terça-feira, 28 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

A 'herança maldita' que o PT esconde

Por Folha de S. Paulo

Dívida, estatais e expansão fiscal revelam quadro bem mais preocupante do que indicam as metas do governo

Entre junho de 2022 e junho de 2026, o impulso fiscal saltou de 1,43% para 6,7% do PIB, evidenciando uma política expansionista

As contas públicas brasileiras chegam perto do fim do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em situação muito mais vulnerável do que o discurso oficial tem buscado demonstrar publicamente.

Embora a área econômica venha repetindo nas últimas semanas que cumpre as metas previstas em seu arcabouço fiscal, os principais indicadores caminham na direção oposta.

A dívida pública cresce, os déficits tornam-se recorrentes, as estatais voltam a representar risco para o Tesouro e o impulso fiscal é muito maior do que mostram as estatísticas convencionais. A distância entre a narrativa oficial e a realidade das contas públicas tornou-se impossível de ignorar.

O Relatório de Acompanhamento Fiscal da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico do Senado, desmonta essa aparência de normalidade.

A Dívida Bruta do Governo Geral deve encerrar 2026 em 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB), aumentando mais de dez pontos em quatro anos. No cenário-base da IFI, chegará a 102% do PIB em 2032 e a 115% em 2036 —patamares extremamente elevados para economias emergentes.

A deterioração decorre da incapacidade de equilibrar receitas e despesas. O órgão projeta déficit primário de R$ 51,7 bilhões neste ano e de R$ 86,1 bilhões em 2027.

O cumprimento das metas depende de exceções previstas na legislação, mas esses expedientes não mudam a realidade: os gastos continuam ocorrendo, exigem financiamento e alimentam a expansão da dívida.

Também preocupa a piora das estatais. Sete empresas dependentes da União encerraram 2025 com patrimônio líquido negativo, entre elas Codevasf e Embrapa.

Outras registram deterioração do fluxo de caixa, aumentando a probabilidade de novos aportes do Tesouro. Os Correios, por sua vez, receberam empréstimo de R$ 12 bilhões com garantia da União, transferindo a todos os contribuintes o risco de uma eventual inadimplência.

A deterioração é ainda maior do que aponta o resultado primário. O Monitor de Expansão Fiscal Ampliada (MEFA), desenvolvido pelo Ibre-FGV, incorpora mecanismos pelos quais o governo injeta recursos na economia —como despesas financeiras e restos a pagar— que não aparecem integralmente no cálculo do resultado primário.

Entre junho de 2022 e junho de 2026, este piorou 1,82 ponto percentual do PIB. No mesmo período, o impulso fiscal medido pelo MEFA saltou de 1,43% para 6,7% do PIB, evidenciando uma política muito mais expansionista do que a contabilidade oficial revela.

Não surpreende, assim, que a queda dos juros continue difícil. Sem estabilizar a dívida e recuperar a credibilidade das contas públicas, o país permanecerá pagando caro para financiar o Estado, restringindo investimentos e deixando ao próximo governo uma herança fiscal "maldita" —termo que o PT costuma usar para qualificar o legado de adversários.

Milei protagoniza ópera-bufa em território nacional

Por Folha de S. Paulo

São sem precedentes os insultos proferidos pelo argentino em ato formal de um partido político brasileiro

Lula esteve em campanha de Hugo Chávez e visitou Cristina Kirchner na prisão na Argentina, mas Milei deu um passo que parecia impensável

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou no sábado (25) do que parece ser uma das ocupações favoritas de sua família: atuar contra a soberania e o interesse nacional.

É conhecido o histórico do clã nesse departamento. Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) reuniu embaixadores estrangeiros para proferir mentiras sobre o sistema eleitoral do país. Em 2025, Eduardo Bolsonaro, à época deputado federal pelo PL-SP, celebrou o tarifaço americano que afetou produtos do Brasil.

Flávio não tinha ficado atrás. No começo deste ano, coube a ele estimular o governo dos EUA a classificar facções criminosas brasileiras como terroristas, em uma medida repleta de riscos de intervenções arbitrárias.

Agora, na convenção partidária que o oficializou como candidato à Presidência da República, o senador abriu espaço para que Javier Milei, presidente da Argentina, desferisse uma série de impropérios contra o Brasil.

Durante quase meia hora de discurso virulento, Milei criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e chamou Alexandre de Moraes de "lixo careca" —o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) não permitiu que o argentino se encontrasse com Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar.

Os insultos logo tiveram resposta: o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, e o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, para prestarem esclarecimentos. Na linguagem da diplomacia, a iniciativa demonstra forte insatisfação entre as nações.

E não por acaso. Embora o próprio Lula tenha apoiado candidatos em outros países —esteve em campanha de Hugo Chávez na Venezuela, endossou Kamala Harris nos EUA e visitou Cristina Kirchner em prisão domiciliar na Argentina—, Milei deu um passo que parecia impensável.

O argentino atravessou a fronteira e, na condição de chefe estrangeiro, protagonizou uma participação bufa e insultuosa em ato formal de um partido político brasileiro. Com seus vitupérios ridicularizou-se e agrediu as relações internacionais; com sua presença na convenção, realizou clara interferência no país vizinho.

Do ponto de vista eleitoral, o episódio há de render poucos frutos a quem quer que seja. E, mesmo sob uma perspectiva binacional, é pouco provável que o governo Lula queira levar o caso além das reações simbólicas.

Mas, no plano dos símbolos, Flávio e Milei evidenciaram que põem suas agendas pessoais muito acima dos interesses de seus respectivos países.

Milei não deveria se imiscuir na política brasileira

Por O Globo

Investidas de Lula na Argentina não justificam tom belicoso e xingamentos em discurso de apoio a Flávio

As desavenças ideológicas entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei são profundas e estarão sempre sujeitas às intempéries políticas. Mas não podem atrapalhar a relação diplomática entre Brasil e Argentina, tão importante para os dois países e para o continente sul-americano. Daí a preocupação com os efeitos do discurso destemperado de Milei na convenção do Partido Liberal (PL) em São Paulo, que sacramentou no sábado a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

No longo pronunciamento de apoio a Flávio, Milei adotou um tom agressivo e malcriado, incompatível com o esperado de um chefe de Estado. Atacou Lula, a quem se referiu como “presidiário”, e xingou de “lixo” o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Recentemente, Moraes o proibiu de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem Milei chamou de “amigo injustamente encarcerado”. “Lula se cansou de receber líderes do exterior quando estava preso, entre eles o nefasto ex-presidente argentino Alberto Fernández”, disse.

Milei saiu do tom não apenas nos ataques, mas na atitude belicosa e no linguajar. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, afirmou que o xingamento a Moraes foi “desrespeitoso” e “incompatível com a civilidade”. Lula disse que quem venha de fora “meter o dedo” nas eleições brasileiras vai “apanhar muito”. Até o ministro da Fazenda, Dario Durigan, se manifestou em tom inadequado chamando Milei de “palhaço”, embora não tivesse nada a ver com o assunto nem devesse se pronunciar sobre o tema. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador da Argentina, Daniel Raimondi, para “transmitir a repulsa” ao ocorrido e convocou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli.

O presidente da Argentina pode ter afinidade política com quem quiser, mas não deveria se imiscuir na política brasileira. É certo que o caso tem precedentes, tão descabidos quanto. Em 2023, Lula enviou estrategistas de campanha à Argentina no intuito de ajudar a candidatura governista de Sergio Massa à Presidência. Massa, que acabaria derrotado por Milei, também se encontrou com Lula em Brasília para tratar das eleições argentinas. Em 2025, o petista aproveitou a estadia em Buenos Aires durante reunião de cúpula do Mercosul para condenar a prisão da ex-presidente Cristina Kirchner por corrupção, misturando os papéis de chefe de Estado e militante político. Pior: posou com ela e depois ao lado de um cartaz “Cristina livre”, num flagrante desrespeito às decisões da Justiça local. Milei disse que “não esqueceria” o que fez Lula. Evidentemente, o erro de um não justifica o do outro.

Divergências políticas entre governos são legítimas, mas precisam ser conduzidas dentro do respeito, da civilidade e dos protocolos diplomáticos. Atacar um ministro do STF que nada tem a ver com as disputas eleitorais e lançar mão de xingamentos e atitudes agressivas contra autoridades em solo brasileiro são atitudes inaceitáveis. Brasil e Argentina são parceiros importantes não apenas no comércio. Os desdobramentos do episódio, com a escalada de críticas de um lado e de outro, só pioram o clima. É hora de serenar os ânimos. Nenhum dos lados tem nada a ganhar com a deterioração das relações diplomáticas. Lula e Milei não são maiores que seus países.

Em seu afã de ‘bondades’ eleitoreiras, governo deixará herança funesta

Por O Globo

Metodologia de cálculo varia, mas conclusão é unânime: agravamento da crise fiscal é preocupante

À medida que se avoluma a lista de “bondades” eleitoreiras do governo, os economistas tentam quantificar seu efeito. Independentemente da metodologia adotada, uma constatação tem sido unânime: o agravamento da crise fiscal é preocupante. A estimativa mais recente vem de um estudo do economista Alexandre Manoel, da consultoria Global Intelligence and Analytics. Do início de abril ao fim de junho, as “bondades” concedidas por meio de linhas de crédito subsidiadas ou pagamentos que deixarão pendências para o futuro somaram 4,5% do PIB, ou R$ 150 bilhões. No primeiro trimestre, o total era menos da metade disso, ou 2,19%. Comparada ao ciclo eleitoral de 2022, a situação sofreu deterioração de 5,3 pontos percentuais.

O governo se justifica alegando que, no primeiro ano da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o déficit primário foi da ordem de 2,4% do PIB, enquanto a previsão para este ano está abaixo de 1%. Mas essa explicação é pouco convincente. Primeiro, porque a promessa logo no início do mandato era zerar o déficit — e lá se vão quatro anos sem que ela seja cumprida. Segundo, porque o governo tem sido pródigo em medidas que não entram nos cálculos das metas fiscais. Chamadas de parafiscais, elas ficam fora da conta, mas continuam a alimentar a dívida pública, que não para de crescer. Hoje nenhum economista leva mais a sério o diagnóstico fiscal baseado apenas no resultado primário. Bancos e consultorias fazem seus próprios cálculos para se defender dos dribles do governo.

É evidente que as inúmeras linhas de crédito subsidiado ampliadas ou lançadas pelo Planalto provocam distorções na economia. Elas podem até deixar satisfeitos os beneficiados — agricultores, motoristas de aplicativos, ônibus e caminhões, micro e pequenos empresários, cidadãos inadimplentes, quem faz reforma, quem quer comprar a casa própria, exportadores, empresas do setor aéreo… Mas cada empréstimo subsidiado traz prejuízo ao Tesouro, que paga taxas maiores para captar recursos e raramente vê o dinheiro de volta. Quanto maior a dívida pública, pior o ambiente para a economia crescer de forma sustentada.

É certo que Lula não é o primeiro presidente a abrir as torneiras da gastança em ano eleitoral. Mas os precedentes não o redimem. Na campanha de 2022, os petistas criticaram o descontrole de gastos promovido por Jair Bolsonaro para tentar se reeleger. Lula assumiu com um discurso de responsabilidade fiscal, criou um novo arcabouço para acomodar mais despesas e nem assim foi capaz de cumprir sua promessa de zerar o déficit para controlar o endividamento público. Agora, em seu afã eleitoreiro, deixará uma herança funesta ao próximo governo.

Um candidato nanico

Por O Estado de S. Paulo

Sem apoio do Centrão e sem discurso próprio, Flávio Bolsonaro aposta em Trump, Milei e Netanyahu para disfarçar a fragilidade de uma candidatura que só existe pelo sobrenome do pai

Um desavisado poderia imaginar que o candidato do PL à Presidência da República é Javier Milei, tamanho o protagonismo do presidente argentino na convenção do partido destinada a consagrar Flávio Bolsonaro. Pudera: sem nada a oferecer ao eleitor além do sobrenome de seu pai, Flávio revelou seu verdadeiro tamanho no evento: minúsculo, sem apoio dos principais partidos do Centrão, o senador socorreu-se da “direita internacional” – o argentino Milei, o americano Donald Trump e o israelense Benjamin Netanyahu – e de um avatar de Jair Bolsonaro produzido por inteligência artificial para dar algum sentido à sua candidatura.

Por quase meia hora, Milei, ao lado de um embevecido Flávio, atacou aos gritos e palavrões o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Temos muitas razões para criticar ambos, mas é preciso fazê-lo com um mínimo de civilidade – mais ainda quando a crítica parte de um chefe de Estado, como Milei, e no momento em que esse chefe de Estado estava no Brasil.

No entanto, Milei representa como poucos essa vertente política direitista que faz da falta de vergonha e da insolência institucional seus principais ativos políticos. Flávio Bolsonaro, como candidato a presidente de todos os brasileiros, e não somente daqueles que urraram a cada palavrão proferido pelo presidente argentino, deveria ter evitado esse espetáculo constrangedor que nada de bom produz para o País. Mas o senador, em razão de sua própria insignificância, está cada vez mais à mercê de forças que não controla, numa campanha que começa a apostar no ultraje para impulsionar suas chances de vitória.

Além disso, é digna de repúdio a sem-cerimônia com que Flávio atrelou seu destino como candidato a atores externos, como Milei e Trump. Cada vez mais impopular na Argentina, em razão da dureza de suas medidas econômicas e de um escândalo de corrupção, Milei veio ao Brasil não para apoiar Flávio, mas para criar um incidente que o colocasse nas manchetes. Conseguiu.

O caso de Trump é ainda mais perigoso. O presidente americano não disfarça seu interesse em se intrometer nas eleições brasileiras, com o objetivo de instalar no Palácio do Planalto um títere para impulsionar seu projeto de converter a América Latina em seu quintal.

Soube-se pela imprensa americana que Trump queria enviar representantes seus para o Brasil para disseminar suspeitas sobre nosso sistema eleitoral. O governo brasileiro negou-lhes o visto e, como esperado, capitalizou o caso politicamente, o que mostra a toxicidade de uma associação com Trump. Como revelou uma pesquisa Datafolha divulgada no fim de semana, 52% dos eleitores acreditam que o tarifaço imposto pelo presidente dos EUA às exportações brasileiras é uma manobra para beneficiar a candidatura de Flávio. Ou seja, a maioria do eleitorado já enxerga no prejuízo econômico imposto ao País um benefício a um candidato que só existe como tal para resgatar o “legado” do pai – e nada mais.

O patriotismo proclamado por Flávio é, portanto, mais uma das farsas do bolsonarismo, cujo objetivo é transformar o Brasil em vassalo dos EUA de Trump.

Para piorar, tal comportamento joga água no moinho da campanha de Lula, que se refestela como protetor da “soberania” brasileira ante os ataques externos – das tarifas de Trump festejadas pelos bolsonaristas ao comportamento delinquente de Javier Milei em solo brasileiro. O mesmo Lula que outrora alinhou o Brasil ao bolivarianismo chavista, ao peronismo kirchnerista e à nostalgia castrista de Cuba agora posa de herói da Pátria contra o entreguismo de Flávio.

Eis aí o legado da família Bolsonaro ao Brasil: dar a um presidente medíocre, com ideias envelhecidas e sem projeto de futuro para o País, como Lula, a chance real de permanecer mais quatro anos no poder. Imperdoável.

Terminada a convenção do PL, ficou claro que falta a Flávio o que nenhuma ferramenta de inteligência artificial jamais será capaz de gerar: credibilidade moral, história política independente, compromisso com a democracia e um eleitorado que o siga por convicção, não por imposição. Até lá, o PL terá um avatar mal ajambrado de Jair Bolsonaro como seu candidato a presidente.

Neomercantilismo de Trump custa caro

Por O Estado de S. Paulo

As tarifas frustraram a promessa de prosperidade, mas se consolidam como máquina de tributação, privilégios e coerção internacional – jogo que o regime autoritário da China joga melhor

O presidente dos EUA, Donald Trump, voltou à carga. Três meses antes das eleições legislativas, a Casa Branca anunciou nova rodada de tarifas. Depois de mais de um ano, a política tarifária não entregou a reconstrução econômica prometida. Ainda assim, sobrevive, porque aumentou o poder do presidente para tributar, ameaçar e distribuir exceções.

O “Dia da Libertação”, em abril de 2025, foi vendido como a inauguração de uma “era de ouro”. As tarifas trariam fábricas e empregos de volta, reduziriam o déficit comercial, atrairiam investimento estrangeiro e fortaleceriam o poder de compra. A julgar pelas próprias promessas de Trump, o balanço é fartamente negativo.

A manufatura não viveu a anunciada renascença. O emprego industrial caiu, a produção permaneceu quase estagnada e o investimento em instalações perdeu fôlego. O déficit de bens, descontadas distorções como a antecipação de importações, terminou 2025 praticamente onde começou. A economia continuou crescendo, mas o impulso veio sobretudo da inteligência artificial, do consumo e de setores poupados pelo governo.

A política tarifária só se tornou menos destrutiva porque Washington recuou diante de seus próprios custos. A ausência de desastre não é evidência de sucesso. Só mostra que boa parte da dose anunciada jamais foi administrada.

Também caiu por terra a fantasia de que estrangeiros pagariam a conta. Estudos estimam que empresas e consumidores americanos suportaram entre 77% e 96% do custo. Muitas tarifas incidem sobre insumos, componentes e bens de capital usados por fabricantes dos EUA. Proteger um produtor de aço tende a elevar a despesa de indústrias que compram aço. O ganho é concentrado e visível; as perdas se espalham por preços, margens menores, investimentos adiados e empregos que nunca chegam a existir.

As exceções abriram um mercado paralelo de favores e chantagens. Escritórios de advocacia, consultorias e lobistas passaram a disputar acesso à Casa Branca e às agências capazes de decidir quem paga, quem é poupado e quem é protegido. Para quem precisa decidir onde construir uma fábrica ou de quem comprar componentes pelos próximos anos, a incerteza funciona como um imposto adicional.

Trump obtém ganhos reais dessa engrenagem: a arrecadação aumenta, governos estrangeiros fazem concessões, empresas anunciam fábricas e algumas importações chinesas caem. Isso não significa que os EUA ficaram mais ricos ou mais fortes. A receita sai em grande medida do bolso americano. O investimento feito para escapar de uma barreira tende apenas a deslocar capital para usos menos eficientes. A queda do déficit com a China pode reaparecer como aumento das importações do Vietnã, do México ou de Taiwan. Uma concessão arrancada de um aliado pode custar mais, no longo prazo, do que rende ao presidente na fotografia.

A dissonância decisiva está entre exercer poder e criar prosperidade. Trump mede “vitória” pela capacidade de impor custos. Uma economia mede sucesso por produtividade, inovação, salários e investimento sustentável. Sob esse padrão, as tarifas frustraram a propaganda.

Seu legado, porém, pode ser duradouro. A Suprema Corte derrubou o uso discricionário da Lei de Emergência Econômica, mas o governo manipula investigações comerciais para fabricar seus pretextos. O fundamento muda; a intenção permanece. O Congresso tolera a usurpação de seus poderes, enquanto o Executivo transforma tarifas em instrumento de extorsão em temas díspares: da imigração, às drogas até a política industrial. Presidentes futuros herdarão essa máquina.

A China já opera numa lógica de subsídios, crédito dirigido, proteção e coerção. Os EUA construíram sua vantagem com mercados abertos, segurança jurídica, inovação descentralizada, alianças e capacidade de atrair capital e talentos. Ao escolher o terreno preferido de Pequim, Washington debilita atributos próprios e incentiva parceiros a firmar acordos entre si.

Trump pode legar aos sucessores mais poder sobre a economia. Será uma herança cara: mais privilégios, mais instabilidade, menos disciplina institucional e um país que tenta superar a China mimetizando justamente as práticas contra as quais oferecia uma alternativa melhor.

Propaganda eleitoral oficial

Por O Estado de S. Paulo

Lula bate recorde com publicidade do governo, óbvia extensão de sua campanha eleitoral

A Presidência da República desembolsou R$ 255,3 milhões em publicidade no primeiro semestre de 2026. Como mostrou o Estadão, é o maior valor gasto com esse propósito para o período em pelo menos 17 anos. A coincidência entre essa escalada de gastos e o calendário eleitoral é eloquente demais para ser tratada como mero acaso administrativo.

A publicidade institucional é instrumento legítimo do Estado quando serve para informar o cidadão sobre serviços, direitos e campanhas de interesse público. O problema surge quando passa a divulgar realizações do governo em volume recorde, às vésperas de uma eleição. Nesse momento, a fronteira entre Estado e governo se embaralha e a comunicação assume contornos de propaganda política financiada pelo contribuinte.

Também chama a atenção onde esse dinheiro foi parar. Entre campanhas permanentes de fortalecimento da imagem do governo, a maior campanha temática foi justamente a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. Ainda que a proposta tenha mérito próprio, não deixa de ser a principal vitrine eleitoral do governo para 2026.

A comparação com outras áreas do governo reforça essa impressão. Enquanto a Presidência desembolsou R$ 255,3 milhões em publicidade apenas no primeiro semestre, o Ministério das Mulheres executou R$ 118,3 milhões em todo o ano passado. As escolhas orçamentárias também comunicam. Quando divulgar ações passa a consumir mais recursos do que políticas voltadas a enfrentar problemas concretos do País, o governo revela o peso que atribui à própria exposição.

O problema, evidentemente, não nasceu com Lula. Presidentes de diferentes partidos recorreram à máquina de comunicação do Estado para ampliar sua presença no debate público. É justamente por isso que a questão não pode depender da moderação de cada governo. Cabe à legislação impor limites claros ao uso desse instrumento. Em ano eleitoral, o dever de informar não pode servir de atalho para promover quem disputa a permanência no poder.

Esses limites, porém, ficaram mais frágeis. Até 2022, a legislação restringia os gastos efetivamente realizados com propaganda oficial em anos eleitorais. Como a expressão “despesa” gerava disputas interpretativas, o Congresso alterou a lei e passou a limitar apenas os empenhos. Na prática, controla-se o compromisso de gasto, mas não necessariamente a propaganda que chega ao cidadão. Não por acaso, especialistas ouvidos pela reportagem defendem que o parâmetro deveria ser o pagamento ou a liquidação das campanhas, porque é a publicidade efetivamente veiculada e não a apenas autorizada.

Não importa quem ocupe o Palácio do Planalto. A comunicação do Estado não pode funcionar como extensão da campanha do governante de turno. Enquanto a legislação permitir que recursos públicos ampliem a exposição política de quem já está no poder, a disputa eleitoral continuará começando com um dos candidatos vários metros à frente dos demais. O Estado existe para informar o cidadão, não para financiar a vantagem eleitoral de quem temporariamente o governa.


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