quarta-feira, 15 de julho de 2026

O paradoxo do Caged, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Muitas empresas seguem com dificuldade para preencher vagas abertas

Quando os dados do Caged sobre a criação de postos de trabalho em maio vieram muito abaixo do consenso das estimativas dos analistas, houve quem dissesse que, finalmente, o mercado de trabalho estava esfriando, refletindo uma desaceleração da atividade econômica em linha com o cenário traçado pelo Banco Central. Mas será mesmo?

Só para lembrar: em maio, segundo o Caged, a economia brasileira registrou a abertura de 72.960 postos de trabalho, enquanto os analistas previam a criação líquida de 120 mil vagas. Foi o menor saldo para meses de maio desde 2020.

O que alguns economistas vêm defendendo é que, ao contrário do que possa parecer, o número mais baixo de vagas formais criadas é resultado de um mercado de trabalho ainda aquecido e de uma atividade econômica resiliente. Na avaliação deles, os últimos dados do Caged refletem uma restrição na oferta de mão de obra: empresas e indústrias brasileiras não estão contratando – e, portanto, deixam de criar vagas – porque há escassez de trabalhadores disponíveis. Tudo isso ocorre em um cenário de taxa básica de juros de 14,25% ao ano, de um lado, e de forte estímulo fiscal promovido pelo governo, de outro.

A taxa de desemprego, de 5,6% no trimestre encerrado em maio, segue próxima do menor nível da série histórica. Há, inclusive, menos desocupados no País hoje (5,9 milhões) do que em dezembro de 2014 (7,1 milhões), ao fim do primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff, apesar do crescimento da população nesse período. No fim do primeiro trimestre deste ano, apenas 0,6% da força de trabalho desocupada procurava emprego havia entre um e dois anos, enquanto 1% buscava uma vaga havia mais de dois anos. No auge da pandemia de covid-19, no segundo trimestre de 2021, 3,6% dos desempregados estavam nessa condição havia mais de dois anos.

Outro indício da escassez de mão de obra é o porcentual de desligamentos a pedido sobre o total de desligamentos. Em geral, quem pede demissão o faz porque encontrou uma oportunidade com remuneração maior ou porque acredita que conseguirá se recolocar com facilidade. Em maio, segundo o Caged, 36,1% dos desligamentos ocorreram por iniciativa do trabalhador. Em igual mês de 2025, esse porcentual foi de 35,9%. Em maio de 2021, era de 29,5%.

A massa de rendimento real do trabalho – resultado da combinação entre emprego e rendimento médio – acumulou crescimento de 6,1% nos últimos 12 meses. Não por acaso, ao menos nos níveis salariais que podem ou estão dispostas a oferecer, muitas empresas seguem com dificuldade para preencher vagas abertas.

 

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