Folha de S. Paulo
Um espaço inédito vem sendo ocupado por
questões que ultrapassam as fronteiras nacionais
O problema é quando isso toma o lugar da
abordagem séria sobre os planos dos candidatos para o Brasil
A política
externa, as relações do Brasil com outros países, não é assunto que
faça sucesso com o público interno. Se o noticiário internacional dos meios de
comunicação é restrito a acontecimentos pontuais, nas campanhas eleitorais o
tema nunca fez parte do cardápio. Até agora.
Um espaço inédito vem sendo ocupado por questões que ultrapassam as fronteiras nacionais. Há os embates com os Estados Unidos e a Argentina, a ideia de importação dos métodos de combate ao crime de El Salvador e o reflexo, na eleição brasileira, do avanço da direita extrema na América Latina.
A inserção do eleitorado no debate sobre o
que se passa ao redor e alhures não deixa de ser uma novidade interessante.
Necessária até, desde que não fosse rasa —reduzida à produção de mera
propaganda— nem substituísse a abordagem aprofundada dos assuntos internos a
respeito dos quais os candidatos, notadamente os favoritos nas pesquisas, têm
deixado muitíssimo a desejar.
Tarifas, insultos,
vistos negados, crescimento
da "onda azul", riscos de interferência externa —tudo isso
tem a sua importância, mas nada disso pode servir ao diversionismo sem
resultados de quem tem a obrigação primeira de dizer (e convencer) o que
pretende como projeto para levar o Brasil adiante.
A exibição de governantes e pretendentes nas
vestes de santos guerreiros anima o espetáculo, mas não fornece ao público
pagante dos ingressos na forma de impostos, resposta à altura das necessidades.
Elas eventualmente até ficam amortecidas no ambiente barulhento, mas não
desaparecem.
As tais das demandas continuam liderando a
lista de preocupações, caso da economia, da segurança pública, da qualidade dos
serviços públicos, da corrupção; da realidade, enfim.
Barreiras a interferências indevidas e
instrumentos de defesa da institucionalidade existem e são acionados quando
necessário. É preciso que exista com igual ou maior intensidade dedicação à
melhoria objetiva da vida dos (sobre)viventes no país.

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