O Estado de S. Paulo
Um alto funcionário do governo americano
alertou numa conversa de bastidores que, se o Brasil retaliar os Estados Unidos
por causa do tarifaço, haverá um contra-ataque. Na prática, pode se instalar
uma guerra comercial.
A experiência mostra que ele não está blefando. Até hoje, só dois países tentaram resistir à fúria protecionista de Donald Trump: Canadá e China. Em ambos os casos, a disputa resultou em redução de investimentos e aumento de preços. Acabaram sendo selados acordos parciais. Com menor poderio econômico, os canadenses saíram mais machucados que os chineses.
O Brasil não tem a mesma envergadura de China
e Canadá para entrar num embate com os americanos. O primeiro disputa com os
EUA o posto de maior economia do mundo; o segundo possui uma extensa fronteira
terrestre e um acordo comercial antigo.
Os EUA oficializaram sobretaxas de 25% a
produtos brasileiros, com uma lista de exceções, alegando comércio desleal. As
tarifas podem chegar a 37,5%, se for confirmada nova investigação que acusa o
Brasil de permitir trabalho escravo. Os produtos brasileiros pagarão as
segundas maiores tarifas do mundo para entrar nos
EUA, atrás apenas da China.
Antes mesmo de o tarifaço se concretizar, o
ministro da Fazenda, Dario Durigan, já havia dito que o Brasil estuda utilizar
a Lei de Reciprocidade. Vai ser preciso respirar fundo, porque uma retaliação,
ou reciprocidade, nem sempre é a medida mais prudente a ser tomada.
A investigação americana está cheia de
buracos. Os EUA reclamam que o Pix tira a competitividade das empresas de
cartão de crédito, mas outros países têm sistemas de pagamento eletrônico
semelhantes. Eles argumentam que gostariam de ter o mesmo acesso ao mercado
brasileiro que México e Índia, mas têm dezenas de acordos comerciais
semelhantes.
Também há dúvidas sobre os dados de
desmatamento que os americanos utilizam em seus cálculos para punir o Brasil.
Outras acusações são mais defensáveis, como a dificuldade que o Brasil possui
no combate à corrupção. Ainda assim, não justificam essas enormes tarifas de
importação.
Mas não se trata apenas de uma questão de
justiça ou de reagir a provocações políticas. Logo após a decisão, o secretário
de Estado americano, Marco Rubio, disse que o Brasil não havia negociado de
boa-fé com os EUA – o que não é verdade.
Sobretaxar bens americanos pode encarecer
insumos e máquinas utilizados pela indústria brasileira. A retaliação cruzada –
quebrando patentes de remédios ou prejudicando os negócios das big techs –
doeria no bolso das empresas americanas, mas afetaria o ambiente de negócios no
Brasil. E o maior risco é o da guerra comercial com os EUA diante de um
presidente tão instável quanto Trump. Não há outro caminho a não ser o da
negociação. Funcionários americanos e brasileiros dizem que as portas ainda não
estão totalmente fechadas.

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