quinta-feira, 18 de junho de 2026

Para Trump, tanto faz, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Falta ao Brasil uma estratégia para lidar com a doutrina Donroe

Cada um a seu modo, os Bolsonaros e Lula acham que serão ajudados por Trump nas próximas eleições. Só Trump salva, parece acreditar uma parte substancial da oposição. Só Lula nos salva de Trump, segundo o marketing político do Planalto.

Ocorre que, para Trump, tanto faz. Ele confunde os Bolsonaros entre si e as respectivas situações individuais, como demonstrou à margem do encontro do G-7. E deseja a Lula “bom trabalho”, naquele país “complicado politicamente e perigoso”, e que “joga duro”.

“Mas ninguém joga tão duro quanto os Estados Unidos”, prosseguiu Trump na mesma frase. Aí está a essência do problema para os Bolsonaros, para Lula ou para qualquer um que assuma a Presidência no ano que vem. Cada um a seu modo, os Bolsonaros ou Lula não possuem estratégias para lidar com a doutrina Donroe.

Ela foi declarada com toda brutalidade nos postulados de segurança nacionais americanos. Pelos quais, para resumir, o Hemisfério Ocidental é “deles” – e de mais ninguém, não importa o que sintam ou pensem os habitantes e os governos dos países nessa enorme área do mundo. E o instrumento para garantir isso é o da coerção econômica, financeira, tecnológica e militar.

Há uma notável discussão lá fora sobre o papel das “potências médias” (categoria na qual se inclui o Brasil) num quadro de acirrada competição entre China e Estados Unidos, no qual o emprego dos vários instrumentos de coerção por parte dos americanos até aqui não parece estar funcionando como se esperava, mas esse é outro capítulo.

Assume-se que potências tão diferentes entre si, como Índia, Arábia Saudita, Brasil, África do Sul ou Indonésia, para citar apenas algumas, não seriam necessariamente obrigadas a uma “opção binária” no caso do duelo dos gigantes. De fato, assume-se também que, em ocasiões desse tipo, como a atual dissolução da ordem internacional, os “neutros” têm mais a ganhar do que a perder.

Especialmente se possuem algo a oferecer nesse novo/velho campo da geopolítica das commodities (e o Brasil tem muito). Mas, esquecendo por um instante o fato de que nas relações internacionais geografia é destino, potencialidades não se realizam por si mesmas.

Dependem de inteligência estratégica e um mínimo de coesão interna para realizar a condição de potência “média”, “neutra” e “rica em recursos” num perigoso cenário de volatilidade e imprevisibilidade. Talvez seja esse o grande dilema brasileiro: pensar o que queremos ser no mundo, um tipo de dedicação abandonada há décadas.

 

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