sábado, 4 de julho de 2026

O melhor negócio do mundo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Primeiro ano de segundo mandato presidencial rendeu a Trump US$ 2,2 bilhões

Conflitos de interesses se multiplicam e erodem confiança em políticos e instituições

Tornar-se presidente dos EUA é um bom negócio. Donald Trump obteve uma renda de US$ 2,2 bilhões em 2025, seu primeiro ano de segundo mandato presidencial. A maior parte do próspero ano trumpiano, US$ 1,4 bilhão, vem de criptomoedas, um mercado em que ele atuou como investidor e regulador. Mesmo que não haja delito aí, é um caso de conflito de interesses.

Como observou Jason Horowitz, do New York Times, são números que tiram Trump do círculo dos políticos ocidentais financeiramente bem-sucedidos e o colocam na liga de na liga dos homens-fortes da Rússia e da Turquia ou até dos cleptocratas africanos. Num aspecto, porém, Trump permanece ocidental. Sabemos com precisão quanto ele faturou porque a legislação de transparência pública dos EUA exige que ele preste contas.

Numa escala muito mais modesta, vemo-nos às voltas com o mesmo problema no Brasil. Daniel Vorcaro pôs em sua folha de pagamentos parlamentares, ministros, ex-ministros e parentes de ministros. Difícil acreditar que tenha sido só pelo prazer de presentear. Mesmo quem não fez nada para favorecer o ex-banqueiro se meteu em conflitos de interesses. Lula teve suas condenações anuladas, mas segue sendo um fato que ele aceitou, na condição de eminência-parda do PT, com influência sobre o governo, mimos de empresários. É conflito de interesses.

Será que nós deixamos de ligar para conflitos de interesses? Nixon, vale lembrar, caiu porque pôs a máquina pública para trabalhar por seus interesses privados.

Vivemos hoje num ambiente polarizado e monitorado. Não há mais conversas secretas. Flagramos inúmeros casos de conflito de interesses, atingindo gente de todas as alas do espectro político. E, quando a acusação pega alguém de quem gostamos, não temos dificuldade em descartá-la como intriga da oposição. Ainda que sejamos rápidos em reconhecer os abusos dos adversários, o resultado agregado é a perda de confiança em políticos e nas instituições. Meu palpite é que veremos cada vez mais casos que nos tornarão cada vez mais cínicos.

 

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