sexta-feira, 10 de julho de 2026

Michelle insiste e avisa que é ‘imparável’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Ex-primeira-dama agora se coloca como líder de um movimento político amplo, e quer dialogar com homens e mulheres

Se o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é o autodeclarado “imbrochável”, com direito a distribuir medalhas com o título aos aliados, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro dobrou a aposta na rebeldia, e avisou que será “imparável”.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, declarou na quarta-feira (8) que em até 20 dias fincaria a bandeira branca no partido, reconciliando-a com o enteado, o presidenciável da sigla, senador Flávio Bolsonaro (RJ). Contudo, a ex-presidente do PL Mulher foi a público comunicar que tem outros planos. Para além de liderança feminina, ela agora se coloca como líder de um movimento político amplo, e quer dialogar com homens e mulheres.

Sem alarde, entrou no ar há poucos dias, nas redes sociais, o perfil “imparaveis.mb”, lançado por aliados da ex-primeira-dama e pela equipe que a acompanhava na presidência do PL Mulher. Salta aos olhos como a figura suave da mulher cristã e esposa dedicada, cultivada por todos esses anos, sai de cena para dar lugar à heroína da DC Comics, a “Mulher Maravilha”, na pele da atriz Gal Gadot.

Uma das primeiras publicações traz uma cena de ação do filme “Mulher Maravilha”, na qual a heroína surge em uma luta campal com sua mentora. Ela aprende a “nunca abaixar a guarda” porque terá de lutar por justiça: “Você acha que uma batalha será justa? Uma batalha nunca será justa”. No fim, sobe a legenda: “As batalhas nos fazem imparáveis”.

Michelle tem uma equipe afiada de comunicação digital, com integrantes que já trabalharam com o maior “influencer” político do país, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Por isso, ele chegou a ser acusado de auxiliar a ex-primeira-dama no vídeo explosivo, no qual ela diz que Flávio a destratou e a humilhou. Nikolas negou qualquer envolvimento com o vídeo.

O perfil ainda não correspondeu ao potencial de engajamento do nome de Michelle, mas faz barulho. A primeira postagem é embalada por “Twist and Shout”, dos Beatles. A conta oficial da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), aliada de Michelle, comentou: “Kkk tô aqui rindo e na expectativa”.

Um aviso no perfil do PL Mulher explica que com a desestruturação do gabinete da presidência, diante da saída de Michelle, outra equipe assumirá a conta. No entanto, afirma que “as sementes lançadas por Michelle” despertaram mulheres e homens para a atuação política, e dá o recado: “Michelle não vai parar. Vocês não vão parar. O Brasil não vai parar. Porque quando pessoas de bem se unem, elas se tornam imparáveis!”

A ex-primeira-dama é apresentada como líder dos “imparáveis”, disposta a enfrentar “mentiras” e a lutar por justiça. “Se quiser ser parte deste grupo e acompanhar as novidades do movimento capitaneado por Michelle”, o interessado deverá seguir o novo perfil, diz o comunicado.

A novidade contrariou Valdemar, Flávio e a cúpula de sua campanha. A iniciativa da ex-primeira-dama foi interpretada como um desafio dirigido a Valdemar, que deu entrevistas afirmando que até a convenção nacional da legenda, programada para 25 de julho, iria reaproximar Michelle e Flávio.

A rebelião de Michelle extrapolou, até mesmo, a fronteira do PL, tumultuando os arranjos para a eleição no Distrito Federal. A sinalização de que ela desistiria de concorrer ao Senado na chapa encabeçada pela governadora Celina Leão (PP), de quem é aliada, somada ao anúncio do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) de que também não disputará a vaga, agitou o tabuleiro local. A deputada Bia Kicis (PL) deve ficar com uma das vagas, enquanto o senador Izalci Lucas (PL) cogita abdicar da eleição para o governo, e buscar a reeleição. Michelle, entretanto, ainda pode se candidatar.

Nos bastidores, a posição de Jair Bolsonaro sobre o levante da esposa é desconhecida. Racionalmente, ele seria contrário ao movimento, porque ao prejudicar a campanha de Flávio, especialmente, junto ao voto feminino, as consequências recaem sobre ele, como alertou Valdemar: “São os filhos contra a mulher; [mas] eles têm que se entender, porque senão nós vamos perder a eleição, e ele vai ficar mais dez anos preso”.

O presidente do PL manifestou alta expectativa com eventual decisão do ministro Nunes Marques do Supremo Tribunal Federal (STF) na ação protocolada pela defesa de Bolsonaro em maio, que requer a anulação do julgamento da Primeira Turma que o condenou a mais de 27 anos de prisão. Valdemar sugeriu que uma decisão de Nunes Marques, mesmo monocrática, teria o condão de revogar a condenação e tornar Bolsonaro elegível, o que é um equívoco. Citou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para justificar o desejo: “Quando o Lula estava preso 580 dias, você imaginava que ele fosse candidato à Presidência? Tudo pode acontecer”.

Em meio à contagem regressiva para a convenção, o projeto “imparáveis” surge como uma incógnita, bem como os verdadeiros planos de Michelle. Pode ser a plataforma de lançamento do nome dela para a corrida presidencial de 2030, como herdeira do bolsonarismo, caso Flávio saia derrotado do embate com Lula em outubro. Essa hipótese, entretanto, não a impede de concorrer a uma vaga de senadora ainda neste ano, com alta probabilidade de vitória. As poucas centenas de seguidores do perfil se dividem entre louvar a iniciativa, e acusá-la de traição. Hora de conferir se além de boa de briga, a “Mulher Maravilha” é boa de voto.

 

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