Folha de S. Paulo
A IA em breve nos permitirá fazer as
perguntas mais indiscretas às nossas heroínas da literatura
'Diadorim, você fazia xixi em pé com os
jagunços?' ou 'Capitu, o que você viu no Escobar?'
A IA (ou dona Iaiá, como a batizou o poeta e acadêmico Antonio Carlos Secchin) nos oferece uma nova oportunidade de nos metermos onde não fomos chamados. Segundo li, em breve poderemos "conversar" por meio dela com personagens da literatura e ouvir deles respostas a questões que seus autores deixaram em suspenso ao criá-los. Eis algumas possibilidades.
Eu faria a Diadorim, herói/heroína de "Grande
Sertão: Veredas", algumas perguntas indiscretas, talvez até
impróprias: "Diadorim, como você conseguiu se passar por homem durante
tanto tempo no meio daqueles jagunços abrutalhados? Eles faziam xixi em pé no
mato, em grupo, e davam as três pancadinhas. E você? E se eles, entre uma
batalha e outra, te desafiassem para um xixi à distância? Como era na hora de
tomar banho, com todo mundo se jogando nu no rio? E, com todo respeito, como
você se virava quando estava naqueles dias?". Uma pergunta de cada vez,
claro, para não dar chance a Diadorim de me engabelar.
Mas não sei se a maioria das pessoas irá
primeiro a Diadorim. Ninguém resistirá a tentar espremer a personagem mais
enigmática, cuja intimidade todos gostariam de invadir —a insuperável Capitu,
de "Dom Casmurro"—,
para fazer a pergunta fatal: "Capitu, você, afinal, traiu ou não o
Bentinho, seu marido, com o Escobar?" Ninguém se conforma com que Machado de
Assis tenha deixado essa
dúvida no ar, gerando dezenas de especulações e até romances que
se atreveram a recontar a história.
Nas garras da IA, Capitu seria crivada de
perguntas: "Capitu querida, o Bentinho era mesmo um bolha, mas, pelo amor
de Deus, o que você viu no Escobar?". Ou então: "O Brás Cubas, outro
personagem de Machado, era muito melhor. Por que você não pulou de livro e foi
ter um caso com ele? Na ficção, tudo é possível!".
Enfim, são perguntas válidas. Só não confio
nas respostas da IA, uma idiota da objetividade, incapaz de competir com os
escritores naquilo que caracteriza a verdadeira criação: o intangível, o
mágico, o que não tem resposta, nem nunca terá.

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