domingo, 26 de julho de 2026

Tempo contra Flavio, por Merval Pereira

O Globo

Ainda podem surgir fatos novos que inviabilizem a candidatura de Flavio, e essa insegurança política só terminará se ele conseguir chegar ao segundo turno

A pesquisa do DataFolha que deu uma vitória para o presidente Lula de cinco pontos percentuais sobre Flavio Bolsonaro no segundo turno, portanto fora da margem de erro, teve o dom de dar alento aos dois candidatos. Lula abriu vantagem mais folgada, mas Flavio, apesar de tantos escândalos e brigas domésticas, manteve a competitividade. A pesquisa não pegou a “reconciliação” entre a madrasta Michelle e o candidato do PL, o que pode indicar que Flavio pode melhorar sua posição se recuperar os votos das mulheres e evangélicos que perdeu ao confrontar Michelle.

Falava-se em desistência de Flavio diante das dificuldades, mas nada indica que outros candidatos da direita possam fazer frente a ele. O segundo turno, ao contrário, indica que os eleitores da direita se unirão em torno de seu nome, o que pode estreitar mais uma vez a diferença a favor de Lula. O fenômeno da “cristianização” do candidato bolsonarista, aventado no auge da sua crise de credibilidade, parece não estar se confirmando, e mesmo que assim fosse, teria um contexto completamente diferente hoje, que reduziria sua importância.

“Cristianização” refere-se ao candidato à presidência da República pelo PSD Cristiano Machado em 1950, que foi abandonado por seu partido, cujos principais líderes passaram a defender a candidatura de Getúlio Vargas, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que acabou vencendo a eleição. Naquela época, até muito recentemente, as vitórias do candidato a presidente guiavam a eleição, e havia sentido em abandonar um cavalo manco no meio da corrida, para se unir ao possível vencedor. Hoje, a situação é inversa, muito por causa do próprio Jair Bolsonaro, que delegou para o Centrão a administração do Orçamento através das emendas parlamentares.

A eleição para presidente perde para os interesses regionais dos partidos, cujo objetivo principal é eleger a maior bancada de deputados federais e senadores possível, pois assim controlam o orçamento, com as emendas partidárias, a maioria na Câmara e o Senado e os fundos eleitorais. A hipótese de Flavio Bolsonaro ser substituído como candidato do PL fica cada vez mais distante com os resultados das pesquisas, que confirmam sua capacidade de unir a direita no segundo turno.

Outro candidato não aparece para absorver esses votos que saíram de Flavio para ir para os “indecisos”. Se algum dos candidatos de direita - Caiado, Zema ou Renan - tivesse subido de cotação à medida que Flavio se envolvia em escândalos e suspeitas, haveria essa hipótese de abandono. Mas nem o PL de Valdemar Costa Neto, nem Jair Bolsonaro, cogitariam essa ideia. Os partidos do Centrão tampouco necessitam fazer esse contorcionismo para levar qualquer dos outros três ao segundo turno, nenhum deles é um candidato de confiança do grupo, exceção talvez feita a Caiado, mas que não mostra força própria para justificar a saída da neutralidade.

O tempo, porém, está contra Flavio Bolsonaro, ainda podem surgir fatos novos que inviabilizem sua candidatura, e essa insegurança política só terminará se ele conseguir chegar ao segundo turno. Dificilmente haverá debate político importante no primeiro turno, pois Lula já disse que provavelmente não participará de nenhum, e Flavio deve estar dando graça a Deus por essa desistência, que também o desobriga a comparecer. Pode ser que, sem Lula, ele se arvore a enfrentar os outros adversários da direita, para tentar ganhar os poucos votos que lhes roubam. Mas sua inexperiência no enfrentamento, marcada por um desmaio em um debate anterior, pode atrapalhá-lo, tendo efeito contrário.

A condução da campanha demonstra essa inexperiência. Agora mesmo, depois da torcida nacional contra a seleção argentina na Copa do Mundo, trazer para apoiá-lo o presidente Javier Milei parece um erro. Formalizado ontem candidato do PL à presidência da República, Flavio entra em nova etapa da campanha, para tentar recuperar os votos perdidos. Sem vice e sem aliados. O tempo dirá.

 

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