O Estado de S. Paulo
A despeito de críticas, denúncias e condenações envolvendo seus integrantes, o bolsonarismo ainda encanta milhões
Há um descolamento entre as pesquisas de intenção
de voto para a Presidência da República e o esboroamento moral de uma
candidatura. Trata-se, no caso, da do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ),
aclamado como candidato de seu partido em convenção nacional realizada no fim
de semana passado. A revelação de fatos comprometedores que o envolvem não
afetou seu potencial eleitoral.
Desde que, há cerca de um ano, seu nome começou a ser apontado como o mais forte da extrema direita para concorrer à Presidência, Flávio Bolsonaro registrava entre 36% e 38% das intenções de voto. Isso ocorreu entre junho e dezembro de 2025, segundo o Datafolha.
No fim do ano passado, o ex-presidente Jair
Bolsonaro anunciou que, “diante desse cenário de injustiça e com o compromisso
de não permitir que a vontade popular seja silenciada”, tomara a decisão de
escolher seu filho Flávio como pré-candidato à Presidência em 2026. A
pré-candidatura ganhou impulso. A intenção de voto em Flávio deu um salto de
sete pontos entre o início de dezembro de 2025 e o início de março deste ano,
passando de 36% para 43%. A de seu principal adversário, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, despencou (de 51% para 46%).
Era o sinal de que, em algum tempo, Flávio
passaria Lula. Foi o que aconteceu, pelo menos numericamente, na pesquisa de 9
de abril, quando a candidatura de Flávio alcançou 46% e a de Lula baixou para
45%. Na pesquisa seguinte, divulgada em 13 de maio, ambos estavam numericamente
empatados, em 45%.
Na tarde daquele dia, o site The Intercept
Brasil publicou reportagem detalhando o conteúdo de um diálogo entre Flávio
Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, no
qual o senador pede R$ 134 milhões para o financiamento de um filme sobre seu
pai. Até então, Flávio dissera não ter tido nenhum contato com Vorcaro,
atualmente preso por sua atuação nos escândalos financeiros que levaram à
liquidação do Banco Master.
Na mensagem, Flávio chama Vorcaro de “irmão”
e é tratado por “irmãozão”. Vorcaro foi preso quando tentava fugir do País, um
dia depois dessa conversa com Flávio.
O impacto eleitoral do escândalo foi
imediato. Uma semana depois de divulgados esses fatos, a candidatura de Flávio
Bolsonaro era apoiada por 43% dos pesquisados pelo Datafolha (queda de dois
pontos), enquanto a preferência por Lula subiu para 47% (alta de dois pontos).
Parecia o início de uma nova tendência, que ampliaria a distância entre os dois
candidatos.
Fatos, declarações, atos e gestos de Flávio
Bolsonaro e de pessoas de seu entorno político e familiar ocorridos ou
divulgados depois de conhecido o teor da conversa com Daniel Vorcaro pareciam
tornar ainda mais frágeis as pretensões eleitorais do filho do expresidente.
O dinheiro de Vorcaro para o financiamento do
filme sobre Jair Bolsonaro virou caso de polícia. Na semana passada, o ministro
do Supremo Tribunal Federal André Mendonça (indicado por Bolsonaro, o
personagem do filme) determinou a abertura de inquérito para apurar o repasse
de R$ 64 milhões de Vorcaro para Flávio. “É gravíssimo o fato de um investigado
pela Polícia Federal concorrer à Presidência da República”, afirmou editorial
do Estadão de sábado (Flávio deve explicações ao País, 25/7, A3).
Há outros casos. Faltam explicações para a
emissão de notas fiscais pelo escritório de advocacia do senador por serviços
que teriam sido prestados a empresas ligadas ao Banco Master. A divulgação da
foto de Flávio ao lado de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido
como “Sicário”, mostrou sua intimidade com o responsável pelas operações sujas
de Vorcaro. Os desentendimentos entre Flávio e Michelle, esposa de seu pai,
mostram dificuldades dentro da extrema direita. E esforços de Flávio junto ao
presidente norte-americano Donald Trump para prejudicar o Brasil deveriam ser
fonte de indignação dos cidadãos brasileiros. Isso sem falar do relacionamento
do candidato com integrantes das milícias cariocas.
Com razão, a Coluna do Estadão registrou, no
sábado, que Flávio chegou à convenção nacional de seu partido com “alguns
fantasmas a tiracolo”, como desconfianças de correligionários, desavenças
familiares e “uma précampanha amorfa”. A presença do presidente argentino
Javier Milei deu certa dimensão internacional ao evento. Mas a campanha de
Flávio Bolsonaro patina. Nem a chapa foi constituída (não se sabe quem
concorrerá à vice-presidência) e partidos que poderiam apoiá-lo dele se
distanciaram por prudência.
Com todos esses fatos, torna-se instigante a
resistência da preferência eleitoral por Flávio Bolsonaro. No Datafolha
divulgado na sexta-feira, ele manteve os 43% das intenções de voto que tem
desde maio (Lula oscilou para 48%). Tal resistência não se deve ao que ele fez
ou deixou de fazer, em seus mandatos, pois disso pouco se sabe. É sinal de que,
a despeito de críticas, denúncias e condenações envolvendo seus integrantes, o
bolsonarismo ainda encanta milhões.

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