O Globo
Com a transformação da criação em catecismo,
a arte fica sem seu caráter de inquietude
A ministra da Cultura, a sempre simpática cantora Margareth Menezes, amargou o equívoco de sua política cultural identitária no velório do produtor Luiz Carlos Barreto, o querido Barretão. Diante do corpo do marido, Lucy Barreto fez um discurso emocionado alertando sobre a situação do cinema brasileiro, sua penúria sob as regras ideológicas de produção e o que ela chamou de “cisão”. Apesar de o filho Bruno Barreto tentar segurar o desabafo da mãe, não conseguiu, além de ser repreendido. Lucy, uma das líderes da classe, não precisou descer a detalhes, e todos ali, atores, produtores e roteiristas, principalmente a ministra, entenderam texto e subtexto de suas palavras.
A linha cotista e populista do governo
petista penaliza a produção cultural e estrangula toda uma geração de
realizadores instalados no eixo Rio-São Paulo — onde, por questões diversas,
constituiu-se a indústria de economia criativa, com escolas, comércio específico
e mão de obra. Lembro que Barretão era cearense e vivia no Rio havia oito
décadas. Assim como a maioria dos diretores do Cinema Novo, vindos da Bahia, de
Minas Gerais etc.
Barretão, produtor de dezenas de clássicos
brasileiros, morreu indignado. Descansa em sua empresa o último filme de Cacá
Diegues, spin-off de “Deus é brasileiro”. A afirmação não corresponde aos
fatos, ainda mais sabendo que se luta para conseguir recursos e concluir a
obra. Cacá se foi em fevereiro do ano passado! Ambos, Barretão e Cacá, entre
outros gigantes, são responsáveis pela internacionalização do cinema
brasileiro. E isso quer dizer receitas diretas e indiretas trazidas ao país. Os
filmes geram (também) o turismo, a lotação dos hotéis, o comércio etc. Poucos
são os que vão a Nova York por
causa dos livros de Philip Roth, mas muitos correm até Manhattan pelos filmes
de Woody
Allen.
Como Allen e Barretão, vítimas da guerra
cultural, meu querido João Bosco se viu flechado por causa de um verso de Aldir
Blanc escrito há 40 anos. Agradeço diariamente a existência de ambos no meu
universo afetivo. A patrulha cismou com a imagem de um cinto batendo na
companheira. Está em “Gol anulado” e diz: Quando você gritou Mengo/No segundo gol do Zico/Tirei sem pensar o
cinto/E bati até cansar.
Não gosto da hipérbole. Isso é meu gosto. Mas
a canção viveu feliz e sem problemas até encontrar a inanição cultural de
nossos tempos de redes sociais. Quis a militância exterminar a transcendência,
o pensamento abstrato e, com isso, instituir a realidade pedestre ao sabor do
valor de face. Logo implicarão com o verso “seu cachorro me sorriu latindo”.
Vivemos agora o que Stálin tentou e mal
conseguiu, mesmo matando seus melhores — a arte engajada. Com a transformação da
criação em catecismo, a arte fica sem seu caráter de inquietude, de causar
incômodos e até de ferir suscetibilidades. Ou perde o mistério, como pedia
Albert Einstein.
Vejamos a frase do Segundo Manifesto
Surrealista, que reza:
— O ato surrealista mais simples consiste em,
com revólveres em punho, descer à rua e atirar a esmo, tanto quanto se possa,
na multidão.
É algo de efeito. Não é convocação
bolsonarista. Talvez traga boas lembranças a Cláudio Castro, mas Breton e
Éluard jamais pegariam em armas. Trata-se de metáfora, de provocação para
desestabilizar o senso comum.
O que é arte? De lembrar, passados 50 anos,
ainda hoje sinto o arrepio dos golpes de machado desferidos por Raskolnikov na
cabeça da velha agiota Alióna e da irmã Lizaveta. Mas não recordo nada da
recente trilogia de Itamar Vieira Junior.
Meu lugar de fala: fui atrás de uma lenda
familiar e, por meio de testes de DNA, comprovei que minha bisavó paterna era
indígena. Nasceu em Mato Grosso e casou-se com meu bisavô, um ex-marinheiro
espanhol, cuja família de imigrantes tinha um pequeno comércio em Corrientes,
Argentina. Na condição miserável de homem branco de olhos verdes, pensei:
— Agora tenho cota!

Li ''Crime e Castigo'' e achei apenas chato,Itamar Vieira Junior eu nunca li,ainda.
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