sexta-feira, 24 de julho de 2026

Autofagia eleitoral bolsonarista, por Flávia Barbosa*

O Globo

O Master feriu de morte a premissa de Jair ao escolher Flávio. Colou o clã a um gigantesco caso de corrupção, decepcionou parte da base e repeliu aliados

Sete meses após ser ungido pelo pai candidato à Presidência, e três meses após aparecer na liderança da corrida ao Planalto, o senador Flávio Bolsonaro desidrata. Uma sucessão de crises, iniciada em 13 de maio com a descoberta da multimilionária contribuição de Daniel Vorcaro à cinebiografia de Jair, somada a erros de estratégia política, vem transformando o Zero Um numa opção tóxica às vésperas da convenção que o confirmará candidato do PL. Hoje, cabe a pergunta: a quem interessa sua vitória em outubro?

Flávio foi escolhido por Jair Bolsonaro com a lógica do patriarca. Ao carregar o sobrenome do clã, atrairia automaticamente os votos do pai, um espólio robusto o suficiente para inviabilizar outra opção na direita. Vencendo, o ex-presidente alcançaria a anistia; derrotado por pouco, preservaria capital político e mobilização.

Com os resultados das pesquisas até maio, a direita teve de engolir o candidato. Mas o escândalo do Master feriu de morte a premissa de Jair. Colou o clã a um gigantesco caso de corrupção, decepcionou parte da base bolsonarista e repeliu aliados, conservadores e indecisos.

A incapacidade de Flávio de explicar o uso do dinheiro de Vorcaro (já são 70 dias de silêncio) e de esclarecer a extensão de sua relação com o Master (à sombra do vídeo comprometedor somam-se notas fiscais de seu escritório para empresas da teia fraudulenta) apenas reforçou a percepção de que a canoa da candidatura está furada. O horizonte deslocou-se, assim, de 2026 para 2030.

A primeira a vestir o salva-vidas foi a madrasta. Escanteada e atacada, Michelle decidiu mostrar que não é um apêndice da família. Considera que construiu capilaridade e lealdades políticas na presidência do PL Mulher, influencia mulheres e jovens evangélicos e se tornou uma marca valiosa. Eleita senadora, imagina-se competitiva para liderar uma chapa em quatro anos ou ocupar uma vice. O apelo por reconciliação de Flávio pode trazê-la de volta ao barco. Mas esperar que reme com força parece improvável.

Tarcísio trocou a gratidão pelo projeto pessoal. Bem avaliado pela população, pelo mercado e pela direita, tem mais quatro anos no Bandeirantes praticamente assegurados, tempo suficiente para costurar uma candidatura presidencial em 2030. Não há vantagem em permanecer atrelado ao bolsonarismo. Ao contrário, a fragilidade de Flávio virou um ativo.

Os demais presidenciáveis iniciaram a jornada convencidos do alto custo de romper com o bolsonarismo. O caos da candidatura de Flávio mostrou o contrário. As chances de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos passam por jogar o senador aos leões, como já fazem. O eleitorado de direita não bolsonarista deu a senha: a intenção de voto no Zero Um caiu 13 pontos entre maio e julho, segundo a Quaest. É um eleitor que rejeita Lula e busca outra oposição.

No Centrão, tornou-se mais seguro que PP, União Brasil e Republicanos façam o que sabem: ampliar suas bancadas no Congresso. Neutros na disputa nacional, podem afagar Lula onde ele é forte, enaltecer Jair onde ainda rende votos e assumir a terceira via onde convier. Assim, aumentam as chances de preservar fundos partidários robustos e poder de negociação com qualquer futuro presidente.

Para o PIB, o desembarque de aliados e a radicalização do discurso, com ataques às urnas e alinhamento automático aos Estados Unidos, aumentaram a percepção de risco em torno de Flávio. A Faria Lima já não lhe atribui liderança para implementar os ajustes econômicos que promete. O setor produtivo se espantou com a facilidade com que o clã sacrificou interesses brasileiros no tarifaço e no pedido de socorro a Trump. No poder, que concessões estaria disposto a fazer?

Flávio Bolsonaro chega à campanha isolado. Antes promessa de domínio sobre a direita, vai transformando o eldorado presidencial numa profecia às avessas: do clã vieste, ao clã voltarás.

*Flávia Barbosa é editora executiva do GLOBO

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