sábado, 4 de julho de 2026

O que não será investigado, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

As relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro serão – têm de ser – investigadas. As condições estão postas, designado já o relator, André Mendonça, que agora espera a manifestação da PGR. Vai andar. Aquele troço cheira mal, configurado o padrão vorcárico – investidor dedicado na advocacia, no cinema e na hotelaria nacionais – para o fazimento de amizades: a constituição do que parecem fachadas, no Brasil e nos EUA, para a remessa e o recebimento dos milhões de dólares. Foram os dinheiros do banqueiro integralmente destinados à produção do filme Dark Horse?

Com as apurações acerca dos fluxos entre os Bolsonaro e a rede vorcárica tendo afinal trilhos formais sobre os quais avançar, uma questão se impõe: qual será hoje a única porção do escândalo Master – dos trânsitos de Vorcaro e seus zetteis pelos Poderes da República – sem qualquer encaminhamento para que haja investigação? Aquela relativa a ministros do STF.

O gilmarmendismo se impôs para que o garantismo seletivo produzisse o fechamento do estreito de ormuz por meio do qual altas autoridades seriam investigadas. Passaram os barcos – as cabeças já ofertadas – de Ciro Nogueira, Jaques Wagner,

Cláudio Castro, Ibaneis Rocha... Até aí vai a República. O nosso limite histórico – que, desafiado, dispara o bote das nulidades. É com o que conta Vorcaro: ser beneficiado pelo esforço por salvar as mais togadas entre as altas autoridades.

Dias Toffoli, ex-sócio da rede vorcárica, foi relator do caso Master por meses e tomou providências sobre a custódia de provas que o implicavam. Lembremos da relatoria paralela que Gilmar Mendes constituiu de modo a impedir que os sigilos da empresa do colega fossem quebrados. Desde então, e com a ajuda engavetadora de Fachin, é como se o episódio não existisse.

O contrato do escritório da família de Alexandre de Moraes com o Master não apenas existiu, como teve a minuta enviada por Viviane Barci de Moraes a Vorcaro diretamente, por mensagem. Era janeiro de 2024. Em abril, o banqueiro bancaria a versão londrina de seu clube do uísque, aquela da degustação de Macallan, presentes, entre outros hugosmottas, Xandão, Dias Toffoli e – para você que crê em delação do provedor – a dupla Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, respectivamente procurador-geral da República e diretor-geral da Polícia Federal.

Avançamos até 20 de março de 2025 e à mensagem de Vorcaro para a noiva: “(...) acabou chegando hugo e ciro aqui pra falarem com alexandre”. E terminamos em 17 de novembro, com o zap em que – infiltrado no sistema da Justiça Federal – pergunta ao ministro Moraes, aquele que tinha derrubado o X, sobre se conseguira bloquear algo. Pílulas do calendário no curso do qual, mensalmente, o escritório Barci de Moraes receberia R$ 3,6 milhões.

No Brasil em que o gilmarmendismo garante o Direito Xandônico, investiga-se somente o vazador do contrato etc. Nunca o conteúdo vazado. •

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário