O Globo
O Master feriu de morte a premissa de Jair ao
escolher Flávio. Colou o clã a um gigantesco caso de corrupção, decepcionou
parte da base e repeliu aliados
Sete meses após ser ungido pelo pai candidato à Presidência, e três meses após aparecer na liderança da corrida ao Planalto, o senador Flávio Bolsonaro desidrata. Uma sucessão de crises, iniciada em 13 de maio com a descoberta da multimilionária contribuição de Daniel Vorcaro à cinebiografia de Jair, somada a erros de estratégia política, vem transformando o Zero Um numa opção tóxica às vésperas da convenção que o confirmará candidato do PL. Hoje, cabe a pergunta: a quem interessa sua vitória em outubro?
Flávio foi escolhido por Jair
Bolsonaro com a lógica do patriarca. Ao carregar o sobrenome do clã,
atrairia automaticamente os votos do pai, um espólio robusto o suficiente para
inviabilizar outra opção na direita. Vencendo, o ex-presidente alcançaria a anistia;
derrotado por pouco, preservaria capital político e mobilização.
Com os resultados das pesquisas até maio, a
direita teve de engolir o candidato. Mas o escândalo do Master feriu de morte a
premissa de Jair. Colou o clã a um gigantesco caso de corrupção, decepcionou
parte da base bolsonarista e repeliu aliados, conservadores e indecisos.
A incapacidade de Flávio de explicar o uso do
dinheiro de Vorcaro (já são 70 dias de silêncio) e de esclarecer a extensão de
sua relação com o Master (à sombra do vídeo comprometedor somam-se notas
fiscais de seu escritório para empresas da teia fraudulenta) apenas reforçou a
percepção de que a canoa da candidatura está furada. O horizonte deslocou-se,
assim, de 2026 para 2030.
A primeira a vestir o salva-vidas foi a madrasta.
Escanteada e atacada, Michelle decidiu mostrar que não é um apêndice da
família. Considera que construiu capilaridade e lealdades políticas na
presidência do PL Mulher, influencia mulheres e jovens evangélicos e se tornou
uma marca valiosa. Eleita senadora, imagina-se competitiva para liderar uma
chapa em quatro anos ou ocupar uma vice. O apelo por reconciliação de Flávio
pode trazê-la de volta ao barco. Mas esperar que reme com força parece
improvável.
Tarcísio trocou a gratidão pelo projeto
pessoal. Bem avaliado pela população, pelo mercado e pela direita, tem mais
quatro anos no Bandeirantes praticamente assegurados, tempo suficiente para
costurar uma candidatura presidencial em 2030. Não há vantagem em permanecer
atrelado ao bolsonarismo. Ao contrário, a fragilidade de Flávio virou um ativo.
Os demais presidenciáveis iniciaram a jornada
convencidos do alto custo de romper com o bolsonarismo. O caos da candidatura
de Flávio mostrou o contrário. As chances de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan
Santos passam por jogar o senador aos leões, como já fazem. O eleitorado de
direita não bolsonarista deu a senha: a intenção de voto no Zero Um caiu 13
pontos entre maio e julho, segundo a Quaest. É um eleitor que rejeita Lula e
busca outra oposição.
No Centrão, tornou-se mais seguro que PP,
União Brasil e Republicanos façam o que sabem: ampliar suas bancadas no
Congresso. Neutros na disputa nacional, podem afagar Lula onde ele é forte,
enaltecer Jair onde ainda rende votos e assumir a terceira via onde convier. Assim,
aumentam as chances de preservar fundos partidários robustos e poder de
negociação com qualquer futuro presidente.
Para o PIB, o desembarque
de aliados e a radicalização do discurso, com ataques às urnas e alinhamento
automático aos Estados Unidos,
aumentaram a percepção de risco em torno de Flávio. A Faria Lima já não lhe
atribui liderança para implementar os ajustes econômicos que promete. O setor
produtivo se espantou com a facilidade com que o clã sacrificou interesses
brasileiros no tarifaço e no pedido de socorro a Trump. No poder, que
concessões estaria disposto a fazer?
Flávio Bolsonaro chega à campanha isolado.
Antes promessa de domínio sobre a direita, vai transformando o eldorado
presidencial numa profecia às avessas: do clã vieste, ao clã voltarás.
*Flávia Barbosa é editora executiva do GLOBO

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