Folha de S. Paulo
Direita demagógica sofreu desgaste e trocou
virulência por persistência
Excesso de vetos a poderes eleitos e
desrespeito à ética republicana nutrem aventureiros
O Sars-Cov 2 já não é mais aquele. Esse coronavírus teve
caminho livre para se espalhar na velocidade dos contatos pessoais quando
adquiriu a capacidade de ser transmitido entre humanos, no final de 2019. Fez
estragos e cadáveres aos montes por uns dois anos até acomodar-se às nossas
defesas imunológicas, elas mesmas fortalecidas por anticorpos ativados pelas
vacinas e pelas ondas sucessivas de infecção.
De terrível novidade converteu-se num conviva
habitual e incômodo. De epidemia virou endemia. Ficará por aí pelos próximos
séculos, quiçá milênios, como parte da história natural.
Dá para arriscar que algo similar se passou com o novo populismo global, guardadas as especificidades da política. Há dez anos os vapores de rebeldia que se acumulavam em várias nações democráticas rebentaram no Reino Unido, na façanha do Brexit. A seguir um improvável canastrão atropelou a oligarquia do Partido Republicano e ganhou a indicação e a eleição para presidente dos Estados Unidos.
O terremoto chacoalhou o Brasil naquele mesmo
2016, empurrando um cordão de candidatos outsiders e excêntricos para as
prefeituras do país, e voltou a se manifestar em 2018, nas eleições nacionais.
Efeitos tardios ocorreram na Argentina e na Itália. Em quase todas as
democracias as forças populistas avançaram, a despeito de terem conquistado a
chefia do governo, e transformaram o panorama político.
Uma década depois, os outrora bravos
rompedores de portas não são mais os mesmos. Os que passaram pelo governo
carregam a ferrugem do desgaste. Deixaram evidentes os equívocos e as
contradições de suas teorias radicais sobre como o mundo deveria operar. Chafurdaram
na corrupção que denunciavam, negociaram com quem associavam à podridão e se
curvaram ao império da lei, que desprezavam.
Ninguém logrou derrubar a democracia. Quem
ousou, tramou e promoveu badernas foi sancionado. Quem perdeu a eleição foi
para casa e tentou de novo no ciclo seguinte. A regra valeu até para o herói
precoce do movimento, Viktor Orbán.
O projeto de Putin húngaro, de quem se temia uma autocracia vitalícia sem nenhuma
ameaça de opositores, burocratas ou eleitores, foi humilhado nas urnas em abril
e defenestrado.
Como o Sars-Cov 2, o populismo de direita da
primeira metade do século 21 trocou virulência por persistência. Não destruiu
os alicerces do Estado de Direito, tampouco desapareceu. Mantém-se competitivo
pelo apoio plebiscitário, a ponto de ter transformado o embate típico das
eleições numa peleja entre representantes da ordem, de um lado, e líderes
providenciais, do outro.
A economia e outros campos de atividade que
dependem de continuidade, amparo técnico e estabilidade para vicejar
tornaram-se a grande vulnerabilidade dos políticos populistas. O empobrecimento
relativo do Reino Unido é um fato, e o arrependimento popular pela aventura do
Brexit, outro. A confusão com as tarifas do comércio vai reduzir o crescimento
global. A nova "corrida espacial" pelo monopólio nacionalista das
inteligências artificiais não terá resultado diferente. Está patente que eleger
populista atiça a inflação.
Mas há problemas e disfuncionalidades no
mundo da ordem liberal que compõem o substrato para a retórica salvacionista.
Do princípio fundamental de que o poder de Estado deve ser sempre limitado,
pois uma ambição colocada contra a outra evita o despotismo, não deveria decorrer
a multiplicação desordenada de agentes com prerrogativa de veto. Quando um
governante ou a maioria legislativa veem-se sistematicamente bloqueados por
burocracias não eleitas, a soberania popular entra em xeque.
A tendência ao encastelamento das autoridades
e o seu distanciamento da vida e dos valores do cidadão mediano são outro
celeiro em que se nutrem os demagogos. Os rapapés e regabofes, as regalias, a
autoproteção, as decisões em causa própria, os modos de falar, os narizes
empinados, os motoristas e jatinhos particulares, tudo isso compõe um prato
cheio para incitar o ódio em quem rala para ganhar o dia. Perdeu-se a noção de
que a República também é uma ética da igualdade, do recato e da submissão à
fonte do poder.

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