O Globo
O esfarelamento partidário de Flávio faz
desta a campanha dos sonhos de Lula
Flávio Bolsonaro foi para a convenção de seu
partido, o PL, e só dele. Uma tragédia: o Centrão declarou-se neutro, leia-se
aberto a um entendimento com outros candidatos, inclusive Lula. O bolsonarismo
dinástico levou a direita para as cordas. O que se apresenta como uma situação
de estabilidade de fato o é, mas o filme tende a terminar com Lula no Planalto
pela quarta vez. O esfarelamento partidário de Flávio faz desta a campanha dos
seus sonhos.
Em maio Lula havia ampliado de 3 para 9 pontos percentuais sua vantagem sobre Flávio (40% a 31%). O Datafolha de sexta-feira indica que a vantagem seria de 6 pontos (48% a 43%). Um empate técnico, com Lula a três pontos da maioria absoluta. Se não acontecer nada, Lula ganha a eleição. Em agosto de 1989, Lula patinava e um segundo turno entre Fernando Collor e Leonel Brizola era fava contada. Lula tomou o lugar de Brizola e foi derrotado.
Lula continua travado na barreira da
dissonância. Ele liderando a disputa, mas seu governo sendo mal avaliado por um
percentual maior do que o dos satisfeitos (38% de ruim ou péssimo contra 32% de
ótimo). Agora, a diferença entre os que aprovaram e desaprovam a gestão é de um
fio de cabelo (1%), mas é uma diferença. Além disso, 28% acham-no regular.
Afinal, no seu quarto ano o Lula 3.0 continua sem marca. Seu maior capital
continua sendo o repúdio ao bolsonarismo.
Refletindo a polarização, os dois candidatos
têm rejeições semelhantes. A briga com Michelle e os detalhes de suas
transações com Daniel Vorcaro tiveram pouco impacto na campanha de Flávio. Seu
patrimônio é o eleitorado que não vota em Lula de jeito nenhum. Se for o caso
votam num rinoceronte, mas Lula, não. Se Lula tivesse se metido nas encrencas
em que Flávio se meteu estaria fora da disputa.
A pergunta de 1 milhão de dólares é por que
Ronaldo Caiado e Romeu Zema patinam num só dígito. A campanha ainda não
começou, mas nenhum dos dois fixou uma marca. Caiado mostrou-se goiano demais e
Zema tem um jeito monótono de mestre-escola. Mesmo assim, ambos têm desempenhos
que justificariam pontuações mais robustas.
Temas para dar identidade a um candidato não
faltam, uma política de segurança sem chacinas, uma política externa menos
alegórica, um país mais normal. Um presidente que só promete o que poderá
entregar, mandando ao arquivo as peças de marquetagem do Programa de Aceleração
do Crescimento, que virou terreno baldio, onde se joga o que não se sabe onde
guardar.
Milei fez uma ursada
Vindo ao Brasil para apoiar Flávio Bolsonaro,
Javier Milei fez-lhe uma ursada. Se a Argentina tivesse ganhado a Copa, ele
seria um presidente libertário e campeão.
Derrotada e malcriada, a seleção argentina
tisna a imagem de Milei.
Para Flávio teria sido melhor se ele ficasse
em Buenos Aires.
Tereza Cristina
Aumentou o cerco sobre a senadora Tereza Cristina
para que ela entre na disputa pela Presidência.
Se dependesse da senadora, ela ficaria onde
está, disputando a sucessão de Davi Alcolumbre na presidência do Senado.
Estados Unidos
Em mais de dois séculos de relações
diplomáticas, Estados Unidos e Brasil passam por um novo tipo de encrenca. Pela
primeira vez, a espoleta da encrenca está na Casa Branca, com um braço no
Departamento de Estado.
Durante o Império três representantes
americanos criaram encrencas. Um foi-se embora, outro foi levado até a porta e
o terceiro chegou a ameaçar com a suspensão das relações. Os três foram
repreendidos por Washington.
Nos anos 70 do século passado, quando os
direitos humanos e um acordo nuclear assinado com a Alemanha colocaram os dois
países em rota de colisão, os presidentes Ernesto Geisel e Jimmy Carter, bem
como seus ministros, nunca se insultaram.
Quando Washington taxou produtos brasileiros,
Geisel limitou-se a recusar um convite para visitar os EUA.
Com Trump e Marco Rubio, palanque leva a
lugar nenhum.
Registro histórico
Trump, Rubio e os Bolsonaro avacalharam as
relações do Brasil com os Estados Unidos, transformando-a em assunto de
palanque. Coisa muito mais séria já aconteceu e ficou esquecida.
Em março de 1964 a política brasileira estava
polarizada, e o empresário Alberto Byington, sócio da mineradora americana
Alcoa, viajou para Washington. Foi aos seus contatos, inclusive na Central
Intelligence Agency (CIA). Seu pleito: a situação do país podia se agravar e os
sindicatos ameaçavam parar as refinarias — e o país precisava de gasolina.
No dia 20 de março a crise agravou-se e
reuniram-se o presidente Lyndon Johnson, o secretário de Estado, Dean Rusk, e o
diretor da CIA, John McCone, e o embaixador no Brasil, Lincoln Gordon. Eles
decidiram mandar uma frota para o litoral brasileiro, se fosse o caso. McCone
mencionou o pleito de Byington e resolveram acrescentar petroleiros à frota.
Um pedido semelhante foi encaminhado pelo
marechal Cordeiro de Farias, mas não deixou rastro.
No final da tarde do dia 30 o embaixador
americano Lincoln Gordon pediu que se checassem os petroleiros. Na noite de 31
de março quatro petroleiros comerciais que estavam no Atlântico foram desviados
de suas rotas para o litoral brasileiro com 553 mil barris de combustível.
(Equivalente a um dia de consumo.)
(Às 13h30 do dia 31 o general Paul Tibbets
Jr. centralizou todas as mensagens relacionadas com o Brasil. Na manhã de 6 de
agosto de 1945 ele pilotava o avião que jogou uma bomba atômica sobre
Hiroshima.)
A frota só poderia chegar ao litoral
brasileiro a partir do dia 7 de abril. Os petroleiros, depois do dia 13. Não
foi preciso, a frota foi desmobilizada entre os dias 2 e 3 de abril.
Alberto Byington foi candidato a deputado
pelo Rio em 1965, mas não se elegeu. Era sogro de Paulo Egydio Martins, eleito
indiretamente governador de São Paulo em 1975.
Eremildo reclama
Ente de honra do Sindicato dos Bandidos
Autônomos do Brasil, o idiota volta a reclamar diante da concorrência desleal
que sua categoria sofre.
Três coronéis da PM paulista foram citados em
relatórios do Ministério Público de São Paulo por manterem relações com grupos
suspeitos de movimentar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital. Um deles
comandou a PM do governador de São Paulo até abril passado, quando passou para
a reserva.
A trinca integrava um grupo de WhatsApp onde
as coisas eram chamadas pelo nome: buscavam “recursos financeiros para pagar a polícia.”
Eremildo argumenta que seus bandidos nada custam ao Erário, nem têm direito a aposentadoria ou assistência médica. A concorrência de agentes públicos encarece a bandidagem privada.

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