Folha de S. Paulo
Primeiro ano de segundo mandato presidencial
rendeu a Trump US$ 2,2 bilhões
Conflitos de interesses se multiplicam e
erodem confiança em políticos e instituições
Tornar-se presidente dos EUA é um bom negócio. Donald Trump obteve uma renda de US$ 2,2 bilhões em 2025, seu primeiro ano de segundo mandato presidencial. A maior parte do próspero ano trumpiano, US$ 1,4 bilhão, vem de criptomoedas, um mercado em que ele atuou como investidor e regulador. Mesmo que não haja delito aí, é um caso de conflito de interesses.
Como observou Jason Horowitz, do New York
Times, são números que tiram Trump do círculo dos políticos ocidentais
financeiramente bem-sucedidos e o colocam na liga de na liga dos homens-fortes
da Rússia e da Turquia ou até dos cleptocratas africanos. Num aspecto, porém,
Trump permanece ocidental. Sabemos com precisão quanto ele faturou porque a
legislação de transparência pública dos EUA exige que ele preste contas.
Numa escala muito mais modesta, vemo-nos às
voltas com o mesmo problema no Brasil. Daniel
Vorcaro pôs em sua folha de pagamentos parlamentares,
ministros, ex-ministros e parentes de ministros. Difícil acreditar que tenha
sido só pelo prazer de presentear. Mesmo quem não fez nada para favorecer o
ex-banqueiro se meteu em conflitos de interesses. Lula teve suas condenações
anuladas, mas segue sendo um fato que ele aceitou, na condição de
eminência-parda do PT, com influência sobre o governo, mimos de empresários. É conflito
de interesses.
Será que nós deixamos de ligar para conflitos
de interesses? Nixon, vale lembrar, caiu porque pôs a máquina pública para
trabalhar por seus interesses privados.
Vivemos hoje num ambiente polarizado e
monitorado. Não há mais conversas secretas. Flagramos inúmeros casos de
conflito de interesses, atingindo gente de todas as alas do espectro político.
E, quando a acusação pega alguém de quem gostamos, não temos dificuldade em
descartá-la como intriga da oposição. Ainda que sejamos rápidos em reconhecer
os abusos dos adversários, o resultado agregado é a perda de confiança em
políticos e nas instituições. Meu palpite é que veremos cada vez mais casos que
nos tornarão cada vez mais cínicos.
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