A 'herança maldita' que o PT esconde
Por Folha de S. Paulo
Dívida, estatais e expansão fiscal revelam
quadro bem mais preocupante do que indicam as metas do governo
Entre junho de 2022 e junho de 2026, o impulso fiscal saltou de 1,43% para 6,7% do PIB, evidenciando uma política expansionista
As contas públicas brasileiras chegam perto
do fim do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
em situação muito mais vulnerável do que o discurso oficial tem buscado
demonstrar publicamente.
Embora a área econômica venha repetindo nas
últimas semanas que cumpre as metas previstas em seu arcabouço fiscal, os
principais indicadores caminham na direção oposta.
A dívida pública cresce, os déficits tornam-se recorrentes, as estatais voltam a representar risco para o Tesouro e o impulso fiscal é muito maior do que mostram as estatísticas convencionais. A distância entre a narrativa oficial e a realidade das contas públicas tornou-se impossível de ignorar.
O Relatório de Acompanhamento Fiscal da
Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico do Senado,
desmonta essa aparência de normalidade.
A Dívida Bruta do Governo Geral deve encerrar
2026 em 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB),
aumentando mais de dez pontos em quatro anos. No cenário-base da IFI, chegará a
102% do PIB em 2032 e a 115% em 2036 —patamares extremamente elevados para
economias emergentes.
A deterioração decorre da incapacidade de
equilibrar receitas e despesas. O órgão projeta déficit primário de R$ 51,7
bilhões neste ano e de R$ 86,1 bilhões em 2027.
O cumprimento das metas depende de exceções
previstas na legislação, mas esses expedientes não mudam a realidade: os gastos
continuam ocorrendo, exigem financiamento e alimentam a expansão da dívida.
Também
preocupa a piora das estatais. Sete empresas dependentes da União
encerraram 2025 com patrimônio líquido negativo, entre elas Codevasf e
Embrapa.
Outras registram deterioração do fluxo de
caixa, aumentando a probabilidade de novos aportes do Tesouro. Os Correios,
por sua vez, receberam empréstimo de R$ 12 bilhões com garantia da União,
transferindo a todos os contribuintes o risco de uma eventual inadimplência.
A deterioração é ainda maior do que aponta o
resultado primário. O Monitor de Expansão Fiscal Ampliada (MEFA), desenvolvido
pelo Ibre-FGV, incorpora mecanismos pelos quais o governo injeta recursos
na economia —como
despesas financeiras e restos a pagar— que não aparecem integralmente no
cálculo do resultado primário.
Entre junho de 2022 e junho de 2026, este
piorou 1,82 ponto percentual do PIB. No mesmo período, o impulso fiscal medido
pelo MEFA saltou de 1,43% para 6,7% do PIB, evidenciando uma política muito
mais expansionista do que a contabilidade oficial revela.
Não surpreende, assim, que a queda dos juros continue
difícil. Sem estabilizar a dívida e recuperar a credibilidade das contas
públicas, o país
permanecerá pagando caro para financiar o Estado, restringindo
investimentos e deixando ao próximo governo uma herança fiscal
"maldita" —termo que o PT costuma usar para qualificar o legado de
adversários.
Milei protagoniza ópera-bufa em território
nacional
Por Folha de S. Paulo
São sem precedentes os insultos proferidos
pelo argentino em ato formal de um partido político brasileiro
Lula esteve em campanha de Hugo Chávez e
visitou Cristina Kirchner na prisão na Argentina, mas Milei deu um passo que
parecia impensável
O senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) participou no
sábado (25) do que parece ser uma das ocupações favoritas de sua família: atuar
contra a soberania e o interesse nacional.
É conhecido o histórico do clã nesse
departamento. Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) reuniu embaixadores
estrangeiros para proferir mentiras sobre o sistema eleitoral do país. Em 2025,
Eduardo Bolsonaro, à época deputado federal pelo PL-SP, celebrou o
tarifaço americano que afetou produtos do Brasil.
Flávio não tinha ficado atrás. No começo
deste ano, coube a ele estimular o governo dos EUA a classificar facções
criminosas brasileiras como terroristas, em uma medida repleta de riscos de
intervenções arbitrárias.
Agora, na convenção partidária que o
oficializou como candidato à Presidência da República, o senador abriu espaço
para que Javier Milei,
presidente da Argentina,
desferisse uma série de impropérios contra o Brasil.
Durante quase meia hora de discurso
virulento, Milei criticou o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
e chamou
Alexandre de Moraes de "lixo careca" —o ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF) não permitiu que o argentino se encontrasse com
Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar.
Os insultos logo tiveram resposta: o
Ministério das Relações Exteriores convocou o
embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, e o embaixador
do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, para prestarem esclarecimentos. Na
linguagem da diplomacia, a iniciativa demonstra forte insatisfação entre as
nações.
E não por acaso. Embora o próprio Lula tenha
apoiado candidatos em outros países —esteve em campanha de Hugo Chávez na Venezuela,
endossou Kamala Harris nos
EUA e visitou Cristina
Kirchner em prisão domiciliar na Argentina—, Milei deu um passo
que parecia impensável.
O argentino atravessou a fronteira e, na
condição de chefe estrangeiro, protagonizou uma participação bufa e insultuosa
em ato formal de um partido político brasileiro. Com seus vitupérios
ridicularizou-se e agrediu as relações internacionais; com sua presença na
convenção, realizou clara interferência no país vizinho.
Do ponto de vista eleitoral, o episódio há de
render poucos frutos a quem quer que seja. E, mesmo sob uma perspectiva
binacional, é pouco provável que o governo Lula queira levar o caso além das
reações simbólicas.
Mas, no plano dos símbolos, Flávio e Milei evidenciaram que põem suas agendas pessoais muito acima dos interesses de seus respectivos países.
Milei não deveria se imiscuir na política
brasileira
Por O Globo
Investidas de Lula na Argentina não
justificam tom belicoso e xingamentos em discurso de apoio a Flávio
As desavenças ideológicas entre os presidentes
Luiz Inácio Lula da
Silva e Javier Milei são
profundas e estarão sempre sujeitas às intempéries políticas. Mas não podem
atrapalhar a relação diplomática entre Brasil e Argentina, tão importante para
os dois países e para o continente sul-americano. Daí a preocupação com os
efeitos do discurso destemperado de Milei na convenção do Partido Liberal (PL)
em São Paulo, que sacramentou no sábado a candidatura do senador Flávio
Bolsonaro à Presidência da República.
No longo pronunciamento de apoio a Flávio,
Milei adotou um tom agressivo e malcriado, incompatível com o esperado de um
chefe de Estado. Atacou Lula, a quem se referiu como “presidiário”, e xingou de
“lixo” o ministro Alexandre
de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Recentemente, Moraes o
proibiu de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem Milei chamou de
“amigo injustamente encarcerado”. “Lula se cansou de receber líderes do
exterior quando estava preso, entre eles o nefasto ex-presidente argentino
Alberto Fernández”, disse.
Milei saiu do tom não apenas nos ataques, mas
na atitude belicosa e no linguajar. O presidente do STF, ministro Edson Fachin,
afirmou que o xingamento a Moraes foi “desrespeitoso” e “incompatível com a
civilidade”. Lula disse que quem venha de fora “meter o dedo” nas eleições
brasileiras vai “apanhar muito”. Até o ministro da Fazenda, Dario Durigan, se
manifestou em tom inadequado chamando Milei de “palhaço”, embora não tivesse
nada a ver com o assunto nem devesse se pronunciar sobre o tema. O ministro das
Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador da Argentina, Daniel
Raimondi, para “transmitir a repulsa” ao ocorrido e convocou para consultas o
embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli.
O presidente da Argentina pode ter afinidade
política com quem quiser, mas não deveria se imiscuir na política brasileira. É
certo que o caso tem precedentes, tão descabidos quanto. Em 2023, Lula enviou
estrategistas de campanha à Argentina no intuito de ajudar a candidatura
governista de Sergio Massa à Presidência. Massa, que acabaria derrotado por
Milei, também se encontrou com Lula em Brasília para tratar das eleições
argentinas. Em 2025, o petista aproveitou a estadia em Buenos Aires durante
reunião de cúpula do Mercosul para condenar a prisão da ex-presidente Cristina
Kirchner por corrupção, misturando os papéis de chefe de Estado e militante
político. Pior: posou com ela e depois ao lado de um cartaz “Cristina livre”,
num flagrante desrespeito às decisões da Justiça local. Milei disse que “não
esqueceria” o que fez Lula. Evidentemente, o erro de um não justifica o do
outro.
Divergências políticas entre governos são
legítimas, mas precisam ser conduzidas dentro do respeito, da civilidade e dos
protocolos diplomáticos. Atacar um ministro do STF que nada tem a ver com as
disputas eleitorais e lançar mão de xingamentos e atitudes agressivas contra
autoridades em solo brasileiro são atitudes inaceitáveis. Brasil e Argentina
são parceiros importantes não apenas no comércio. Os desdobramentos do
episódio, com a escalada de críticas de um lado e de outro, só pioram o clima.
É hora de serenar os ânimos. Nenhum dos lados tem nada a ganhar com a
deterioração das relações diplomáticas. Lula e Milei não são maiores que seus
países.
Em seu afã de ‘bondades’ eleitoreiras,
governo deixará herança funesta
Por O Globo
Metodologia de cálculo varia, mas conclusão é
unânime: agravamento da crise fiscal é preocupante
À medida que se avoluma a lista de “bondades”
eleitoreiras do governo, os economistas tentam quantificar seu efeito.
Independentemente da metodologia adotada, uma constatação tem sido unânime: o
agravamento da crise fiscal é preocupante. A estimativa mais recente vem de um
estudo do economista Alexandre Manoel, da consultoria Global Intelligence and
Analytics. Do início de abril ao fim de junho, as “bondades” concedidas por
meio de linhas de crédito subsidiadas ou pagamentos que deixarão pendências
para o futuro somaram 4,5% do PIB, ou R$ 150 bilhões. No primeiro trimestre, o
total era menos da metade disso, ou 2,19%. Comparada ao ciclo eleitoral de
2022, a situação sofreu deterioração de 5,3 pontos percentuais.
O governo se justifica alegando que, no
primeiro ano da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, o déficit primário foi da ordem de 2,4% do PIB, enquanto a previsão para
este ano está abaixo de 1%. Mas essa explicação é pouco convincente. Primeiro,
porque a promessa logo no início do mandato era zerar o déficit — e lá se vão
quatro anos sem que ela seja cumprida. Segundo, porque o governo tem sido
pródigo em medidas que não entram nos cálculos das metas fiscais. Chamadas de
parafiscais, elas ficam fora da conta, mas continuam a alimentar a dívida
pública, que não para de crescer. Hoje nenhum economista leva mais a sério o
diagnóstico fiscal baseado apenas no resultado primário. Bancos e consultorias
fazem seus próprios cálculos para se defender dos dribles do governo.
É evidente que as inúmeras linhas de crédito
subsidiado ampliadas ou lançadas pelo Planalto provocam distorções na economia.
Elas podem até deixar satisfeitos os beneficiados — agricultores, motoristas de
aplicativos, ônibus e caminhões, micro e pequenos empresários, cidadãos
inadimplentes, quem faz reforma, quem quer comprar a casa própria, exportadores,
empresas do setor aéreo… Mas cada empréstimo subsidiado traz prejuízo ao
Tesouro, que paga taxas maiores para captar recursos e raramente vê o dinheiro
de volta. Quanto maior a dívida pública, pior o ambiente para a economia
crescer de forma sustentada.
É certo que Lula não é o primeiro presidente a abrir as torneiras da gastança em ano eleitoral. Mas os precedentes não o redimem. Na campanha de 2022, os petistas criticaram o descontrole de gastos promovido por Jair Bolsonaro para tentar se reeleger. Lula assumiu com um discurso de responsabilidade fiscal, criou um novo arcabouço para acomodar mais despesas e nem assim foi capaz de cumprir sua promessa de zerar o déficit para controlar o endividamento público. Agora, em seu afã eleitoreiro, deixará uma herança funesta ao próximo governo.
Um candidato nanico
Por O Estado de S. Paulo
Sem apoio do Centrão e sem discurso próprio,
Flávio Bolsonaro aposta em Trump, Milei e Netanyahu para disfarçar a
fragilidade de uma candidatura que só existe pelo sobrenome do pai
Um desavisado poderia imaginar que o
candidato do PL à Presidência da República é Javier Milei, tamanho o
protagonismo do presidente argentino na convenção do partido destinada a
consagrar Flávio Bolsonaro. Pudera: sem nada a oferecer ao eleitor além do sobrenome
de seu pai, Flávio revelou seu verdadeiro tamanho no evento: minúsculo, sem
apoio dos principais partidos do Centrão, o senador socorreu-se da “direita
internacional” – o argentino Milei, o americano Donald Trump e o israelense
Benjamin Netanyahu – e de um avatar de Jair Bolsonaro produzido por
inteligência artificial para dar algum sentido à sua candidatura.
Por quase meia hora, Milei, ao lado de um
embevecido Flávio, atacou aos gritos e palavrões o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
Temos muitas razões para criticar ambos, mas é preciso fazê-lo com um mínimo de
civilidade – mais ainda quando a crítica parte de um chefe de Estado, como
Milei, e no momento em que esse chefe de Estado estava no Brasil.
No entanto, Milei representa como poucos essa
vertente política direitista que faz da falta de vergonha e da insolência
institucional seus principais ativos políticos. Flávio Bolsonaro, como
candidato a presidente de todos os brasileiros, e não somente daqueles que
urraram a cada palavrão proferido pelo presidente argentino, deveria ter
evitado esse espetáculo constrangedor que nada de bom produz para o País. Mas o
senador, em razão de sua própria insignificância, está cada vez mais à mercê de
forças que não controla, numa campanha que começa a apostar no ultraje para
impulsionar suas chances de vitória.
Além disso, é digna de repúdio a
sem-cerimônia com que Flávio atrelou seu destino como candidato a atores
externos, como Milei e Trump. Cada vez mais impopular na Argentina, em razão da
dureza de suas medidas econômicas e de um escândalo de corrupção, Milei veio ao
Brasil não para apoiar Flávio, mas para criar um incidente que o colocasse nas
manchetes. Conseguiu.
O caso de Trump é ainda mais perigoso. O
presidente americano não disfarça seu interesse em se intrometer nas eleições
brasileiras, com o objetivo de instalar no Palácio do Planalto um títere para
impulsionar seu projeto de converter a América Latina em seu quintal.
Soube-se pela imprensa americana que Trump
queria enviar representantes seus para o Brasil para disseminar suspeitas sobre
nosso sistema eleitoral. O governo brasileiro negou-lhes o visto e, como
esperado, capitalizou o caso politicamente, o que mostra a toxicidade de uma
associação com Trump. Como revelou uma pesquisa Datafolha divulgada no fim de
semana, 52% dos eleitores acreditam que o tarifaço imposto pelo presidente dos
EUA às exportações brasileiras é uma manobra para beneficiar a candidatura de
Flávio. Ou seja, a maioria do eleitorado já enxerga no prejuízo econômico
imposto ao País um benefício a um candidato que só existe como tal para
resgatar o “legado” do pai – e nada mais.
O patriotismo proclamado por Flávio é,
portanto, mais uma das farsas do bolsonarismo, cujo objetivo é transformar o
Brasil em vassalo dos EUA de Trump.
Para piorar, tal comportamento joga água no
moinho da campanha de Lula, que se refestela como protetor da “soberania”
brasileira ante os ataques externos – das tarifas de Trump festejadas pelos
bolsonaristas ao comportamento delinquente de Javier Milei em solo brasileiro.
O mesmo Lula que outrora alinhou o Brasil ao bolivarianismo chavista, ao
peronismo kirchnerista e à nostalgia castrista de Cuba agora posa de herói da
Pátria contra o entreguismo de Flávio.
Eis aí o legado da família Bolsonaro ao
Brasil: dar a um presidente medíocre, com ideias envelhecidas e sem projeto de
futuro para o País, como Lula, a chance real de permanecer mais quatro anos no
poder. Imperdoável.
Terminada a convenção do PL, ficou claro que
falta a Flávio o que nenhuma ferramenta de inteligência artificial jamais será
capaz de gerar: credibilidade moral, história política independente,
compromisso com a democracia e um eleitorado que o siga por convicção, não por
imposição. Até lá, o PL terá um avatar mal ajambrado de Jair Bolsonaro como seu
candidato a presidente.
Neomercantilismo de Trump custa caro
Por O Estado de S. Paulo
As tarifas frustraram a promessa de
prosperidade, mas se consolidam como máquina de tributação, privilégios e
coerção internacional – jogo que o regime autoritário da China joga melhor
O presidente dos EUA, Donald Trump, voltou à
carga. Três meses antes das eleições legislativas, a Casa Branca anunciou nova
rodada de tarifas. Depois de mais de um ano, a política tarifária não entregou
a reconstrução econômica prometida. Ainda assim, sobrevive, porque aumentou o
poder do presidente para tributar, ameaçar e distribuir exceções.
O “Dia da Libertação”, em abril de 2025, foi
vendido como a inauguração de uma “era de ouro”. As tarifas trariam fábricas e
empregos de volta, reduziriam o déficit comercial, atrairiam investimento
estrangeiro e fortaleceriam o poder de compra. A julgar pelas próprias
promessas de Trump, o balanço é fartamente negativo.
A manufatura não viveu a anunciada
renascença. O emprego industrial caiu, a produção permaneceu quase estagnada e
o investimento em instalações perdeu fôlego. O déficit de bens, descontadas
distorções como a antecipação de importações, terminou 2025 praticamente onde
começou. A economia continuou crescendo, mas o impulso veio sobretudo da
inteligência artificial, do consumo e de setores poupados pelo governo.
A política tarifária só se tornou menos
destrutiva porque Washington recuou diante de seus próprios custos. A ausência
de desastre não é evidência de sucesso. Só mostra que boa parte da dose
anunciada jamais foi administrada.
Também caiu por terra a fantasia de que
estrangeiros pagariam a conta. Estudos estimam que empresas e consumidores
americanos suportaram entre 77% e 96% do custo. Muitas tarifas incidem sobre
insumos, componentes e bens de capital usados por fabricantes dos EUA. Proteger
um produtor de aço tende a elevar a despesa de indústrias que compram aço. O
ganho é concentrado e visível; as perdas se espalham por preços, margens
menores, investimentos adiados e empregos que nunca chegam a existir.
As exceções abriram um mercado paralelo de
favores e chantagens. Escritórios de advocacia, consultorias e lobistas
passaram a disputar acesso à Casa Branca e às agências capazes de decidir quem
paga, quem é poupado e quem é protegido. Para quem precisa decidir onde
construir uma fábrica ou de quem comprar componentes pelos próximos anos, a
incerteza funciona como um imposto adicional.
Trump obtém ganhos reais dessa engrenagem: a
arrecadação aumenta, governos estrangeiros fazem concessões, empresas anunciam
fábricas e algumas importações chinesas caem. Isso não significa que os EUA
ficaram mais ricos ou mais fortes. A receita sai em grande medida do bolso
americano. O investimento feito para escapar de uma barreira tende apenas a
deslocar capital para usos menos eficientes. A queda do déficit com a China
pode reaparecer como aumento das importações do Vietnã, do México ou de Taiwan.
Uma concessão arrancada de um aliado pode custar mais, no longo prazo, do que rende
ao presidente na fotografia.
A dissonância decisiva está entre exercer
poder e criar prosperidade. Trump mede “vitória” pela capacidade de impor
custos. Uma economia mede sucesso por produtividade, inovação, salários e
investimento sustentável. Sob esse padrão, as tarifas frustraram a propaganda.
Seu legado, porém, pode ser duradouro. A
Suprema Corte derrubou o uso discricionário da Lei de Emergência Econômica, mas
o governo manipula investigações comerciais para fabricar seus pretextos. O
fundamento muda; a intenção permanece. O Congresso tolera a usurpação de seus
poderes, enquanto o Executivo transforma tarifas em instrumento de extorsão em
temas díspares: da imigração, às drogas até a política industrial. Presidentes
futuros herdarão essa máquina.
A China já opera numa lógica de subsídios,
crédito dirigido, proteção e coerção. Os EUA construíram sua vantagem com
mercados abertos, segurança jurídica, inovação descentralizada, alianças e
capacidade de atrair capital e talentos. Ao escolher o terreno preferido de
Pequim, Washington debilita atributos próprios e incentiva parceiros a firmar
acordos entre si.
Trump pode legar aos sucessores mais poder
sobre a economia. Será uma herança cara: mais privilégios, mais instabilidade,
menos disciplina institucional e um país que tenta superar a China mimetizando
justamente as práticas contra as quais oferecia uma alternativa melhor.
Propaganda eleitoral oficial
Por O Estado de S. Paulo
Lula bate recorde com publicidade do governo,
óbvia extensão de sua campanha eleitoral
A Presidência da República desembolsou R$
255,3 milhões em publicidade no primeiro semestre de 2026. Como mostrou o Estadão, é o maior valor gasto
com esse propósito para o período em pelo menos 17 anos. A coincidência entre
essa escalada de gastos e o calendário eleitoral é eloquente demais para ser
tratada como mero acaso administrativo.
A publicidade institucional é instrumento
legítimo do Estado quando serve para informar o cidadão sobre serviços,
direitos e campanhas de interesse público. O problema surge quando passa a
divulgar realizações do governo em volume recorde, às vésperas de uma eleição.
Nesse momento, a fronteira entre Estado e governo se embaralha e a comunicação
assume contornos de propaganda política financiada pelo contribuinte.
Também chama a atenção onde esse dinheiro foi
parar. Entre campanhas permanentes de fortalecimento da imagem do governo, a
maior campanha temática foi justamente a ampliação da faixa de isenção do
Imposto de Renda. Ainda que a proposta tenha mérito próprio, não deixa de ser a
principal vitrine eleitoral do governo para 2026.
A comparação com outras áreas do governo
reforça essa impressão. Enquanto a Presidência desembolsou R$ 255,3 milhões em
publicidade apenas no primeiro semestre, o Ministério das Mulheres executou R$
118,3 milhões em todo o ano passado. As escolhas orçamentárias também
comunicam. Quando divulgar ações passa a consumir mais recursos do que
políticas voltadas a enfrentar problemas concretos do País, o governo revela o
peso que atribui à própria exposição.
O problema, evidentemente, não nasceu com
Lula. Presidentes de diferentes partidos recorreram à máquina de comunicação do
Estado para ampliar sua presença no debate público. É justamente por isso que a
questão não pode depender da moderação de cada governo. Cabe à legislação impor
limites claros ao uso desse instrumento. Em ano eleitoral, o dever de informar
não pode servir de atalho para promover quem disputa a permanência no poder.
Esses limites, porém, ficaram mais frágeis.
Até 2022, a legislação restringia os gastos efetivamente realizados com
propaganda oficial em anos eleitorais. Como a expressão “despesa” gerava
disputas interpretativas, o Congresso alterou a lei e passou a limitar apenas
os empenhos. Na prática, controla-se o compromisso de gasto, mas não
necessariamente a propaganda que chega ao cidadão. Não por acaso, especialistas
ouvidos pela reportagem defendem que o parâmetro deveria ser o pagamento ou a
liquidação das campanhas, porque é a publicidade efetivamente veiculada e não a
apenas autorizada.
Não importa quem ocupe o Palácio do Planalto.
A comunicação do Estado não pode funcionar como extensão da campanha do
governante de turno. Enquanto a legislação permitir que recursos públicos
ampliem a exposição política de quem já está no poder, a disputa eleitoral
continuará começando com um dos candidatos vários metros à frente dos demais. O
Estado existe para informar o cidadão, não para financiar a vantagem eleitoral
de quem temporariamente o governa.

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