sábado, 18 de julho de 2026

A eleição sem mulheres, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Os partidos seguem tratando a representação feminina como ativo simbólico, sem transformá-la em critério para distribuir o poder

Após uma semana de negociações aceleradas, as chapas da oposição e situação começam a tomar forma no Ceará. O campo governista anunciou uma composição que deve assegurar a tentativa de reeleição de Elmano de Freitas. Para o senado, o nome de Cid Gomes foi confirmado, garantindo-se a primeira suplência para Júnior Mano.

A solução, chancelada por uma foto do presidente Lula com as principais lideranças envolvidas, parece acomodar os interesses de Freitas, Santana e Cid Gomes no estado, evitando-se uma ruptura que poderia comprometer as chances de reeleição petista. PT, PSB e MDB devem caminhar juntos e oferecer um grande desafio ao PL e PSDB.

Pela oposição, Ciro Gomes se consolida como o pré-candidato ao governo, com chances de ter Roberto Cláudio ao seu lado como vice. Capitão Wagner e Alcides Fernandes devem integrar as vagas para o Senado Federal, sedimentando uma derrota para Priscila Costa e Michelle Bolsonaro no estado.

Poderíamos analisar as fotos das duas chapas sob várias perspectivas, mas me concentrarei em uma delas: onde estão as mulheres? É bastante paradigmático que tenhamos mais uma eleição majoritária em que a representatividade feminina é inexistente ou pouco viável eleitoralmente. Essa ausência não deve ser interpretada pelos leitores como um acaso, ela é o reflexo de uma estrutura partidária e política bastante hostil ao fortalecimento de lideranças femininas mais jovens que possam renovar os quadros e garantir mais equilíbrio de gênero nas candidaturas para os tão fundamentais cargos do Poder Executivo.

Seria natural esperarmos essa sub-representação entre os conservadores, mas o campo progressista não tem oferecido exemplo diferente. O esvaziamento do protagonismo feminino foi observado em diversos estados, especialmente no Ceará, no Rio Grande do Norte e no Pernambuco, com candidatas competitivas preteridas em lugar de figuras mais tradicionais.

Longe de representar um ano de renovação, 2026 será marcado como um ano de retorno (ou reforço) de uma política dos caciques. Nela, partidos optam por ceder espaço a lideranças masculinas mais consolidadas, ainda que haja uma percepção muito clara da necessidade de convencer as mulheres eleitoras para que se garanta o sucesso de qualquer candidatura. As mulheres se tornaram fundamentais para conferir legitimidade ao discurso, mas raramente aparecem como o nome em torno do qual o poder efetivamente se organiza.

Os partidos seguem tratando a representação feminina como ativo simbólico, sem transformá-la em critério para distribuir o poder. As mulheres dispõem, contudo, de um instrumento poderoso para mudar essa realidade: o seu voto e a cobrança por maior coerência entre discurso partidário e a prática.

*Doutora em Direito (USP), professora da Universidade Federal do Ceará.

 

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