O Estado de S. Paulo
Falta ao Brasil uma estratégia para lidar com a doutrina Donroe
Cada um a seu modo, os Bolsonaros e Lula
acham que serão ajudados por Trump nas próximas eleições. Só Trump salva,
parece acreditar uma parte substancial da oposição. Só Lula nos salva de Trump,
segundo o marketing político do Planalto.
Ocorre que, para Trump, tanto faz. Ele confunde os Bolsonaros entre si e as respectivas situações individuais, como demonstrou à margem do encontro do G-7. E deseja a Lula “bom trabalho”, naquele país “complicado politicamente e perigoso”, e que “joga duro”.
“Mas ninguém joga tão duro quanto os Estados
Unidos”, prosseguiu Trump na mesma frase. Aí está a essência do problema para
os Bolsonaros, para Lula ou para qualquer um que assuma a Presidência no ano
que vem. Cada um a seu modo, os Bolsonaros ou Lula não possuem estratégias para
lidar com a doutrina Donroe.
Ela foi declarada com toda brutalidade nos
postulados de segurança nacionais americanos. Pelos quais, para resumir, o
Hemisfério Ocidental é “deles” – e de mais ninguém, não importa o que sintam ou
pensem os habitantes e os governos dos países nessa enorme área do mundo. E o
instrumento para garantir isso é o da coerção econômica, financeira,
tecnológica e militar.
Há uma notável discussão lá fora sobre o
papel das “potências médias” (categoria na qual se inclui o Brasil) num quadro
de acirrada competição entre China e Estados Unidos, no qual o emprego dos
vários instrumentos de coerção por parte dos americanos até aqui não parece
estar funcionando como se esperava, mas esse é outro capítulo.
Assume-se que potências tão diferentes entre
si, como Índia, Arábia Saudita, Brasil, África do Sul ou Indonésia, para citar
apenas algumas, não seriam necessariamente obrigadas a uma “opção binária” no
caso do duelo dos gigantes. De fato, assume-se também que, em ocasiões desse
tipo, como a atual dissolução da ordem internacional, os “neutros” têm mais a
ganhar do que a perder.
Especialmente se possuem algo a oferecer
nesse novo/velho campo da geopolítica das commodities (e o Brasil tem muito).
Mas, esquecendo por um instante o fato de que nas relações internacionais
geografia é destino, potencialidades não se realizam por si mesmas.
Dependem de inteligência estratégica e um
mínimo de coesão interna para realizar a condição de potência “média”, “neutra”
e “rica em recursos” num perigoso cenário de volatilidade e imprevisibilidade.
Talvez seja esse o grande dilema brasileiro: pensar o que queremos ser no mundo,
um tipo de dedicação abandonada há décadas.

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