O Globo
Uma eleição em que os dois mais rejeitados
são os escolhidos continuará levando ao impasse, independentemente de quem
ganhar
É surpreendente que todos os esforços que a direita brasileira vem fazendo para perder a eleição presidencial não estejam dando certo. As desavenças familiares; as disputas pelo poder dentro do PL, maior partido do país, máquina de fazer dinheiro gerado por emendas parlamentares e fundos eleitorais; a dúvida entre mais radicalização ou uma aparente moderação — nada disso abala a posição do senador Flávio Bolsonaro, que lidera o voto da direita, que se une em torno dele num eventual segundo turno e o torna competitivo diante do presidente Lula.
A recente pesquisa do grupo Meio/Ideia
confirma algumas impressões: no segundo turno, a direita se une em torno de
Flávio, por isso ele fica quase em empate técnico com Lula. Apesar de todas as
confusões, se ele conseguir chegar até lá como candidato, a direita estará com
ele. Outra é que Lula bateu em um certo teto. Mantém-se a ideia de que será uma
eleição muito disputada, vencida como em 2022. Qualquer um dos lados pode
ganhar, reflexo da divisão do país, mais que da qualidade dos candidatos.
Esse é o grande problema do Brasil. Uma
eleição em que os dois mais rejeitados são os escolhidos continuará levando ao
impasse, independentemente de quem ganhar. Voltaremos a uma crise,
especialmente com o país dividido. Pode ganhar um presidente de esquerda, que
certamente terá um Congresso majoritariamente de direita a confrontá-lo. Se
ganhar o presidente de direita, corremos o perigo de termos um governo com
maioria no Congresso que pode reverter conquistas da democracia brasileira,
como já vimos anteriormente.
É uma escolha difícil para o eleitor que não
seja petista fervoroso ou bolsonarista raiz. Veremos o que pega mais: a
preservação da democracia ou os avanços e regressões que um lado ou outro
possam fazer. Mais uma vez, Lula tem um ponto de vantagem, pois, gostem ou não,
ele representa um lado da política que trabalha dentro dos limites
democráticos. Os parâmetros do PT podem ser criticáveis, podem ser
rigorosamente combatidos, mas foram democráticos até agora. Já jogaram fora das
quatro linhas, mas foram rejeitados pela sociedade.
Agora, o PT está dentro das regras. Quer ser
hegemônico para construir, por dentro das instituições democráticas, um sistema
autoritário de governo. Mas não saiu ainda das regras. Neste momento, temos de
colocar na discussão a questão da corrupção, que persegue Lula e o PT desde seu
primeiro governo, com o mensalão. Em 2018, Bolsonaro teve a vantagem de
apresentar-se como candidato contra a corrupção, contra um partido cujo
principal líder havia sido preso exatamente por essa razão. Enganou muita gente
a versão de que Bolsonaro era antissistema, e as escolhas de Paulo Guedes para
a economia e Sergio Moro para a Justiça e Segurança deram o ar de governo
liberal.
Não funcionou, assim como, no quadriênio
seguinte, não funcionou a promessa de governo de união nacional que elegeu
Lula, depois da tentativa de golpe de Estado. A direita não tem limites de
atuação, como demonstra Donald Trump nos Estados Unidos. Num mundo que caminha
claramente para a direita, em que os valores democráticos são cada vez mais
contestados, trocados por outros, imediatistas e individualistas, não deveria
ser surpresa para ninguém que esse campo político, apesar de todos os pesares,
e são muitos, continue competitivo.
O projeto inicial de Bolsonaro-pai — destruir
a construção social e política montada no país depois de vários anos de domínio
da social-democracia — deverá ser retomado. Com isso, perdemos tempo e dinheiro
com esse vaivém de tendências. Aquilo que, na democracia, é vantagem — a
alternância de poder — entre nós se transforma em disfunção social que impede o
desenvolvimento do país. Essa será a terceira eleição presidencial em seguida
em que não se discutem planos, discutem-se antipetismo (ou antilulismo) ou
antibolsonarismo. Direita e esquerda na sua mais rasa versão.

Verdade.
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