terça-feira, 28 de julho de 2026

Encantamento pertinaz, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

A despeito de críticas, denúncias e condenações envolvendo seus integrantes, o bolsonarismo ainda encanta milhões

Há um descolamento entre as pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República e o esboroamento moral de uma candidatura. Trata-se, no caso, da do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), aclamado como candidato de seu partido em convenção nacional realizada no fim de semana passado. A revelação de fatos comprometedores que o envolvem não afetou seu potencial eleitoral.

Desde que, há cerca de um ano, seu nome começou a ser apontado como o mais forte da extrema direita para concorrer à Presidência, Flávio Bolsonaro registrava entre 36% e 38% das intenções de voto. Isso ocorreu entre junho e dezembro de 2025, segundo o Datafolha.

No fim do ano passado, o ex-presidente Jair Bolsonaro anunciou que, “diante desse cenário de injustiça e com o compromisso de não permitir que a vontade popular seja silenciada”, tomara a decisão de escolher seu filho Flávio como pré-candidato à Presidência em 2026. A pré-candidatura ganhou impulso. A intenção de voto em Flávio deu um salto de sete pontos entre o início de dezembro de 2025 e o início de março deste ano, passando de 36% para 43%. A de seu principal adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, despencou (de 51% para 46%).

Era o sinal de que, em algum tempo, Flávio passaria Lula. Foi o que aconteceu, pelo menos numericamente, na pesquisa de 9 de abril, quando a candidatura de Flávio alcançou 46% e a de Lula baixou para 45%. Na pesquisa seguinte, divulgada em 13 de maio, ambos estavam numericamente empatados, em 45%.

Na tarde daquele dia, o site The Intercept Brasil publicou reportagem detalhando o conteúdo de um diálogo entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, no qual o senador pede R$ 134 milhões para o financiamento de um filme sobre seu pai. Até então, Flávio dissera não ter tido nenhum contato com Vorcaro, atualmente preso por sua atuação nos escândalos financeiros que levaram à liquidação do Banco Master.

Na mensagem, Flávio chama Vorcaro de “irmão” e é tratado por “irmãozão”. Vorcaro foi preso quando tentava fugir do País, um dia depois dessa conversa com Flávio.

O impacto eleitoral do escândalo foi imediato. Uma semana depois de divulgados esses fatos, a candidatura de Flávio Bolsonaro era apoiada por 43% dos pesquisados pelo Datafolha (queda de dois pontos), enquanto a preferência por Lula subiu para 47% (alta de dois pontos). Parecia o início de uma nova tendência, que ampliaria a distância entre os dois candidatos.

Fatos, declarações, atos e gestos de Flávio Bolsonaro e de pessoas de seu entorno político e familiar ocorridos ou divulgados depois de conhecido o teor da conversa com Daniel Vorcaro pareciam tornar ainda mais frágeis as pretensões eleitorais do filho do expresidente.

O dinheiro de Vorcaro para o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro virou caso de polícia. Na semana passada, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça (indicado por Bolsonaro, o personagem do filme) determinou a abertura de inquérito para apurar o repasse de R$ 64 milhões de Vorcaro para Flávio. “É gravíssimo o fato de um investigado pela Polícia Federal concorrer à Presidência da República”, afirmou editorial do Estadão de sábado (Flávio deve explicações ao País, 25/7, A3).

Há outros casos. Faltam explicações para a emissão de notas fiscais pelo escritório de advocacia do senador por serviços que teriam sido prestados a empresas ligadas ao Banco Master. A divulgação da foto de Flávio ao lado de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, mostrou sua intimidade com o responsável pelas operações sujas de Vorcaro. Os desentendimentos entre Flávio e Michelle, esposa de seu pai, mostram dificuldades dentro da extrema direita. E esforços de Flávio junto ao presidente norte-americano Donald Trump para prejudicar o Brasil deveriam ser fonte de indignação dos cidadãos brasileiros. Isso sem falar do relacionamento do candidato com integrantes das milícias cariocas.

Com razão, a Coluna do Estadão registrou, no sábado, que Flávio chegou à convenção nacional de seu partido com “alguns fantasmas a tiracolo”, como desconfianças de correligionários, desavenças familiares e “uma précampanha amorfa”. A presença do presidente argentino Javier Milei deu certa dimensão internacional ao evento. Mas a campanha de Flávio Bolsonaro patina. Nem a chapa foi constituída (não se sabe quem concorrerá à vice-presidência) e partidos que poderiam apoiá-lo dele se distanciaram por prudência.

Com todos esses fatos, torna-se instigante a resistência da preferência eleitoral por Flávio Bolsonaro. No Datafolha divulgado na sexta-feira, ele manteve os 43% das intenções de voto que tem desde maio (Lula oscilou para 48%). Tal resistência não se deve ao que ele fez ou deixou de fazer, em seus mandatos, pois disso pouco se sabe. É sinal de que, a despeito de críticas, denúncias e condenações envolvendo seus integrantes, o bolsonarismo ainda encanta milhões.

 

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