sexta-feira, 17 de julho de 2026

Risco de guerra comercial com os EUA, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Um alto funcionário do governo americano alertou numa conversa de bastidores que, se o Brasil retaliar os Estados Unidos por causa do tarifaço, haverá um contra-ataque. Na prática, pode se instalar uma guerra comercial.

A experiência mostra que ele não está blefando. Até hoje, só dois países tentaram resistir à fúria protecionista de Donald Trump: Canadá e China. Em ambos os casos, a disputa resultou em redução de investimentos e aumento de preços. Acabaram sendo selados acordos parciais. Com menor poderio econômico, os canadenses saíram mais machucados que os chineses.

O Brasil não tem a mesma envergadura de China e Canadá para entrar num embate com os americanos. O primeiro disputa com os EUA o posto de maior economia do mundo; o segundo possui uma extensa fronteira terrestre e um acordo comercial antigo.

Os EUA oficializaram sobretaxas de 25% a produtos brasileiros, com uma lista de exceções, alegando comércio desleal. As tarifas podem chegar a 37,5%, se for confirmada nova investigação que acusa o Brasil de permitir trabalho escravo. Os produtos brasileiros pagarão as segundas maiores tarifas do mundo para entrar nos

EUA, atrás apenas da China.

Antes mesmo de o tarifaço se concretizar, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, já havia dito que o Brasil estuda utilizar a Lei de Reciprocidade. Vai ser preciso respirar fundo, porque uma retaliação, ou reciprocidade, nem sempre é a medida mais prudente a ser tomada.

A investigação americana está cheia de buracos. Os EUA reclamam que o Pix tira a competitividade das empresas de cartão de crédito, mas outros países têm sistemas de pagamento eletrônico semelhantes. Eles argumentam que gostariam de ter o mesmo acesso ao mercado brasileiro que México e Índia, mas têm dezenas de acordos comerciais semelhantes.

Também há dúvidas sobre os dados de desmatamento que os americanos utilizam em seus cálculos para punir o Brasil. Outras acusações são mais defensáveis, como a dificuldade que o Brasil possui no combate à corrupção. Ainda assim, não justificam essas enormes tarifas de importação.

Mas não se trata apenas de uma questão de justiça ou de reagir a provocações políticas. Logo após a decisão, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, disse que o Brasil não havia negociado de boa-fé com os EUA – o que não é verdade.

Sobretaxar bens americanos pode encarecer insumos e máquinas utilizados pela indústria brasileira. A retaliação cruzada – quebrando patentes de remédios ou prejudicando os negócios das big techs – doeria no bolso das empresas americanas, mas afetaria o ambiente de negócios no Brasil. E o maior risco é o da guerra comercial com os EUA diante de um presidente tão instável quanto Trump. Não há outro caminho a não ser o da negociação. Funcionários americanos e brasileiros dizem que as portas ainda não estão totalmente fechadas.

 

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