segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Barretão, Cacá Diegues e a ministra, por Miguel de Almeida

O Globo

Com a transformação da criação em catecismo, a arte fica sem seu caráter de inquietude

A ministra da Cultura, a sempre simpática cantora Margareth Menezes, amargou o equívoco de sua política cultural identitária no velório do produtor Luiz Carlos Barreto, o querido Barretão. Diante do corpo do marido, Lucy Barreto fez um discurso emocionado alertando sobre a situação do cinema brasileiro, sua penúria sob as regras ideológicas de produção e o que ela chamou de “cisão”. Apesar de o filho Bruno Barreto tentar segurar o desabafo da mãe, não conseguiu, além de ser repreendido. Lucy, uma das líderes da classe, não precisou descer a detalhes, e todos ali, atores, produtores e roteiristas, principalmente a ministra, entenderam texto e subtexto de suas palavras.

A linha cotista e populista do governo petista penaliza a produção cultural e estrangula toda uma geração de realizadores instalados no eixo Rio-São Paulo — onde, por questões diversas, constituiu-se a indústria de economia criativa, com escolas, comércio específico e mão de obra. Lembro que Barretão era cearense e vivia no Rio havia oito décadas. Assim como a maioria dos diretores do Cinema Novo, vindos da Bahia, de Minas Gerais etc.

Barretão, produtor de dezenas de clássicos brasileiros, morreu indignado. Descansa em sua empresa o último filme de Cacá Diegues, spin-off de “Deus é brasileiro”. A afirmação não corresponde aos fatos, ainda mais sabendo que se luta para conseguir recursos e concluir a obra. Cacá se foi em fevereiro do ano passado! Ambos, Barretão e Cacá, entre outros gigantes, são responsáveis pela internacionalização do cinema brasileiro. E isso quer dizer receitas diretas e indiretas trazidas ao país. Os filmes geram (também) o turismo, a lotação dos hotéis, o comércio etc. Poucos são os que vão a Nova York por causa dos livros de Philip Roth, mas muitos correm até Manhattan pelos filmes de Woody Allen.

Como Allen e Barretão, vítimas da guerra cultural, meu querido João Bosco se viu flechado por causa de um verso de Aldir Blanc escrito há 40 anos. Agradeço diariamente a existência de ambos no meu universo afetivo. A patrulha cismou com a imagem de um cinto batendo na companheira. Está em “Gol anulado” e diz: Quando você gritou Mengo/No segundo gol do Zico/Tirei sem pensar o cinto/E bati até cansar.

Não gosto da hipérbole. Isso é meu gosto. Mas a canção viveu feliz e sem problemas até encontrar a inanição cultural de nossos tempos de redes sociais. Quis a militância exterminar a transcendência, o pensamento abstrato e, com isso, instituir a realidade pedestre ao sabor do valor de face. Logo implicarão com o verso “seu cachorro me sorriu latindo”.

Vivemos agora o que Stálin tentou e mal conseguiu, mesmo matando seus melhores — a arte engajada. Com a transformação da criação em catecismo, a arte fica sem seu caráter de inquietude, de causar incômodos e até de ferir suscetibilidades. Ou perde o mistério, como pedia Albert Einstein.

Vejamos a frase do Segundo Manifesto Surrealista, que reza:

— O ato surrealista mais simples consiste em, com revólveres em punho, descer à rua e atirar a esmo, tanto quanto se possa, na multidão.

É algo de efeito. Não é convocação bolsonarista. Talvez traga boas lembranças a Cláudio Castro, mas Breton e Éluard jamais pegariam em armas. Trata-se de metáfora, de provocação para desestabilizar o senso comum.

O que é arte? De lembrar, passados 50 anos, ainda hoje sinto o arrepio dos golpes de machado desferidos por Raskolnikov na cabeça da velha agiota Alióna e da irmã Lizaveta. Mas não recordo nada da recente trilogia de Itamar Vieira Junior.

Meu lugar de fala: fui atrás de uma lenda familiar e, por meio de testes de DNA, comprovei que minha bisavó paterna era indígena. Nasceu em Mato Grosso e casou-se com meu bisavô, um ex-marinheiro espanhol, cuja família de imigrantes tinha um pequeno comércio em Corrientes, Argentina. Na condição miserável de homem branco de olhos verdes, pensei:

— Agora tenho cota!

 

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Li ''Crime e Castigo'' e achei apenas chato,Itamar Vieira Junior eu nunca li,ainda.