O Globo
Ainda podem surgir fatos novos que inviabilizem
a candidatura de Flavio, e essa insegurança política só terminará se ele
conseguir chegar ao segundo turno
A pesquisa do DataFolha que deu uma vitória para o presidente Lula de cinco pontos percentuais sobre Flavio Bolsonaro no segundo turno, portanto fora da margem de erro, teve o dom de dar alento aos dois candidatos. Lula abriu vantagem mais folgada, mas Flavio, apesar de tantos escândalos e brigas domésticas, manteve a competitividade. A pesquisa não pegou a “reconciliação” entre a madrasta Michelle e o candidato do PL, o que pode indicar que Flavio pode melhorar sua posição se recuperar os votos das mulheres e evangélicos que perdeu ao confrontar Michelle.
Falava-se em desistência de Flavio diante das
dificuldades, mas nada indica que outros candidatos da direita possam fazer
frente a ele. O segundo turno, ao contrário, indica que os eleitores da direita
se unirão em torno de seu nome, o que pode estreitar mais uma vez a diferença a
favor de Lula. O fenômeno da “cristianização” do candidato bolsonarista,
aventado no auge da sua crise de credibilidade, parece não estar se
confirmando, e mesmo que assim fosse, teria um contexto completamente diferente
hoje, que reduziria sua importância.
“Cristianização” refere-se ao candidato à
presidência da República pelo PSD Cristiano Machado em 1950, que foi abandonado
por seu partido, cujos principais líderes passaram a defender a candidatura de
Getúlio Vargas, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que acabou vencendo a
eleição. Naquela época, até muito recentemente, as vitórias do candidato a
presidente guiavam a eleição, e havia sentido em abandonar um cavalo manco no meio
da corrida, para se unir ao possível vencedor. Hoje, a situação é inversa,
muito por causa do próprio Jair Bolsonaro, que delegou para o Centrão a
administração do Orçamento através das emendas parlamentares.
A eleição para presidente perde para os interesses
regionais dos partidos, cujo objetivo principal é eleger a maior bancada de
deputados federais e senadores possível, pois assim controlam o orçamento, com
as emendas partidárias, a maioria na Câmara e o Senado e os fundos eleitorais.
A hipótese de Flavio Bolsonaro ser substituído como candidato do PL fica cada
vez mais distante com os resultados das pesquisas, que confirmam sua capacidade
de unir a direita no segundo turno.
Outro candidato não aparece para absorver
esses votos que saíram de Flavio para ir para os “indecisos”. Se algum dos
candidatos de direita - Caiado, Zema ou Renan - tivesse subido de cotação à
medida que Flavio se envolvia em escândalos e suspeitas, haveria essa hipótese
de abandono. Mas nem o PL de Valdemar Costa Neto, nem Jair Bolsonaro,
cogitariam essa ideia. Os partidos do Centrão tampouco necessitam fazer esse
contorcionismo para levar qualquer dos outros três ao segundo turno, nenhum
deles é um candidato de confiança do grupo, exceção talvez feita a Caiado, mas
que não mostra força própria para justificar a saída da neutralidade.
O tempo, porém, está contra Flavio Bolsonaro,
ainda podem surgir fatos novos que inviabilizem sua candidatura, e essa
insegurança política só terminará se ele conseguir chegar ao segundo turno.
Dificilmente haverá debate político importante no primeiro turno, pois Lula já
disse que provavelmente não participará de nenhum, e Flavio deve estar dando
graça a Deus por essa desistência, que também o desobriga a comparecer. Pode
ser que, sem Lula, ele se arvore a enfrentar os outros adversários da direita,
para tentar ganhar os poucos votos que lhes roubam. Mas sua inexperiência no
enfrentamento, marcada por um desmaio em um debate anterior, pode atrapalhá-lo,
tendo efeito contrário.
A condução da campanha demonstra essa
inexperiência. Agora mesmo, depois da torcida nacional contra a seleção
argentina na Copa do Mundo, trazer para apoiá-lo o presidente Javier Milei
parece um erro. Formalizado ontem candidato do PL à presidência da República,
Flavio entra em nova etapa da campanha, para tentar recuperar os votos
perdidos. Sem vice e sem aliados. O tempo dirá.

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