domingo, 26 de julho de 2026

Flávio Bolsonaro resiste nas cordas, por Elio Gaspari

O Globo

O esfarelamento partidário de Flávio faz desta a campanha dos sonhos de Lula

Flávio Bolsonaro foi para a convenção de seu partido, o PL, e só dele. Uma tragédia: o Centrão declarou-se neutro, leia-se aberto a um entendimento com outros candidatos, inclusive Lula. O bolsonarismo dinástico levou a direita para as cordas. O que se apresenta como uma situação de estabilidade de fato o é, mas o filme tende a terminar com Lula no Planalto pela quarta vez. O esfarelamento partidário de Flávio faz desta a campanha dos seus sonhos.

Em maio Lula havia ampliado de 3 para 9 pontos percentuais sua vantagem sobre Flávio (40% a 31%). O Datafolha de sexta-feira indica que a vantagem seria de 6 pontos (48% a 43%). Um empate técnico, com Lula a três pontos da maioria absoluta. Se não acontecer nada, Lula ganha a eleição. Em agosto de 1989, Lula patinava e um segundo turno entre Fernando Collor e Leonel Brizola era fava contada. Lula tomou o lugar de Brizola e foi derrotado.

Lula continua travado na barreira da dissonância. Ele liderando a disputa, mas seu governo sendo mal avaliado por um percentual maior do que o dos satisfeitos (38% de ruim ou péssimo contra 32% de ótimo). Agora, a diferença entre os que aprovaram e desaprovam a gestão é de um fio de cabelo (1%), mas é uma diferença. Além disso, 28% acham-no regular. Afinal, no seu quarto ano o Lula 3.0 continua sem marca. Seu maior capital continua sendo o repúdio ao bolsonarismo.

Refletindo a polarização, os dois candidatos têm rejeições semelhantes. A briga com Michelle e os detalhes de suas transações com Daniel Vorcaro tiveram pouco impacto na campanha de Flávio. Seu patrimônio é o eleitorado que não vota em Lula de jeito nenhum. Se for o caso votam num rinoceronte, mas Lula, não. Se Lula tivesse se metido nas encrencas em que Flávio se meteu estaria fora da disputa.

A pergunta de 1 milhão de dólares é por que Ronaldo Caiado e Romeu Zema patinam num só dígito. A campanha ainda não começou, mas nenhum dos dois fixou uma marca. Caiado mostrou-se goiano demais e Zema tem um jeito monótono de mestre-escola. Mesmo assim, ambos têm desempenhos que justificariam pontuações mais robustas.

Temas para dar identidade a um candidato não faltam, uma política de segurança sem chacinas, uma política externa menos alegórica, um país mais normal. Um presidente que só promete o que poderá entregar, mandando ao arquivo as peças de marquetagem do Programa de Aceleração do Crescimento, que virou terreno baldio, onde se joga o que não se sabe onde guardar.

Milei fez uma ursada

Vindo ao Brasil para apoiar Flávio Bolsonaro, Javier Milei fez-lhe uma ursada. Se a Argentina tivesse ganhado a Copa, ele seria um presidente libertário e campeão.

Derrotada e malcriada, a seleção argentina tisna a imagem de Milei.

Para Flávio teria sido melhor se ele ficasse em Buenos Aires.

Tereza Cristina

Aumentou o cerco sobre a senadora Tereza Cristina para que ela entre na disputa pela Presidência.

Se dependesse da senadora, ela ficaria onde está, disputando a sucessão de Davi Alcolumbre na presidência do Senado.

Estados Unidos

Em mais de dois séculos de relações diplomáticas, Estados Unidos e Brasil passam por um novo tipo de encrenca. Pela primeira vez, a espoleta da encrenca está na Casa Branca, com um braço no Departamento de Estado.

Durante o Império três representantes americanos criaram encrencas. Um foi-se embora, outro foi levado até a porta e o terceiro chegou a ameaçar com a suspensão das relações. Os três foram repreendidos por Washington.

Nos anos 70 do século passado, quando os direitos humanos e um acordo nuclear assinado com a Alemanha colocaram os dois países em rota de colisão, os presidentes Ernesto Geisel e Jimmy Carter, bem como seus ministros, nunca se insultaram.

Quando Washington taxou produtos brasileiros, Geisel limitou-se a recusar um convite para visitar os EUA.

Com Trump e Marco Rubio, palanque leva a lugar nenhum.

Registro histórico

Trump, Rubio e os Bolsonaro avacalharam as relações do Brasil com os Estados Unidos, transformando-a em assunto de palanque. Coisa muito mais séria já aconteceu e ficou esquecida.

Em março de 1964 a política brasileira estava polarizada, e o empresário Alberto Byington, sócio da mineradora americana Alcoa, viajou para Washington. Foi aos seus contatos, inclusive na Central Intelligence Agency (CIA). Seu pleito: a situação do país podia se agravar e os sindicatos ameaçavam parar as refinarias — e o país precisava de gasolina.

No dia 20 de março a crise agravou-se e reuniram-se o presidente Lyndon Johnson, o secretário de Estado, Dean Rusk, e o diretor da CIA, John McCone, e o embaixador no Brasil, Lincoln Gordon. Eles decidiram mandar uma frota para o litoral brasileiro, se fosse o caso. McCone mencionou o pleito de Byington e resolveram acrescentar petroleiros à frota.

Um pedido semelhante foi encaminhado pelo marechal Cordeiro de Farias, mas não deixou rastro.

No final da tarde do dia 30 o embaixador americano Lincoln Gordon pediu que se checassem os petroleiros. Na noite de 31 de março quatro petroleiros comerciais que estavam no Atlântico foram desviados de suas rotas para o litoral brasileiro com 553 mil barris de combustível. (Equivalente a um dia de consumo.)

(Às 13h30 do dia 31 o general Paul Tibbets Jr. centralizou todas as mensagens relacionadas com o Brasil. Na manhã de 6 de agosto de 1945 ele pilotava o avião que jogou uma bomba atômica sobre Hiroshima.)

A frota só poderia chegar ao litoral brasileiro a partir do dia 7 de abril. Os petroleiros, depois do dia 13. Não foi preciso, a frota foi desmobilizada entre os dias 2 e 3 de abril.

Alberto Byington foi candidato a deputado pelo Rio em 1965, mas não se elegeu. Era sogro de Paulo Egydio Martins, eleito indiretamente governador de São Paulo em 1975.

Eremildo reclama

Ente de honra do Sindicato dos Bandidos Autônomos do Brasil, o idiota volta a reclamar diante da concorrência desleal que sua categoria sofre.

Três coronéis da PM paulista foram citados em relatórios do Ministério Público de São Paulo por manterem relações com grupos suspeitos de movimentar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital. Um deles comandou a PM do governador de São Paulo até abril passado, quando passou para a reserva.

A trinca integrava um grupo de WhatsApp onde as coisas eram chamadas pelo nome: buscavam “recursos financeiros para pagar a polícia.”

Eremildo argumenta que seus bandidos nada custam ao Erário, nem têm direito a aposentadoria ou assistência médica. A concorrência de agentes públicos encarece a bandidagem privada.

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