sexta-feira, 24 de julho de 2026

Transparência sem comprometer a integridade das pesquisas eleitorais, por João Francisco Meira*

Folha de S. Paulo

Até a urna, eleitor pode mudar de posição, indecisos podem se decidir e campanhas podem alterar o ambiente

Também merece cautela a proposta de divulgar locais das entrevistas, sob risco de comprometer a amostragem

O Tribunal Superior Eleitoral exerce papel essencial na garantia de eleições livres, limpas e confiáveis. É positiva a mobilização do TSE pela transparência e pelo aprimoramento metodológico das pesquisas. A reunião e o diálogo promovidos pela corte com os institutos é louvável e estamos à disposição para conversar e construir soluções.

As propostas partem de uma intenção legítima: estimular qualidade, transparência e confiança. Precisamos, porém, avaliar seus efeitos, evitando que mecanismos criados para fortalecer as pesquisas comprometam sua integridade científica.

Esse cuidado se aplica especialmente à eventual criação de um selo de qualidade para quem chega mais perto do resultado final das urnas. Pesquisa não é um instrumento sobre o que vai acontecer. É um diagnóstico sobre o que já aconteceu: registra as opiniões manifestadas durante a coleta. Reportam intenções de voto e a visão do eleitor sobre o momento político.

Até o momento de digitar o número na urna, eleitores podem mudar de posição, indecisos podem se decidir e campanhas podem alterar o ambiente eleitoral.

Também merece cautela a proposta de divulgar previamente os locais das entrevistas. Ao saber onde ocorrerá a coleta, candidatos, partidos, militantes ou grupos organizados podem concentrar ações nesses pontos. Mesmo legítimas, essas mobilizações alteram o contexto social, podem influenciar entrevistados e comprometer a amostra.

Há ainda um problema da segurança física. Em um contexto de polarização, a divulgação dos locais pode expor entrevistadores a intimidações, constrangimentos ou agressões, além de reduzir a liberdade dos cidadãos para responder. Proteger a operação de campo é condição para a qualidade dos dados.

A fiscalização pode ser ampliada sem a exposição antecipada da coleta. Por isso, apoiamos a criação de um Programa de Transparência e Integridade das Pesquisas Eleitorais, com obrigações objetivas.

A primeira seria divulgar os relatórios completos no site do TSE em até 48 horas após a publicação da pesquisa na imprensa. O instituto que não cumprir a obrigação deveria ficar impedido de trabalhar naquela eleição até regularizar a situação. Desde 2024, vários institutos até agora não disponibilizaram os relatórios previstos na resolução do TSE —o que mostra a necessidade de fiscalização efetiva—, mas continuam fazendo pesquisa hoje.

A segunda seria exigir que os relatórios reproduzam integralmente todos os cruzamentos usados na composição e na ponderação da amostra. É preciso mostrar como os entrevistados se distribuem pelas variáveis adotadas, permitindo avaliar as correções e os pesos aplicados.

A terceira seria tornar obrigatória a margem de erro estimada para cada subgrupo ou cruzamento da amostra, calculada após a coleta. A margem de erro geral não pode ser aplicada automaticamente a segmentos menores, que têm maior incerteza estatística.

A transparência deve incidir sobre método, amostra, ponderação, resultados e incertezas, sem comprometer a independência da coleta. O diálogo aberto pelo TSE é uma oportunidade para avançar. Estamos à disposição para colaborar na construção de regras que fortaleçam a confiança pública e protejam a informação oferecida ao eleitor. Afinal, uma pesquisa confiável mede a realidade —e não contribui para modificá-la.

*Presidente do Conselho de Opinião Pública da Abep (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa) e fundador do Instituto Vox Populi

Nenhum comentário:

Postar um comentário