sexta-feira, 31 de julho de 2026

Questões externas escondem vazio do debate eleitoral interno, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Um espaço inédito vem sendo ocupado por questões que ultrapassam as fronteiras nacionais

O problema é quando isso toma o lugar da abordagem séria sobre os planos dos candidatos para o Brasil

política externa, as relações do Brasil com outros países, não é assunto que faça sucesso com o público interno. Se o noticiário internacional dos meios de comunicação é restrito a acontecimentos pontuais, nas campanhas eleitorais o tema nunca fez parte do cardápio. Até agora.

Um espaço inédito vem sendo ocupado por questões que ultrapassam as fronteiras nacionais. Há os embates com os Estados Unidos e a Argentina, a ideia de importação dos métodos de combate ao crime de El Salvador e o reflexo, na eleição brasileira, do avanço da direita extrema na América Latina.

A inserção do eleitorado no debate sobre o que se passa ao redor e alhures não deixa de ser uma novidade interessante. Necessária até, desde que não fosse rasa —reduzida à produção de mera propaganda— nem substituísse a abordagem aprofundada dos assuntos internos a respeito dos quais os candidatos, notadamente os favoritos nas pesquisas, têm deixado muitíssimo a desejar.

Tarifasinsultos, vistos negados, crescimento da "onda azul", riscos de interferência externa —tudo isso tem a sua importância, mas nada disso pode servir ao diversionismo sem resultados de quem tem a obrigação primeira de dizer (e convencer) o que pretende como projeto para levar o Brasil adiante.

A exibição de governantes e pretendentes nas vestes de santos guerreiros anima o espetáculo, mas não fornece ao público pagante dos ingressos na forma de impostos, resposta à altura das necessidades. Elas eventualmente até ficam amortecidas no ambiente barulhento, mas não desaparecem.

As tais das demandas continuam liderando a lista de preocupações, caso da economia, da segurança pública, da qualidade dos serviços públicos, da corrupção; da realidade, enfim.

Barreiras a interferências indevidas e instrumentos de defesa da institucionalidade existem e são acionados quando necessário. É preciso que exista com igual ou maior intensidade dedicação à melhoria objetiva da vida dos (sobre)viventes no país.

 

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