foi descoberta porque os agentes morreram em acidente de carro.

A operação da CIA desencadeou uma investigação interna sobre a violação da Constituição mexicana. Em represália, o governo americano pediu a extradição do governador de Sinaloa, do Morena, partido de Sheinbaum.

Rubén Moya, o governador cuja cabeça foi pedida por Trump, se afastou do cargo para responder às acusações, mas a queda de braço levou a presidente a articular uma emenda constitucional que permite à corte eleitoral invalidar resultados que se provem influenciados por forças estrangeiras. Na sexta, 29, o Senado aprovou esta emenda, oferecendo uma plataforma para o discurso de Sheinbaum.

Da infiltração dos cartéis no país à dependência da economia americana, tudo distingue o México do Brasil. A reação do México aos desdobramentos da designação dos cartéis como terroristas, porém, feita mais de um ano antes daquela atribuída ao PCC e ao CV, se transformou num laboratório de refino das estratégias para o continente.

Apesar de ter sido eleita com o discurso de desmilitarização, Sheinbaum fez concessões neste terreno para manter os espaços do país nos acordos comerciais com os EUA, a começar pelo tarifaço, quando enviou as tropas pedidas por Trump à fronteira.

A “mexicanização” do Brasil é um alerta de anos, mas, ainda que o PCC e o CV tenham começado a se infiltrar nas instituições e na economia formal, este processo ocorre no México desde o século passado e evoluiu para atentados contra juízes, promotores, policiais, parlamentares e jornalistas. É pelo México que, de fato, entra a maior parte da droga dos EUA. Aquela que cruza o Brasil se destina à Europa, o que não impediu Trump de se valer da mesma régua.

O combate às drogas foi militarizado no México em 2006 sob Felipe Calderón (PAN), que se valeu de larga ajuda americana. Os cartéis se fragmentaram em gangues ainda mais violentas. As mortes escalaram e, com seu sucessor, Enrique Peña Nieto (PRI), bateram recorde.

A posse de Lopez Obrador, do Morena, gerou mais tensões em decorrência de investigações sobre os desaparecidos da guerra ao tráfico. Sua correligionária Sheinbaum tem focado em operações de inteligência, cobrando, assim como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a colaboração dos EUA no controle da exportação de armas e no fornecimento de dados sobre a lavagem de dinheiro.

Ao contrário de Lula, Sheinbaum tem aliados na maioria (24) dos 32 Estados. Foi um dos governados pela oposição, Chihuahua, hoje nas mãos do PAN, que fez o acordo com os EUA para infiltrar os agentes da CIA no laboratório de refino. Operações conjuntas com governos estrangeiros são vedadas no México assim como no Brasil mas a filiação oposicionista de mais da metade dos governadores deixa Lula mais isolado na federação. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e os pré-candidatos à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) apoiaram o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na designação do PCC e do CV como terroristas.

Marcela Franzoni, professora do Ibmec e estudiosa do México, atribui à dependência daquele país da economia americana a abordagem no combate ao narcotráfico. Trump 1 revisou o Nafta, acordo entre México, Canada e EUA, em 2020, sob Obrador. Nesta revisão, resume, setores foram incorporados, mas criaram-se mais empecilhos à China. Aquele acordo previa uma revisão em seis anos, que se dará até o fim de 2026. Por isso, diz, Trump 2 confunde as agendas e coloca tudo no mesmo bolo para pressionar o governo mexicano. O discurso da soberania, portanto, vai até onde a revisão do acordo comercial permitir.

O Brasil tem uma dependência muito menor dos EUA e que ainda levou um tombo em 2025 por conta do tarifaço. Há, no entanto, uma litigância aberta na chamada Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. Se as eleições legislativas de 2027 levaram à radicalização soberanista de Sheinbaum, a campanha de Lula pela reeleição é um imperativo ainda mais premente.

Na sexta, 29, em seu primeiro discurso depois do carimbo de terrorismo, Lula atacou mais Flávio Bolsonaro do que Trump. A julgar pela agenda de seus principais colaboradores de política externa, o chanceler Mauro Vieira e o assessor especial Celso Amorim, o tema, por enquanto, está circunscrito às prioridades domésticas. Naquele dia, Amorim estava em Moscou e Vieira embarcou para a China.

 

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